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Crítica | Sex Lives of the Potato Men

Sexo, batatas e gente grotesca.

por Luiz Santiago
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Existem filmes ruins e existem filmes que marcam época por serem tão ridículos que viram caso de política pública. Sex Lives of the Potato Men conseguiu a proeza de ser as duas coisas, e pior: nem sequer diverte a ponto de compensar o caos que causou. Andy Humphries, ex-produtor de TV da Granada que trabalhou ao lado de Tony Wilson com bandas de Manchester, quis ressuscitar as comédias sexuais britânicas dos anos 1970, especialmente a linhagem de Confessions of a Window Cleaner (1974), de Val Guest, que tinha sido o maior sucesso de bilheteria britânico daquele ano. Em 2004, quando o UK Film Council procurava investir em comédias populares, Humphries fez sua estreia como diretor com três milhões de libras de orçamento (um terço vindo da Loteria Nacional via Premiere Fund), filmagens nos arredores de Londres (fingindo ser Birmingham), e um elenco de comediantes de TV conhecidos, como Johnny Vegas, Mackenzie Crook, Mark Gatiss, Dominic Coleman, Julia Davis e Lucy Davis, alguns até recém-saídos de The Office. O problema é que nada disso importa quando o filme simplesmente não engrena.

A fotografia de Andy Collins mostra uma Inglaterra de blocos de apartamentos feios, pubs sujos e lojas engorduradas de fish and chips, mas a câmera fica parada diante desse mundo sem usar nada a seu favor, apenas completando o tempo de “esquetes” cômicos que mal conseguem se interligar. Tem um plano bem legal num momento em que a dupla protagonista está bebendo cerveja, mas este é o único momento que mostra algo realmente intencional e cinematograficamente interessante, algo que infelizmente desaparece com a montagem confusa de Guy Bensley e no fiapo de roteiro. Humphries divide seus protagonistas em bloquinhos dramáticos desconectados que aparentemente satirizam a vida sexual masculina britânica, mas nada vai pra frente: Dave (Vegas) e Ferris (Crook) dirigem uma van de entregas de batata por Birmingham, passam por situações constrangedoras que nunca viram narrativa de verdade, e a trilha aleatória e ocasionalmente intrigante tenta dar energia a sequências completamente mortas. Os cenários copiam a estética barata de TV sem nenhuma ironia, e o resultado é algo que parece um episódio ruim de sitcom esticado além do limite.

No todo, o que essa história dos entregadores de batata nos traz é constrangimento vazio. O diretor acha que mostrar homens desajeitados ou tarados em situações sexuais humilhantes já é humor por si só (ou, ao que parece, em alguns momentos, um retrato cínico da classe trabalhadora), quando na verdade o filme só zomba de personagens pensados unicamente para serem grotescos. O roteiro força Vegas e Crook a fazer versões rasas dos tipos que eles já faziam na TV (o gordo desesperado, o magricela patético), jogando fora o talento cômico que ambos têm em piadas escatológicas que você já sabe como vão terminar antes de começarem. Mark Gatiss fica preso (e totalmente deslocado) num papel de esnobe “homem das batatas” que escreve cartas de amor ridículas, sem fazer nada de interessante com o personagem. As mulheres, nem se fala: são sujas, fáceis e objetos sexuais aleatórios. Pior tratamento não existiria.

Sex Lives of the Potato Men não serve como comédia, não dá certo como sátira e nem como entretenimento básico ou descerebrado. O UK Film Council tentou defender a obra, dizendo que ela falaria com os jovens da classe trabalhadora que a crítica burguesa ignorava, mas essa desculpa simplesmente não colou, porque o problema era a execução incompetente, não o público-alvo ou o conteúdo vulgar. O filme acabou virando munição parlamentar para diversos políticos britânicos, alimentando debates que ajudaram a fechar o UK Film Council em 2010. Consequentemente, Humphries nunca mais produziria nada para o cinema, ficando apenas na TV. Maldição pouca é bobagem, não é mesmo? Isso é o que dá querer ser engraçado, trash e diferentão, quando não se tem capacidade artística para colocar essas coisas de maneira aceitável numa tela de cinema.

***

Esta crítica é um pagamento de prenda, por eu ter perdido a corrida literária de 2025.

Sex Lives of the Potato Men (Reino Unido, 2004)
Direção: Andy Humphries
Roteiro: Andy Humphries
Elenco: Johnny Vegas, Mackenzie Crook, Carol Harvey, Helen Latham, Dominic Coleman, Mark Gatiss, Kate Robbins, Nicolas Tennant, Angela Simpson, Lucy Davis, Ceris Jones, Joy Aldridge, Laurence Inman, Alfie Hunter, Craig May, Nicola Reynolds, Robert Harrison
Duração: 82 min.

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