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Crítica | Setembro

por Luiz Santiago
248 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5

O ano de 1987 foi único na carreira de Woody Allen. Ele estreou dois longas metragens nos cinemas — A Era do Rádio, em janeiro e Setembro em dezembro — e recebeu aplausos da crítica por um e condenações por outro. A má recepção de Setembro já havia sido prevista pelo diretor, que repetidas vezes afirmou não haver mercado para o tipo de drama bergmaniano que ele, naquele momento da carreira, se dava o luxo de realizar. Setembro foi uma das muitas condenações injustas que Allen recebeu dos críticos, não pelo filme ser um drama, mas por apresentar um trabalho a que muitas pessoas (mesmo alguns críticos) não conseguem e nem se dispõem a compreender. Um dos motivos é a comparação que geralmente fazem com as comédias do diretor (postura que Allen ironizou e zombou em Memórias, de 1980), ou aos dramas mais sentimentais e fraternos, como Hannah e Suas Irmãs (1986).

Setembro é o Festim Diabólico de Woody Allen, mas sem a ambição de querer transparecer um único plano-sequência. O filme foi escrito como uma cine-peça, tendo a necessidade de um rigoroso trabalho de câmera, pequeno elenco, takes apenas em internas e um curto espaço de tempo dramático.

Com efeito, o longa possui 1h20min. de duração e sua história compreende 24h na vida de seis pessoas dentro de uma casa em Vermont, em fins de agosto. Tanto a locação em um único set quanto o reduzido número de atores eram novidades para o diretor e nessa primeira experiência cine-teatral (já ensaiada formalmente em Interiores, e em conteúdo na sua segunda homenagem a Bergman, Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão) ele usa apenas nove atores para realizar todo o filme, sendo seis deles personagens principais e os outros três o ponto cômico da fita.

Aqui temos a história de Lane (Mia Farrow), uma mulher sensível que decidiu ir para Vermont a fim de recuperar-se de um colapso nervoso, reflexo de terríveis memórias de sua adolescência, um amor frustrado e uma tentativa de suicídio. Ela alugou o chalé da casa para um aspirante a escritor, Peter (Sam Waterston), por quem se apaixona mas não é correspondida. Peter apaixona-se por Stephanie (Dianne Wiest), melhor amiga de Lane, que passa as férias de verão na casa. Um vizinho da propriedade, Howard (Denholm Elliott, com quem Allen tentava trabalhar desde Interiores), é um professor viúvo que ama Lane, e sofre por saber que ela não sente o mesmo por si. Completam o elenco da casa a mãe de Lane (Elaine Stritch) e seu novo marido (Jack Warren). Com seis pessoas e um enorme conflito de interesses movendo-as, Woody Allen realiza uma obra de caráter emotivo, amargo e existencialista. Questionamentos sobre a felicidade, relações pessoais e a efêmera existência humana pontuam a obra.

Como em uma peça de teatro, o filme é dividido em “atos”, quatro deles, separados por um fade-out e com tempo de duração e motivo dramático diferentes. O diretor de fotografia Carlo Di Palma pinta com sua luz quente os cômodos da casa, que mesmo à luz de velas, conserva a paleta de cores que transita entre os tons amarelo, laranja e vermelho. Cada ato recebe uma tonalidade específica, que é gêmea do drama que se desenrola. Para um maior entendimento, dividirei pela atmosfera dos acontecimentos (como já sugeria Nabokov) as quatro partes do filme:

  • 1º Ato: Seis apresentações

Primeiro a casa, e depois as personagens. Neste momento, temos as impressões inciais do enredo e percebemos os primeiros conflitos que serão desenvolvidos.

  • 2º Ato: A tempestade

Poético e deslumbrante, o maior de todos os atos cobre a noite do filme. A falta de energia e o uso das velas dão um ar requintado e campestre à casa e a música ao piano simplesmente arrebata o espectador. Aula de direção e fotografia.

  • 3º Ato: O dia seguinte

Se os conflitos são apresentados no Primeiro Ato, aqui eles aparecem na forma de acusações, culpas e ressentimentos. O contraste entre os desejos de cada personagem alcança o seu clímax.

