Home FilmesCríticas Crítica | Sérgio (2020)

Crítica | Sérgio (2020)

por Michel Gutwilen
313 views (a partir de agosto de 2020)

Logo em sua primeira cena, o filme Sérgio, a partir de uma falsa auto-consciência, tenta se eximir de uma culpa que ele carregará ao longo de sua exibição. Diante da câmera, o embaixador Sérgio Vieira de Mello (Wagner Moura) está preparando uma mensagem de boas vindas os novos membros da ONU. Uma repórter pergunta: “Como se tornou alto-comissário para os Direitos Humanos?” Já o brasileiro, responde: “Nossa! Sabe que não consigo resumir trinta e quatro anos em três minutos”. Obviamente, adaptar a vida de figuras históricas em 118 minutos é sempre um desafio, mas isso não é um passe livre para que o roteirista Craig Borten lave suas mãos do desastre que ele mesmo irá cometer. Afinal, o problema do longa não são os momentos históricos na vida de Sérgio que ele deixou de mostrar, mas justamente aquilo que ele optou por dar foco.

Eu gosto de pensar que em todo filme existe uma sequência-chave que seja o resumo de todo o seu tom. Aqui, isso acontece quando Sérgio e sua futura esposa, Carolina (Ana de Armas), estão passeando no meio de uma vila do Timor Leste. Primeiramente, temos o tocante monólogo de uma moradora local para o embaixador, na qual, ao ser perguntada sobre o que ela quer, afirma que quer subir ao céu, virar uma nuvem, e cair em forma de chuva, ficando para sempre na terra. Na sequência seguinte, uma chuva cai e Sérgio afirma que naquele lugar sempre chove no mesmo horário, dando seu primeiro beijo em Carolina, no meio do temporal, filmado em close-up e com uma trilha melancólica.

Ora, descrito os acontecimentos, vemos que a sequência começa com um realismo quase documental (uso de língua nativa, atriz amadora, a tentativa de compreender a cultura distante) rapidamente se transforma no beijo na chuva quase que de um clássico hollywoodiano, cercado de liberdade poética. No caso, é ainda mais grave, se fizermos um paralelismo entre as cenas: para a nativa, que já perdera toda a família para a guerra, virar um entidade da natureza reforça uma tradição local baseada em mitos e uma forte religiosidade no pós-vida. É revelador que tal significado simbólico e profundo da chuva previamente apresentado seja banalizado como pano de fundo para um beijo purificador do protagonista estrangeiro, o que resume toda o filme: uma tentativa de subordinar seu caráter biográfico a um drama apelativo para para a audiência.

Até mesmo o diretor Greg Barker, que anteriormente só havia trabalhado em documentários para a televisão (inclusive, um sobre o próprio Sérgio, 10 anos antes, que pode ser conferido na Netflix), chega a flertar inicialmente com o uso de imagens de arquivo, mas logo as abandona, sem nenhum motivo. Assim, Barker passa a escolher sequências de planos médios ou close-ups no rosto de Moura, normalmente desfocando o fundo. Bem, inegável que o filme é sobre a figura de Sérgio Vieira de Mello e não um passeio turístico pelo mundo, mas a escolha dos planos vão revelando que se trata de uma visão unicamente preocupada em abordar o objeto da cinebiografia, mas esquecendo que, para um embaixador da ONU, é justamente sua relação com o ambiente e o povo que lhe definem. No único momento que Barker filma o Iraque e seu povo, são em planos subjetivos de Sérgio dentro de um carro, o que reforça essa visão afastada.

Progressivamente, Sérgio vai cada vez mais se afastando de seu tom biográfico (que já era falho) e vai virando um drama intimista focado na relação entre Moura e De Armas. Por um lado, entendo a tentativa de desconstruir uma figura mítica, colocando-lhe em um lugar comum e de fragilidade, expondo seus pequenos dramas. Contudo, isso não pode significar uma mudança abrupta no foco, a ponto de fazer entender que a figura de Sérgio se resume ao seu relacionamento. O auge desta contradição e cafonice é exatamente na sequência final, quando temos a voz em off de Sérgio narrando que trabalhar nas Nações Unidas significa ajudar aqueles que precisam e sofrem, enquanto a imagem mostra uma sequência “poética” de Carolina boiando no mar. Ou seja, é esse o seu legado?

