Crítica | Servant – 1X05: Cricket

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Servant chega à metade da 1ª temporada com um episódio que não parece ser o típico episódio que marca o meio do caminho, mas que, por outro lado, traz uma abordagem diferente para a questão da babá misteriosa. Claro que o roteiro de Tony Basgallop continua exigindo saltos de lógica para que possamos aceitar toda a estranheza da premissa da série que não ganha, em momento algum até agora, o tipo de reação que deveria ganhar de Sean Turner, o pai de uma criança que morrera, é substituída por um boneco realista como parte da terapia de sua esposa e que vê esse boneco magicamente ganhar vida.

A série quase que nos pede para esquecermos desse “detalhe” e focarmos nossa atenção no restante, ainda que, mesmo que façamos isso, os problemas persistam, já que o túmulo de Leanne, além de sua casa abandonada, não foram mais do que breves “blips” no radar de Sean e também de Julian, irmão de Dorothy. Cansa um pouco essa maneira que Basgallop tem que comer pelas beiradas e de simplesmente se recusar a enfrentar a questão principal, preferindo uma abordagem transversal que não se sustenta de verdade quando pararmos para pensar por um minuto sequer.

Mas eu mencionei que Cricket faz algo diferente e é verdade. Nosso condicionamento de anos vendo filmes e séries de TV de terror é esperar que o personagem estranho seja a fonte de todos os problemas, de todos os sustos. Aqui, o que acontece é o oposto, com Matthew Roscoe (Phillip James Brannon), o detetive particular contratado por Julian, servindo como agente do caos na vida de Leanne e, por tabela, sendo o fio condutor do mistério do episódio. Toda as armadilhas plantadas na casa, especialmente a jovem de cabelos brancos que cuida de uma criança e diz ser vizinha da família Turner e o despertar com uma praga bíblica de grilos na cama são eficientes para virar o jogo da expectativa e colocar Leanne não como o algoz, mas sim como a vítima.

É até difícil entender a lógica do que acontece diante dos fatos que já conhecemos. A presença do detetive no carro do lado de fora da casa até faz sentido, mas não sua invasão de domicílio e sua conexão com os eventos ao redor de Leanne. E, na direção, Nimród Antal consegue estabelecer um grau razoável de tensão e mistério capaz de nos deixar minimamente tensos, ainda que muito distante da qualidade da abordagem cinematográfica de M. Night Shyamalan em Reborn, o primeiro e angustiante episódio.

No entanto, quando o roteiro de Basgallop vem para racionalizar os eventos, organizando-os sob a forma de “pegadinhas” combinadas por Julian e executadas por Matthew, a coisa perde muito de sua força. É que novamente a narrativa exige do espectador um grau de aceitação de situações fora do comum maior do que o normal e não pelo fato de o plano não ser factível, pois ele é, mas sim por ser uma reação boba demais para os eventos aterradores que são a base da temporada. Afinal, responder à ressurreição (ou troca, já que isso é algo em que Sean ainda acredita, pelo visto) de um bebê ou à descoberta de que sua babá não é exatamente quem ela diz e que existe uma lápide com o nome dela indicando sua morte em 2002, com brincadeiras para dar sustos não me parece algo com um mínimo de verossimilhança.

Por outro lado, como o episódio é centrado em Leanne, há um bom espaço para Nell Tiger Free mostrar que pode ser mais do que apenas uma bizarra jovem de poucas palavras e muito mistério e a atriz empresta algumas bem vindas sinuosidades à sua personagem ainda muito rasa. Resta saber o que Leanne fará agora que sabe que Sean e Julian tramam contra ela, algo que sua reação até mesmo contra Dorothy e que acaba com a ressurreição de um grilo que capturara, atrai um pouco de curiosidade, ainda que ainda de maneira débil.

Já era para Servant ter engatado mais no cerne da história, deixando de desviar-se dos problemas centrais como tem feito até agora em uma tentativa de esticar a narrativa o máximo possível (é sempre bom lembrar que a 2ª temporada já foi autorizada pela Apple TV+). Cricket funciona em termos de tensão até certo ponto, mas a impressão de que ele é um mid-season filler deixa um gosto de sorvete de lagosta na boca.

Servant – 1X05: Cricket (EUA – 13 de dezembro de 2019)
Criação e showrunner: Tony Basgallop
Direção: Nimród Antal
Roteiro: Tony Basgallop
Elenco: Toby Kebbell, Lauren Ambrose, Nell Tiger Free, Rupert Grint, M. Night Shyamalan, Phillip James Brannon, Tony Revolori, Phillip James Brannon
Duração: 31 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.