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Crítica | Servant – 2X04: 2:00

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Em Pizza, tivemos a estreia de Ishana Night Shyamalan na direção e, agora, em 2:00, é a vez de seu pai e produtor executivo da série, M. Night Shyamalan, dar as caras pela primeira e aparentemente única vez no comando de um episódio da 2ª temporada de Servant, depois de dirigir dois na temporada inaugural. E é sensível a diferença quando um diretor do naipe dele assume um trabalho tão cheio de auto impostas restrições, especialmente quando o roteiro pede ousadia, com Tony Basgallop subvertendo as expectativas de uma estrutura normal de horror e suspense.

Logo na largada, somos apresentados a um cômodo inédito na casa dos Turners, o sótão com claraboias que faz vezes de depósito e, agora, de cativeiro para Leanne, que acorda de seu sono induzido por drogas na pizza que comeu com Dorothy olhando para ela e indagando sobre o paradeiro de Jericho. E o episódio se vale da repetição do ritual diário de Dorothy levando comida para sua prisioneira e fazendo-lhe perguntas que permanecem sem resposta para estabelecer – ou melhor dizendo, amplificar, já que ela é onipresente – uma agoniante atmosfera claustrofóbica e kafkiana, só que invertendo a lógica do que se espera e transformando protagonista em antagonista e vice-versa.

Além disso, justificando o título, que só no final é revelado como a hora do dia seguinte em que Dorothy percebe que Jericho foi esquecido no carro, a mãe acorda neste horário para atormentar Leanne em um crescendo de violência realmente aterrador e sem que ela efetivamente se lembre do que faz, o que acrescenta mais uma camada de loucura à já bastante perturbada repórter. Claro que Sean, em seu papel usual de good cop, faz o que pode para tornar mais confortável a estada forçada da ex-babá, mesmo que seja pouco demais diante de toda a situação surreal em que ela se encontra, mas o suficiente para que Leanne reverte o feitiço que lançou sobre ele no começo da série, retornando-lhe os sentidos suprimidos.

A tendência que temos ao longo da série é aceitar Leanne como vilã, ainda que ela, em comparação com seus “tios” líderes de um culto religioso, não seja na realidade facilmente classificável desta forma. E, se pensarmos em retrospecto, considerando que ela aparentemente trouxe Jericho – ou um bebê – de volta à vida e quer porque quer que Dorothy seja confrontada pelo que fez, talvez ela seja a mais sã da série, algo que fica ainda mais evidente quando Dorothy ultrapassa todos os limites – consciente ou inconscientemente – para extrair informações sobre o paradeiro do filho. Essa troca de papéis é que torna o episódio narrativamente muito interessante e desafiador, fazendo-nos instintivamente torcer pela cativa e detestar Dorothy ainda mais.

Mas 2:00 não seria a mesma coisa sem a inventividade das lentes de Shyamalan. Falem o que quiser do cineasta, mas ele sabe construir suas cenas, começando com o enquadramento em close-up de Leanne com apenas meio rosto aparecendo, já estabelecendo um tom visualmente desafiador e incômodo que é seguido por plongées cuidadosos, ângulos baixos constantes na medida em que a babá tenta se proteger de Dorothy e até mesmo o uso de câmera em primeira pessoa no momento climático do episódio. O diretor mais uma vez coloca a casa em destaque ao confundir sua planta em nossa cabeça e ao fazer o melhor uso do espaço cênico do sótão que, aos poucos, vai ganhando transformações estéticas conduzidas pela prisioneira, como uma forma de passar o tempo ou de encontrar algum tipo de conforto, além de inteligentemente marcar a passagem do tempo para nós.

Em termos de impulsionamento de narrativa, porém, o episódio andou de lado, ainda que isso não seja necessariamente um problema. Com exceção do significado do horário em questão e dos aparentes “apagões” de Dorothy, nada aprendemos, mas, mesmo assim, há uma sensação de que, no geral, talvez dada a acanhada duração dos episódios, tudo esteja caminhando razoavelmente para frente. O único perigo é que Basgallop fique preso em seu próprio labirinto limitado à arquitetura de apenas uma casa com pouquíssimos personagens, mas não há dúvida que a história continua ainda muito interessante e, mais ainda, cativante, especialmente considerando a sacudida visual que a presença de Shyamalan sempre causa.

Servant – 2X04: 2:00 (EUA – 05 de fevereiro de 2021)
Criação e showrunner: Tony Basgallop
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: Tony Basgallop
Elenco: Toby Kebbell, Lauren Ambrose, Nell Tiger Free, Rupert Grint
Duração: 32 min.

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