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Crítica | Seres Rastejantes

por Ritter Fan
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James Gunn estava por aí muito antes de seu nome ganhar real destaque com seu trabalho em Guardiões da Galáxia, em 2014. Sua carreira no mundo do entretenimento começou como músico, ainda em 1989, quando ele formou a banda The Icons, que permaneceu na ativa até meados dos anos 90, período em que coincidiu com seu primeiro trabalho no audiovisual, o roteiro de Tromeo & Juliet que ele escreveu com Lloyd Kaufman, lendário co-fundador da Troma Entertainment e diretor do clássico O Vingador Tóxico. Seu primeiro roteiro solo foi em Os Especiais, seguido de Scooby-Doo, Madrugada dos Mortos e Scooby-Doo 2, o que acabou abrindo espaço para seu primeiro trabalho de direção de longa-metragem: Seres Rastejantes.

Apesar de ter sido um fracasso retumbante de bilheteria, sequer recuperando na bilheteria seu já magro orçamento de 15 milhões de dólares, o filme de 2006 ganhou tração no mercado de vídeo doméstico, angariando um certo status cult que é mantido e lembrado até os dias de hoje. E com razão, devo dizer, pois um dos méritos do longa é que Gunn resgatou os filmes de terrir que faziam sucesso na década de 90, dando-lhe uma ótima roupagem de homenagem aos filmes B que fará os mais diferentes espectadores lembrarem dos mais variados filmes, de Calafrios e Os Filhos do Medo a Invasores de Corpos e O Enigma do Outro Mundo, passando por A Bolha Assassina e A Pequena Loja de Horrores (todas as versões destes quatro últimos, vale salientar), e minha correlação favorita, ainda que decididamente espiritual, O Ataque dos Vermes Malditos.

Em outras palavras, Seres Rastejantes é diversão garantida naquele espírito trash, só que surpreendentemente bem feito, que conta com um um elenco inspirado encabeçado por Elizabeth Banks como Starla (Stella!!!), esposa do milionário Grant Grant (Michael Rooker) que é o primeiro a ser dominado por um ser rastejante vindo do espaço e que, ato contínuo, causa crescente caos na cidadezinha de Wheelsy, na Carolina do Sul, com o Chefe de Polícia Bill Pardy (Nathan Fillion), apaixonado por Starla desde jovem, tendo que lidar com as consequências. O crescendo de situações nojentas é o grande atrativo do longa, já que Gunn não tem pressa em mostrar o que ele tem reservado para o espectador, vagarosamente lidando com a transformação de Grant que, primeiro, depois de ser “alvejado” pelo que parece ser um dardo alienígena, passa a ter um apetite particularmente estranho por carne crua.

Basicamente toda a primeira metade do longa é feito naquele simpático “estilo antigo” que segue a cadência da ameaça alienígena sendo apresentada logo nos primeiros quadros, mas ficando em banho maria por um tempo, seguido da apresentação lenta (no sentido positivo) dos personagens, com tudo feito com carinho muito grande e, mais ainda, um olhar clínico de Gunn para enquadramentos, composição de cenários e o bem-vindo destaque ao elenco, especialmente Rooker e Banks, que evoca o espírito de tantas obras que ele homenageia, mas sem ser óbvio ou direto para além dos nomes de alguns personagens como Jack MacReady (Gregg Henry), o prefeito da cidade, que é a fusão de dois clássicos personagens de Kurt Russell em sua excelente parceria com John Carpenter, Jack Burton de Os Aventureiros do Bairro Proibido e R.J. MacReady do citado O Enigma de Outro Mundo. Quando o “segundo ato” começa, Gunn acelera a movimentação de peças e os exageros pirotécnicos que, aqui, se restringem a maquiagem e próteses práticas, além de animatrônicos, sempre com uma camada não muito boa, mas discreta o suficiente para não atrapalhar de computação gráfica, que dá o complemento necessário à ambição do longa.

A trilha sonora de Tyler Bates, que continuaria a parceria com Gunn por todos os longas seguintes dirigidos por ele (menos o recente O Esquadrão Suicida) tem simbiose perfeita com a proposta do longa e parece evocar “terror dos anos 60” em todas as suas notas, mas mantendo a jocosidade e leveza que o roteiro imprime, jamais obrigando que o espectador leve o filme mais a sério do que ele deveria ser levado. É como uma viagem no tempo audiovisual, mas cujas imagens e sons do passado permanecessem semitransparentes, permitindo que a pegada moderna que o longa decididamente tem seja regente, sem âncoras nostálgicas pesadas demais.

Já em seu primeiro longa, o músico transformado em roteirista, transformado em diretor mostra a que veio ao construir em cima de ombros de gigantes, mas sem deixar que a sombra deles escondam seu estilo. Seres Rastejantes é uma pequena joia do terrir da primeira década dos anos 2000 que imediatamente revela que James Gunn não é apenas mais um diretor qualquer.

Seres Rastejantes (Slither – Canadá/EUA, 2006)
Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn
Elenco: Elizabeth Banks, Nathan Fillion, Michael Rooker, Tania Saulnier, Gregg Henry, Don Thompson, Brenda James, Jennifer Copping, Jenna Fischer, Haig Sutherland, Rob Zombie, James Gunn
Duração: 95 min.

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