  • 4º Ato: Partidas

Não só de algumas personagens mas também a sugestão da passagem do tempo interno, a partida do mês de agosto e chegada do mês de setembro, sempre com aquela dubiedade para o futuro: o que acontecerá no próximo mês, com início do outono?

A mágoa é um dos temas que se sobressai porque as relações entre Lane e sua mãe são marcadas por esse sentimento. A frágil Lane não consegue aceitar ou entender a vivacidade eufórica da mãe, sempre falante e ligeiramente cômica, comportamento oposto ao seu, regado pela seriedade depressiva, pela preocupação excessiva com a organização das coisas e com o futuro, pela frustração imediata e máxima quando não correspondida àquilo que deseja. Elaine Stritch incorpora essa personagem da mãe efusiva com tamanha seriedade e competência, que eu não consigo imaginar Maureen O’Sullivan no mesmo papel. E explico: Woody Allen terminou Setembro quase em meados de 1987. Depois de rever o primeiro corte do filme pronto, o diretor chegou à conclusão de que o filme estava horrível, e precisava ser refilmado. No entanto, parte do elenco antigo já não estava disponível para mais dez semanas de trabalho, o que resultou nas seguintes substituições:

  • a) no papel de Howard: Charles Durning… por …Denholm Elliot.
  • b) no papel de Peter: Christopher Walken… por …Sam Shepard… por …Sam Waterston.
  • c) no papel de Diane: Maureen O’Sullivan (de fato mãe de Mia Farrow)… por …Elaine Stritch.

A refilmagem de Setembro, segundo o próprio Allen, tornou o filme mais sério e nada niilista. Seu trabalho com o passado da personagem principal ficou mais evidente e essa relação do trauma e suas consequências um fato mais bem trabalhado.

Seja como for, Setembro é um filme intimista, esteticamente belo, com um trabalho de câmera contido mas de uma fluidez impressionante e com excelentes interpretações. O texto de Allen centra-se, como já foi dito, no trabalho com o passado das personagens e a consequência desses acontecimentos no tempo presente. E o mais interessante é que o “tempo presente” que vemos compreende apenas o espaço de um dia. Isso fez da película uma cine-peça que discute amor, memória pessoal e apresenta personagens atingidas por um desesperador desejo (salva-se apenas o físico, o novo marido de Diane).

Woody Allen recria a cada ato do filme, através da memorável trilha sonora, do peculiar trabalho de câmera e da direção dos atores, uma obra que suplanta a criticada teatralização; uma obra que discute os limites, o desejo e as feridas das pessoas. Num desfecho doce, porém incerto, a câmera se põe de longe para observar através dos umbrais da porta as duas amigas que conversam sobre a vida dali para frente, como se o ciclo das tristezas tivesse acabado e, a despeito da mágoa, daria tudo certo. Setembro foi mal recebido pela crítica e levou poucos espectadores para as salas de cinema. Após vê-lo é possível entender o por que; do mesmo modo que é possível afirmar que de “filme menor” Setembro não tem absolutamente nada, pois é uma verdadeira obra-prima. Um dos melhores filmes de Woody Allen.

Setembro (September, EUA, 1987)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Mia Farrow, Dianne Wiest, Denholm Elliott, Elaine Stritch, Sam Waterston, Jack Warden, Ira Wheeler, Jane Cecil, Rosemary Murphy
Duração: 82min.