De mesmo modo, outra decisão narrativa questionável do filme é sua não-linearidade, funcionando como uma espécie de retrospectiva a partir dos últimos devaneios do protagonista, com a aproximação de sua morte. Reconheço que, a partir disso, é possível argumentar em favor do foco nos dramas intimistas, mostrando que, em seus momentos finais, o que importava para ele era, na verdade, sua vida fora do emprego. Similarmente, a já mencionada cena do beijo na chuva também se justificaria, como uma própria lembrança romantizada do quase-falecido de um acontecimento marcante em sua vida. Porém, penso que nada disso seja forte o suficiente para anular o ponto de que a maior preocupação de Barker, ao trazer o atentado terrorista para o primeiro ato, é um artifício barato para prender a atenção do espectador logo de imediato e segurá-lo até o fim. Não só isso, mas tal escolha de começar pelo final atribui um senso de fatalismo e culpa de Sérgio em relação a sua própria morte, como se suas decisões o tivessem levado até ali, algo que nunca é aprofundado no roteiro.

Aliás, para um obra sobre um brasileiro que tem a pretensão de recorrer a todas as apelações possíveis para ser exportada ao público americano, a própria escalação de Wagner Moura (e Ana de Armas) reforça este aspecto, uma vez que é um dos nomes latinos mais conhecido do outro lado do continente. Basta ver um vídeo do verdadeiro diplomata Sérgio de Mello para escutar seu inglês de um lord britânico, enquanto Moura jamais tenta esconder seu sotaque marcado por um forte “carioquês”, assim como ainda há cacoetes de um Capitão Nascimento nos momentos de explosão do embaixador. No fim, é este tipo de coisa que vende a imagem do Brasil lá fora. Não é o suficiente para Sérgio Vieira de Mello.  

Sérgio (Sergio) – Estados Unidos, 2020
Direção: Greg Barker
Roteiro: Craig Borten (baseado no livro de Samantha Power)
Elenco: Wagner Moura, Ana de Armas, Garret Dillahunt, Will Dalton, Bradley Whitford, Brían F. O’Byrne, Clemens Schick
Duração: 118 min.

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21 comentários

Daniel Duarte 31 de julho de 2020 - 21:39

A sacanagem é que venderam o filme sendo um filme biográfico

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Beatriz Lynch 25 de maio de 2020 - 15:24

Adoro o Wagner Moura, mas aqui, tanto ele como o filme em si, foram péssimos.

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Michel Gutwilen 27 de maio de 2020 - 20:46

Também não gosto da atuação em específico não. E eu nem acho que ele tenha ficado o resto da carreira preso com tiques do Capitão Nascimento. Em Praia do Futuro e Narcos ele está ótimo. Abs

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Sóstenes - Toty 19 de maio de 2020 - 21:18

É aquele caso onde a História é muito melhor que o filme.
O documentário sobre ele vale a pena?

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Michel Gutwilen 20 de maio de 2020 - 01:47

Ainda não assisti, mas escutei de outros colegas críticos que é bem melhor do que a ficção (o que não é muito difícil também, vamos combinar, hehehe). O que me deixa curioso para ver é saber que é o mesmo diretor para duas obras e tentar entender como ele, aparentemente, acertou no documentário há 10 anos atrás e errou tão feio aqui. Está disponível na Netflix, abs.

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Sóstenes - Toty 22 de maio de 2020 - 00:13

pois é, esse filme é muito estranho. No quesito roteiro. vou ver o doc.

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Alessandro 26 de abril de 2020 - 13:28

Somente a expressão do Wagner Moura já diz muita coisa sobre este filme. Com certeza pinta o retrato do biografado com um verdadeiro “santo” na cena só faltou a aurela de anjo. Ou seja, fuja este filme!

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Michel Gutwilen 15 de maio de 2020 - 11:50

Bem por aí mesmo, muito sem defeitos, né? hahahahahaha.

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Marcelo K 22 de abril de 2020 - 22:40

Neste filme tivemos um flashback dentro de um flashback dentro de um flashback. Que condução triste…

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Michel Gutwilen 15 de maio de 2020 - 11:44

Objetivamente, não tenho nada contra esse recurso narrativo, o problema é que aqui parece atrapalhar mais o filme do que ajudar mesmo.

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Serge Renine 22 de abril de 2020 - 08:27

A nojentisse do Wagner Moura contamina o personagem e só não mancha a figura de um herói real, perante o mundo, do Sergio Vieira de Mello, porque o tal Moura é tão incompetente que não conseguimos ver o diplomata Sérgio em nenhuma cena, mas sim o capitão Nascimento usando terno e fazendo cara de coitado.
Brasileiro é um inútil pra fazer cinema, e pra outras coisas também.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 22 de abril de 2020 - 08:37

Jaguadarte

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Michel Gutwilen 22 de abril de 2020 - 14:36

Adorei a referência, Luiz. O problema de criticar uma atuação do Wagner Moura por motivos estritamente cinematográficos é que acaba atraindo um povo que certamente não gosta dele por motivos que já sabemos quais são.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 22 de abril de 2020 - 16:37

É aquele tipo de gelo fino que a gente vê fazer barulho a km de distância hehehehehe.

