Crítica | Serpentário, de Felipe Castilho

De acordo com as ideias disseminadas ao longo de Serpentário, nós vivemos num mundo de predadores e por isso, precisamos fazer de tudo para ficar no topo da cadeia alimentar. A afirmação se comprova quando observamos com mais detalhismo a trajetória do grupo de jovens, delineada na atualidade, mas com estopim dos conflitos internos e externos datados de um acontecimento ocorrido há duas décadas. Escritor com carreira recente, Felipe Castilho, autor de Ordem Vermelha e da HQ Savana de Pedra emprega no romance em destaque nesta reflexão, uma orgânica mixagem de crítica social aos elementos do legado folclórico brasileiro, tema já tratado em outros momentos de sua produção literária. Tributário do estilo fantástico de H. P. Lovecraft, de quem é escritor que ressoa em cada página de Serpentário, o autor brasileiro metaforiza a troca de pele das cobras com as promessas de mudança dos seres humanos em eventos como a festa de réveillon, período festivo que no livro, serve como ponto de partida do passado, macabro e sombrio, para explicar o presente, angustiante e traumático.

Lançado em 2019, Serpentário é, como toda produção literária deve ser, um produto de seu contexto histórico. Há claras críticas de cunho político ao atual projeto brasileiro de nação, tessitura social costurada por extremismos e anulações do “outro”. Horror, folclore, cultura pop e drama se mesclam numa história que tem as suas fragilidades, mas não fica em momento algum subserviente aos modelos estrangeiros de exposição da fantasia e de traços do terror. É preciso reforçar isso porque de imediato, as comparações com as idas e vindas entre o passado e presente de It, A Coisa, bestseller de Stephen King, pode se estabelecer (e permanecer) como uma estrutura narrativa comparativa insistente. Importante ressaltar que pelo nome, o livro pode também transmitir uma ideia errônea sobre o seu conteúdo. Assim, deixo claro que Serpentário não é um romance sobre víboras assassinas, tampouco uma história sobre jovens perdidos numa floresta repleta de répteis perigosos.

O grande perigo aqui é o próprio ser humano, alegorizado pela forte figura da serpente, cristalizada em nosso imaginário popular.  Felipe Castilho, um dos expoentes da jovem literatura brasileira, demonstra muito talento no desenvolvimento do livro, mesmo que para quem vos escreve, a experiência não tenha sido totalmente agradável. O autor utiliza uma técnica envolvente, a história dentro de outra história, num misto de fragmentos de memória e relatos do presente, apresentados pela narradora Carol. Basicamente, um trio de jovens vai passar o réveillon de 1999 numa região próxima do centro urbano onde vivem. Lá, eles encontram outro amigo, já residente no local. Com o grupo formado, partem para uma visita nada convencional ao território da Ilha das Cobras, região que fora do contexto ficcional, é preservada pela marinha e sob supervisão constante, é considerado como um dos locais mais enigmáticos e perigosos do mundo, pois abriga o maior número de serpentes por metro quadrado do planeta. Já pensou? É nesta zona inóspita que o mistério se estabelecerá.

Diante do exposto, somos testemunhas de como eram os personagens e de como se transformaram duas décadas depois. A narradora, Carol, exerce um trabalho numa livraria e em seu fluxo constante de consciência, expõe seus pensamentos sobre a vida, a família, o desgosto dos pais pelos caminhos percorridos em sua trajetória, além de tecer com um tom mordaz, claramente inspirada pelo ponto de vista de Felipe Castilho sobre as coisas da vida, críticas ao tempo em que ainda acreditava que a terapia lhe ajudaria na condução de certos problemas. Além da jovem, temos Mariana, destroçada pelos acontecimentos sombrios do passado, agora uma mulher de vida religiosa, casta dentro das convicções que a deixam mais confortável diariamente. Hélio, viciado em entorpecentes, é um dos mais degradados fisicamente, mergulhado no desconforto de uma vida que não saiu como planejado. Eles vivem numa gravitação constante diante do que aconteceu com Hélio, o menos privilegiado do grupo, menino com dificuldades financeiras e sem as mesmas oportunidades que o trio gozava na adolescência. Lá, na Ilha das Cobras, algo mórbido interrompeu o que seria entretenimento e transformou o passeio num tenso momento de escolhas que mudaram as suas vidas para sempre. Por representar a polêmica discussão em torno da meritocracia, Hélio é o personagem ideal para Castilho deitar e rolar com as suas críticas exercidas com deboche e muito humor.