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4 comentários

jv bcb 6 de março de 2017 - 01:00

Ótima crítica, embora discorde dela.
Acho que setembro é uma Obra-Prima até o final do segundo ato, do terceiro para frente o filme desanda. O segundo ato é maravilhoso, atmosférico, profundo, tocante, mas depois que amanhece e começa o terceiro ato percebemos que tirando a relação entre a protagonista e sua mãe, os arcos dramáticos não vão além dos amores não correspondidos, fica repetitivo, tudo se resume a eu amo você, mas você não me ama. Não entendemos o ódio da protagonista pela mãe, pois vemos poucas interações entre as duas que revelem o porque do mau relacionamento entre elas, fica a cargo dos diálogos explicar os seus conflitos, e o filme acaba dizendo mais do que mostrando. Não sentimos a mágoa da protagonista pela mãe e o seu amor pelo escritor, pois todas suas motivações em relação a esses dois arcos são ditas e não mostradas. A personagem da Mia é um tanto unidimensional, ela é basicamente uma pessoa triste, ou internalizando ou externalizando a tristeza, mas falta mais camadas para que ela se pareça com um ser humano real e nos envolva, na hora que ela começa a chorar e gritar suas emoções negativas em relação a mãe, me lembrei de sonata de outono, mas se a externalização no filme do Bergman funcionava com primor, aqui o filme do Woody Allen fracassa, pois não sentimos a construção desses sentimentos, a personagem não é complexa o suficiente, os dramas do passado são subdesenvolvido, Mia Farrow não é tão absurdamente genial quanto Liv Ullmann(melhor atriz de todos os tempos na minha opinião) e Woody não cria uma atmosfera tão sucante quanto Bergman. Também me incomodei com o final, as resoluções dos arcos são previsíveis e dão a impressão de que o filme saio de um canto para lugar nenhum, sem mostrar ao que veio.
Acabei me identificando com os críticos da época, Acho A Era do Rádio uma Obra-Prima, mas considero Setembro um filme menor na carreira brilhante do diretor.

Responder
Luiz Santiago 6 de março de 2017 - 15:22

É, as nossas percepções gerais sobre a obra foram completamente diferentes, bom… pelo menos contanto a obra inteira, já que você também achou maravilhosos os dois primeiros atos. Esta é a beleza do cinema!

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Luiz Santiago 6 de março de 2017 - 15:22

É, as nossas percepções gerais sobre a obra foram completamente diferentes, bom… pelo menos contanto a obra inteira, já que você também achou maravilhosos os dois primeiros atos. Esta é a beleza do cinema!

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jv bcb 6 de março de 2017 - 01:00

Ótima crítica, embora discorde dela.
Acho que setembro é uma Obra-Prima até o final do segundo ato, do terceiro para frente o filme desanda. O segundo ato é maravilhoso, atmosférico, profundo, tocante, mas depois que amanhece e começa o terceiro ato percebemos que tirando a relação entre a protagonista e sua mãe, os arcos dramáticos não vão além dos amores não correspondidos, fica repetitivo, tudo se resume a eu amo você, mas você não me ama. Não entendemos o ódio da protagonista pela mãe, pois vemos poucas interações entre as duas que revelem o porque do mau relacionamento entre elas, fica a cargo dos diálogos explicar os seus conflitos, e o filme acaba dizendo mais do que mostrando. Não sentimos a mágoa da protagonista pela mãe e o seu amor pelo escritor, pois todas suas motivações em relação a esses dois arcos são ditas e não mostradas. A personagem da Mia é um tanto unidimensional, ela é basicamente uma pessoa triste, ou internalizando ou externalizando a tristeza, mas falta mais camadas para que ela se pareça com um ser humano real e nos envolva, na hora que ela começa a chorar e gritar suas emoções negativas em relação a mãe, me lembrei de sonata de outono, mas se a externalização no filme do Bergman funcionava com primor, aqui o filme do Woody Allen fracassa, pois não sentimos a construção desses sentimentos, a personagem não é complexa o suficiente, os dramas do passado são subdesenvolvido, Mia Farrow não é tão absurdamente genial quanto Liv Ullmann(melhor atriz de todos os tempos na minha opinião) e Woody não cria uma atmosfera tão sucante quanto Bergman. Também me incomodei com o final, as resoluções dos arcos são previsíveis e dão a impressão de que o filme saio de um canto para lugar nenhum, sem mostrar ao que veio.
Acabei me identificando com os críticos da época, Acho A Era do Rádio uma Obra-Prima, mas considero Setembro um filme menor na carreira brilhante do diretor.

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