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Michel Gutwilen 22 de abril de 2020 - 14:48

“Brasileiro é um inútil pra fazer cinema, e pra outras coisas também.Apesar de concordar” Generalização extremamente infeliz que mostra um total desconhecimento da trajetória brasileira no cinema, além de nem fazer sentido aqui, visto que o filme é NORTE-AMERICANO. Convido que conheça Humberto Mauro, Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, José Mojica Marins, Eduardo Coutinho, Neville D’Almeida, Ana Carolina e TANTOS outros realizadores. E não, eu não acho o Wagner Moura “nojento”, apesar de não gostar de sua atuação especificamente neste filme. Sua fala soa estritamente política. Abs

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Sarah Persons 20 de abril de 2020 - 09:52

Eu nunca gosto muito do Wagner Moura, então talvez isso tenha contribuído pra eu não gostar ainda mais do filme que já é péssimo.

Uma pena terem desperdiçado a Ana de Armas. Uma atriz muito boa, e se souber escolher bem seus papéis daqui pra frente, pode acabar tendo futuro em Hollywood.

Esse filme ao meu ver cometeu os mesmos erros de Frida, que ao invés de ser algo mais biográfico, acabou ficando nesse lenga lenga de romances, e o filme acaba e continuamos sem saber quem era Sério.

Uma pena!

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Michel Gutwilen 22 de abril de 2020 - 21:28

Adoro a Ana de Armas, principalmente por Entre Facas e Segredos. O Wagner continuo achando um ator bem regular. Narcos, por exemplo, eu não vi nada de Capitão Nascimento, era puramente Escobar. Aqui que pareceu uma grande escorregada. Abs.

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Rilson Joás 19 de abril de 2020 - 23:41

‘Sergio’ conta a história de um diplomata brasileiro que foi representante da ONU em diversas missões na Ásia e no Oriente Médio. E dois temas me chamaram muito a atenção durante o filme. Primeiro, a busca incessante de Sérgio para conseguir a paz entre grupos antagônicos por meio do diálogo, e não por meio da violência. Em diversas ocasiões do filme ele é enfrentado pela tentação de tomar decisões pelos outros e por querer tomar algum tipo de administração mais longa da ONU, mas ele está convencido da ideia de que a verdadeira liderança busca empoderar os outros, e acredita que o melhor método de resolver os conflitos é garantindo a independência e a democracia dos povos. E segundo, a busca incessante de Sérgio pelo seu lar, representado pelo Rio de Janeiro, mas que é compartilhada por outros personagens do filme, como uma senhora do Timor-Leste que perdeu dois filhos na guerra e que conta que o seu sonho é ter paz em seu lar. A eterna saudade é algo que chama a humanidade desde a Queda no Éden, e o verdadeiro retorno ao lar é algo sugerido várias vezes durante o filme.

Gostei bastante do filme. Acredito que ele procura criar uma ideia de união entre a entrada no ‘lar’ e o momento da morte, e por isso, perde um pouco de ritmo. Mas é um ótimo filme.

8.5 de 10

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Michel Gutwilen 20 de abril de 2020 - 17:40

Fico feliz que você tenha apreciado melhor o filme e acho que você também argumenta bem os pontos que fazem você gostar dele, inclusive melhor do que muitos críticos por aí, risos. Sobre isso de preferir diálogos ao invés da violência, acho que o filme explora tão mal isso e recorre a vários clichês toscos. Por exemplo: Sérgio Vieira conversando com o líder contrário ao Timor Leste, aí o líder se irrita, se encaminha para sair da sala, o diplomata solta uma frase de efeito, e ele vira de costas. Acho bem simplificador resumir conflitos diplomáticos assim. Bom ponto mesmo sobre essa busca do lar, apesar de achar que para isso ser reforçado visualmente, o Rio de Janeiro teria que aparecer bem mais vezes. Abs

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Victor Martins 19 de abril de 2020 - 12:31

Ótima crítica, já imaginava que esse filme seria uma bomba, infelizmente.

Desperdício de Wagner Moura e de Ana de Armas, uma atriz que vem surpreendendo, e uma oportunidade perdida.

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Michel Gutwilen 20 de abril de 2020 - 17:35

Obrigado. Realmente, acho o Wagner mal escalado aqui. Já a Ana, que adoro tanto, coitada, faz o coerente dentro do papel, mas papel este que nem deveria ter tanta atenção pelo roteiro.

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