Tal como uma serpente que também representa a circularidade de movimentos, o retorno de Hélio, vivo e bem-sucedido, sem o destino que eles acreditavam ter selado lá no passado, reforça o contexto de relações deterioradas dos personagens, mergulhados em supostas verdades que não se sustentam. O narrador observador, em várias passagens, relaciona as histórias individuais e as atitudes dos personagens com características típicas das serpentes, tais como as voltas do enredo, graças ao projeto gráfico que une o suporte a própria prosa do escritor, além de observações discretas, mas significativas, tais como “olhos que não piscam”, “sol que descama a pele”, etc. É muito cuidadosa a maneira como o autor desenvolve as metáforas da temática envolta em imagens do folclore, sem cair em estereótipos e caricaturas comuns aos “enredos” de horror. Por sinal, vejo Serpentário como horror, mas a obra em si não está conectada com o gênero. É apenas uma questão de ponto de vista. É um livro que causa desconforto e inquietude. Isso é tácito.

Ficamos, ao longo da leitura, em busca de respostas sobre o que é a serpente e qual o seu significado para o estabelecimento dos conflitos de 1999 que ressoam vinte anos depois. Sem entregar de maneira fácil, tampouco objetivamente, Felipe Castilho oferta ao leitor uma história de sacrifícios e abandono, questionamento de sanidade, dentre tantos outros temas e subtramas, sendo as pequenas e breves histórias adicionais dispersivas e prejudicais para o ritmo do conflito central. Os cenários mais lúcidos são urbanos, onde os acontecimentos do presente de desenvolvem. A Ilha da Queimada Grande, realmente existente no litoral de São Paulo, como abordado anteriormente, ou seja, a Ilha das Cobras, surge como espaço das reminiscências, exposição nublada e incerta de um ambiente com potencial para imprimir mais densidade na atmosfera de drama e horror que se envolvem nesta trajetória enigmática de personagens, repleta de citações e comentários aos mais diversos ícones do folclore brasileiro e à cultura pop.

Ademais, ao longo de suas 368 páginas, a publicação nunca deixa de ser atraente no que tange ao seu projeto literário bem-sucedido. A história de uma serpente onipresente e da constante angústia de personagens que precisam retornar ao passado, tendo em vista cicatrizar feridas ainda abertas no presente, teve na edição da Intrínseca um cuidadoso suporte visual, importante para a imersão do leitor nos desdobramentos da história. Com projeto assinado por Anthonio Roden, a capa de Túlio Cerquize traz imagens de serpentes para todos os lados, grafadas de branco numa superfície preta com lombadas verdes que coaduna com a diagramação simples de Inês Coimbra, cercada de ilustrações que serpenteiam as bordas do livro e reforçam, tal qual as metáforas literárias do texto, o caráter simbólico deste réptil que desde os tempos bíblicos, é alegoria cheia de dualidades, num jogo de representações que envolvem perdição e sabedoria, prazer e culpa, desejo e repulsa. Em suma: um livro com grande potencial, escrito por quem entende de literatura e possui talento para o desenvolvimento de histórias. O único problema é que não considerei a trajetória atraente. Falta carisma nos personagens, em especial, a protagonista. O excesso de incertezas e ganchos no final atrapalham a fluência e diminuem o ritmo. Com exceção destes equívocos, Serpentário tem seu lugar de destaque no atual panorama da literatura brasileira.

Serpentário (Brasil, 2019)
Autor: Felipe Castilho
Editora: Intrínseca
Páginas: 368

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.