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Crítica | Serpico

por Fernando JG
1.112 views (a partir de agosto de 2020)

Temos aqui, de fato, um exemplo do que é uma grande entrada de um filme. A fenomenal montagem da primeira cena, amarrando, com uma conexão ímpar, dois episódios temporalmente distintos da trama em um único discurso, é um marco narrativo deste filme. Isto é, somos recebidos por um Serpico, personagem policial de moral exemplar, ferido, quase morto, sendo levado às pressas ao hospital; na cena que espelha essa – que a complementa, melhor dizendo – existe um corte e um retorno do enredo para o momento em que Serpico está ouvindo uma fala sobre o que é ser policial: que seria acreditar na lei e na igualdade, na justiça, na coragem, praticando a compaixão mas também colocando-se em risco pelo bem coletivo. O senso de justiça de Serpico, explicado no discurso da segunda cena, explica a sua hospitalização no primeiro instante. Ao amarrar dois episódios tão distintos e espelhá-los entre si, explicando de maneira concisa e simbólica todo o enredo, o cineasta provoca um prazer estético em quem assiste e acredito fielmente que todo bom filme provoque esse prazer visual e saiba manejar a montagem a fim de provocar esse efeito. 

Dito isso de um primeiro instante muito bom, a continuação do argumento não decepciona e atende a tudo aquilo que é prometido. A ideia de criar uma linearidade que permita o desenvolvimento do personagem, evidenciando seus motivos e os conflitos que decorrem de suas escolhas, dá essa liga necessária para que o filme não decaia, afinal, iniciar o longa com a entrada de Serpico na polícia é o pontapé inicial para explicar todos as motivações fílmicas. A trajetória de Serpico, com isso, é narrada desde o início. 

Al Pacino, depois de ter estreado oficialmente no mundo da máfia cinematográfica fazendo o papel de Michael Corleone em O Poderoso Chefão, protagoniza, enfim, Serpico, drama policial dirigido por Sidney Lumet. O núcleo formado por Poderoso Chefão, Serpico e Scarface compõem um grupo de filmes especiais para a carreira de Al Pacino, tendo em vista que ele é canonizado justamente por isso. Se por The Godfather Pacino já havia sido indicado por ator coadjuvante no Oscar de 73, será pelas mãos de Sidney Lumet que ele passa da categoria de coadjuvante para ser cotado por ator principal. Sua interpretação como Frank Serpico não é brilhante, mas é em si consistente e dá gosto de ver o seu desapontamento em relação ao serviço oficial, além de que há sempre o charme típico que Pacino traz em qualquer atuação e aqui não é diferente, sobretudo por ser um filme de início de carreira, em que ele está no auge da juventude. 

O filme é baseado no livro de nome homônimo de Peter Maas e conta sobre a entrada de um jovem no serviço de polícia de Nova York. Frank Serpico (Al Pacino) é o novo policial da área, contudo, diferente da atuação tirana de seus colegas, ele insiste numa ação menos injusta, por vezes imparcial, no tratamento com o criminoso. Frank idealiza um serviço policial perfeito mas leva um choque ao bater de frente com interesses muito maiores e que regem, por dentro, a atuação da polícia: corrupção, suborno, lavagem de dinheiro e tudo aquilo que já é conhecido do grande público. Quando Serpico recusa receber o dinheiro sujo, ele passa a ser perseguido pelos próprios colegas de profissão, que irão ao limite para eliminá-lo. Serpico ameaça a estrutura de crime do esquema policial. 

O longa tem uma linha tênue entre o ideal, o idealizado, o utópico e o inocente, linha esta que é superada pela quase morte do personagem principal, o que rompe com qualquer vestígio de inocência que o roteiro poderia deixar. Estranhamente o filme causa um efeito de ser utópico, mas por que seria utopia um agente policial justo? A formação ética do personagem é combatida pelos próprios agentes de justiça e é colocada em cheque por nós, que o julgamos idealizado demais em vista de uma estrutura de poder enrijecida e hierárquica na qual manda quem pode e obedece quem tem juízo. A parábola contada por sua namorada, de um povo outrora lúcido que bebe de uma fonte envenenada e acorda no dia seguinte em estado de delírio, acusando o rei de loucura, fazendo-o com que também beba da fonte e se torne “lúcido” como eles, é muito emblemática da linha temática escolhida pelo filme e resume de maneira brilhante a vertente crítica do filme. 

Fato é que o longa-metragem consegue se transportar para além da ficção, produzindo um impacto a nível do real, mesmo com uma distância temporal de 50 anos entre o lançamento do filme e hoje, o ano de 2021. A trama só consegue atingir um grau de verossimilhança tal porque são eventos ocorridos no âmbito do real, e é fácil de acreditar em algo que já ocorreu uma outra vez. É exatamente isso o que acontece em Tropa de Elite, por exemplo, visivelmente influenciado pelo cinema de Sidney Lumet. 

O foco narrativo é centrado no personagem principal, o que faz o filme ter uma cara de “cinebiografia” ou algo do tipo. A direção aposta em poucas, mas boas cenas de violência, e enfoca bastante no esquema criminoso da polícia e nas dificuldades de Serpico em não ser tragado por isso – e é isso que constrói o arco dramático, que é sustentado pela bela atuação de Al Pacino. O filme tem uma estrutura autoexplicativa, apesar de soar confuso algumas das vezes. No entanto, essa confusão é proposital, afinal de contas, Serpico mesmo não sabe quem é amigo e quem é inimigo. Desmontar o esquema de corrupção na polícia parece ser o fardo mais pesado de um homem honesto como Frank, em que até a justiça da corte e as leis parecem estar contra o correto. 

O destaque do ponto de vista do protagonista é a sua evidente degradação. Durante o primeiro ato ele é um homem dócil, ao fim, Serpico é um homem rude, endurecido, se enfurecendo por qualquer motivo. Embora seu humor tenha sido contaminado pela corporação, ele jamais deixa de lado sua virtude. Com isso, fica claro que o longa não tem a intenção, de modo algum, de demonstrar que o crime compensa ou que a honestidade é uma virtude “menor” em alguns contextos, mas tem a finalidade de evidenciar uma certa perpetuação de determinadas situações de poder que, de tão rígidas, aparecem enraizadas e indissolúvel. Serpico é, certamente, reconhecido e aplaudido por sua atuação como um tira digno, com moral excelente, um espelho entre os policiais – o que quase custa a sua vida -, mas todos sabemos que ele é apenas uma onda rasa em meio ao tsunami. 

Sidney Lumet constrói não uma ação, mas um drama policial bem pegado, com densidade psicológica intensa, daqueles em que assistimos à trajetória de um único homem no meio do seu dilema moral mais profundo. Serpico é um filme corajoso e que toca em problemas graves e acerta o ponto exato do calcanhar de Aquiles do serviço policial nos Estados Unidos. De alguma maneira, o cineasta ilude o seu próprio herói para então colocá-lo numa situação de desesperança, como se tirasse o doce da boca de uma criança. Serpico é o campeão moral de tudo isso, mas a gente sabe que ele perde a guerra, só é difícil de admitir. 

Serpico (Serpico, EUA, 1973)
Direção: Sidney Lumet
Roteiro: Martin Bregman
Elenco: Al Pacino, John Randolph, Tony Roberts, Barbara Eda-Young, Cornelia Sharpe, Jack Kehoe, Biff McGuire, Norman Ornellas, Allan Rich, Ed Crowle, Charles White, Richard Foronjy, M. Emmet Walsh, Judd Hirsch, F. Murray Abraham
Duração: 130 min.

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