Crítica | Servant – 1X06: Rain

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Você vive em uma casa com uma babá já bastante assustadora, cuja chegada catalisou a ressurreição (ou troca, sei lá) de seu bebê morto e, um belo dia, em viagem a negócios, você recebe uma ligação de sua esposa dizendo que o tio ainda mais assustador da babá, com aparência de mendigo, todo sujo e com roupa puída, apareceu do nada. Se você não sofrer um ataque cardíaco fulminante lá do outro lado da linha, então você, provavelmente, é imortal.

Pelo visto, colocar bizarrice em cima de bizarrice é o mote de Servant e devo confessar que, contra todas as probabilidades e mesmo ainda distante de qualquer tipo de resolução ou pelo menos fechamento de arco, a série vem firmando suas bases de horror psicológico se o espectador souber aceitar as reações razoavelmente brandas para tudo que a família Turner se depara, especialmente a avoada Dorothy. É uma escolha narrativa que pode sem dúvida frustrar, mas que funciona dentro daquela estranheza que incomoda que muitos filmes decidem privilegiar no lugar de sustos baratos e monstros de CGI.

A chegada do “tio George” (Boris McGiver muito bem como religioso devoto/mendigo/sujeito de arrepiar a raiz do cabelo) é muito bem trabalhada porque não há filtros morais ou educacionais ou de qualquer outra natureza. Com Sean convenientemente longe (não há coincidências, tenho certeza), ele simplesmente entra no casarão depois que sua “sobrinha” abre as portas para o homem encharcado de figurino e sujeira nas mãos como se ele tivesse acabado de sair de seu túmulo querendo ver o bebê. Para que, não sabemos, mas fiquei com aquela pulga atrás da orelha de que talvez a dupla sinistra não seja má, mas sim, muito ao contrário, como anjos da guarda. Mas especulações não cabem aqui, pois ainda há muito o que acontecer.

A chegada de Dorothy, que recebe o estranho com efusividade – e algo como meio segundo de estranhamento – e, mais ainda, a de Julian esbaforido e desesperado, a pedido do também desesperado Shane, trazem aquela pegada de levez contrastante que só acrescenta à toda a atmosfera para lá de surreal, especialmente durante as refeições com direito a mãos (sujas) dadas e uma reza ininteligível por parte de George. A sensação de inevitabilidade é muito boa, por Alexis Ostrander, na direção, retorna ao estilo que M. Night Shyamalan imprimiu no primeiro episódio.

A claustrofobia é a chave e as câmeras trabalhando close-ups nos rostos e mãos dos personagens, além de alguns plongées e contra-plongées com pouca iluminação fecham o casarão ao redor de todos ali, transferindo essa impressão também para o espectador. Além disso, o roteiro que segue na base do conta-gotas causa ansiedade. Pouco sabemos de Leanne e do tio George e muito menos ainda da tia May que George menciona de forma ameaçadora e isso mesmo depois que a investigação de Julian e Matthew revelou um passado tenebroso para toda essa combinação.

Há um véu narrativo ainda bem espesso que não é levantado de forma alguma. Isso atrai na mesma medida em que afasta e, se Tony Basgallop tem realmente um plano de médio prazo (há pelo menos mais uma temporada já aprovada pela Apple TV+) bem estabelecido para a série, será necessário, pelo menos nessa estirada final de quatro episódios, que ele pare de acumular mistérios e ofereça algumas respostas que, claro, não precisam ser objetivas e muito menos científicas, já que o caminho para o sobrenatural parece ser mesmo inevitável. O que ele não pode é arriscar a verossimilhança que ele tem conseguido manter até agora, mas cobrando o preço de manter todo mundo no escuro e fazendo o espectador glosar grande parte das atitudes de Sean, Dorothy e Julian.

Rain é o primeiro episódio da temporada que realmente mostra promessa e que levantou minha sobrancelha em curiosidade pelo que vem adiante. Sem dúvida um grande mérito para uma série que vinha se baseando, apenas, em atmosfera e bizarrices.

Servant – 1X06: Rain (EUA – 20 de dezembro de 2019)
Criação e showrunner: Tony Basgallop
Direção: Alexis Ostrander
Roteiro: Tony Basgallop
Elenco: Toby Kebbell, Lauren Ambrose, Nell Tiger Free, Rupert Grint, M. Night Shyamalan, Phillip James Brannon, Tony Revolori, Phillip James Brannon, Boris McGiver
Duração: 30 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.