Crítica | Servant – 1X01 a 1X03: Reborn / Wood / Eel

Média dos episódios:

Servant é a primeira série original do serviço de streaming da Apple, o Apple TV+, a estrear posteriormente ao lançamento da plataforma no dia 1º de novembro de 2019. Como feito com See, For All Mankind e The Morning Show, a ideia é lançar os episódios semanalmente, mas, para dar peso à estreia e volume inicial ao serviço, a série teve seus três primeiros episódios disponibilizados simultaneamente e são eles que passo a criticar em conjunto.

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Quem é mesmo Tony Basgallop? Pois é, para evitar esse tipo de pergunta, o criador e showrunner da série teve seu nome enterrado em todas as quase inexistentes peças de divulgação de Servant, série de horror psicológico do Apple TV+ que já teve sua 2ª temporada autorizada. No lugar de Basgallop, que realmente ainda tem um currículo bastante insipiente, o nome que ganhou atenção foi o de M. Night Shyamalan, um dos produtores executivos e diretor de Reborn, o primeiro episódio. Esse tipo de estratégia de marketing é antiga, mas sempre irritante (sem contar que é ultrajante para aquele que tem seu nome “escondido”), deixando aquele gostinho de “fui enganado” no espectador depois que a verdade é revelada já nos créditos iniciais. Seja como for, apesar da má vontade automática que isso cria, a pergunta que realmente interessa é: apesar da enganação, será que Servant funciona?

Para tentar responder essa pergunta, precisarei abordar spoilers somente do primeiro episódio que, na verdade, estabelecem a premissa da série, pelo que não são exatamente spoilers. De toda forma, seria interessante que o leitor o assistisse (são apenas 34 minutos!) antes de continuar a ler. Fica o aviso.

Sean (Toby Kebbell) e Dorothy Turner (Lauren Ambrose) formam um casal que vive em um belo sobrado de quatro andares (eu acho) na Filadélfia, com o primeiro trabalhando em casa como chef e, a segunda, como repórter televisiva. A rotina dos dois é quebrada logo nos primeiros segundos de projeção com a chegada de Leanne Grayson (Nell Tiger Free), uma jovem contratada para ser a babá do filho ainda bebê do casal. O exato oposto de Dorothy, Leanne é silenciosa e profundamente religiosa, vinda do Wisconsin, um dos chamados estados fly over dos EUA, logo afeiçoando-se do bebê e adaptando-se à casa e estabelecendo a estrutura que o título da série quer salientar e que funciona como a principal crítica social desses primeiros capítulos, ou seja, a relação entre patrão e empregado, entre “mestre” e “servo”, algo que os roteiros inteligentemente mantêm aceso com diálogos e relações de estranhamento constantes, além de visualmente alocar a recém-chegada no único quarto “velho” da casa.

Mas essa sutileza não muito sutil dos textos e do design de produção ficam em segundo plano diante da perturbadora e macabra revelação que acontece no meio do primeiro episódio: Jericho, o bebê, morrera meses antes e Dorothy entrou em catatonia, só saindo em razão de uma terapia alternativa que usa como elemento principal um boneco ultra-realista da criança. Sean detesta essa ideia e sofre secretamente, mas mantém o faz-de-conta em prol da possível cura de sua esposa que trata o boneco sem vida como se vida tivesse. Além disso, para a surpresa de Sean, Leanne, contratada justamente para manter a terapia funcionando, mantém a farsa como se fosse a coisa mais natural do mundo, o que acrescenta mais camadas horripilantes em cima de uma premissa já extremamente desconfortável. Ao final do episódio, ocorre um evento que, apesar de não ser necessário revelar aqui, estabelece uma reviravolta mais do que previsível na série e aí sim revela o que ela pretende ser.

Shyamalan dirige Reborn deixando sua marca e fazendo de longe o melhor episódio. Considerando que a série é quase que integralmente passada no sobrado, o ambiente, apesar de belíssimo, com móveis e eletrodomésticos sofisticados dignos de capas de revista de decoração, é claustrofóbico, pesado e opressivo, com uma fotografia que mantém a paleta de cores restrita à tons escuros ou escurecidos quebrados apenas pela entrada da luz natural pelas janelas e uma trilha sonora que mais machuca do que pontua as cenas. É um beleza corrompida, algo que, obviamente, paraleliza a situação tenebrosa do casal Turner e, também, a babá misteriosa de rosto angelical. E, para piorar tudo, Shyamalan faz uso de close-ups extremos e de diálogos em que os personagens olham diretamente para a câmera – sem quebrar a quarta parede, que fique claro – que faz com que a experiência de se assistir à série seja a mais desagradável possível, o que por si só é corajoso da produção.

O problema é que os dois episódios seguintes, aí já dirigidos por Daniel Sackheim, prolífico diretor de TV, mas também produtor executivo de séries como House, The Americans e Jack Ryan, são bem menos inspirados. Basgallop, que escreveu os três capítulos iniciais, parece esgotar toda a sua criatividade já no primeiro, deixando os demais dentro de uma estrutura burocrática de mistérios em cima de mistérios que desaceleram a narrativa e começam a justificar – sem realmente justificar – a estrutura serializada de algo que muito provavelmente seria melhor como um filme de duas horas. Nem mesmo a presença de Rupert Grint, o eterno Ron Weasley, como Julian Pearce, irmão de Dorothy e, aparentemente,  o conveniente pau-para-toda-obra, ajuda muito na cadência narrativa, já que ele só contribui para a estranheza da série, com um personagem desagradável que parece que não toma banho há meses. Depois que o susto inicial passa e a novidade vai pela janela, o que sobra são momentos bizarros gratuitos que carregam nos clichês sem que eles sejam realmente bem usados, com sequências “tensas” em banheiras, em triturador de lixo na pia, com crueldade com animais (eu devo ser doente, mas vou confessar aqui que eu ri demais do exagero da cena da enguia, por mais revoltante que ela seja ou talvez justamente por ela ser tão explicitamente revoltante) e outras coisas mais que muito pouco acrescentam à história para além do óbvio ululante embalado em banalidades.

Não acompanho muito as séries e filmes de horror recentes, por ser um gênero que já deu para mim, mas o pouco que vejo me deixa a impressão que a tendência é trabalhar obras que são costuradas ao redor de reviravoltas bem boladas, ou seja, que primeiro são pensadas por causa do twist e, depois, desenvolvidas de maneira forçada a partir dele. Servant parece seguir esse caminho simplista que normalmente resulta em mais do mesmo. Se o primeiro episódio cumpre sua função de tragar o espectador que gosta desse tipo de pegada macabra para a história, os outros dois são como água para diluir um concentrado qualquer. Tony Basgallop tem sua chance de construir seu nome com a série, mas não se ele precisar usar artifícios pretensamente chocantes a cada novo episódio.

Servant – 1X01 a 1X03: Reborn / Wood / Eel (EUA – 28 de novembro de 2019)
Criação e showrunner: Tony Basgallop
Direção: M. Night Shyamalan (1X01), Daniel Sackheim (1X02 e 1X03)
Roteiro: Tony Basgallop
Elenco: Toby Kebbell, Lauren Ambrose, Nell Tiger Free, Rupert Grint, M. Night Shyamalan, Phillip James Brannon, Tony Revolori
Duração: 34 min., 31 min., 30 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.