Crítica | Sexy e Marginal

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Sexy e Marginal (1972) foi o segundo longa de ficção dirigido por Martin Scorsese, tendo suas raízes na tentativa do diretor e produtor Roger Corman (que infelizmente interferiu demais na produção) em repetir o sucesso de Os 5 de Chicago (1970), trazendo uma personagem feminina para a dianteira do enredo, em um cenário de violência e crimes.

Rodado ao longo de 24 dias e sempre lembrado com boas memórias pelos atores (na relação entre si e com o diretor), o longa é baseado na curiosa ficção do médico e anarquista americano Ben Reitman, escrita em 1937: Sister of the Road: The Autobiography of Boxcar Bertha. E tendo isso em mente, é possível compreender os rumos que o roteiro adota aqui, especialmente na passagem do tempo e no encadeamento de “fases da vida” dos personagens, misturando vontades simples e ações complexas que decorrem de suas maiores necessidades pessoais.

O maior problema do filme é agregar ideias e abordagens que acabam sendo paradoxais, tornando a obra uma explosão de estranhezas, algumas delas até que divertidas, doces e extremamente humanas, No todo, porém, a obra parece ser uma coletânea de curtas-metragens que começam durante a Grande Depressão, quando Bertha (Barbara Hershey) acompanha o pai pilotando um avião em condições precárias, para ganhar algum dinheiro, e tornam-se mais intensos após a morte do piloto, quando a jovem ao mesmo tempo em que descobre e experimenta a vida, é colocada em situações que a entregam aos caminhos fora da lei.

A passagem entre o “momento de bonança” — onde Bertha, o líder sindical “Big” Bill Shelley (David Carradine) e o músico Von Morton (Bernie Casey) se conhecem –, até o ponto do filme onde estão juntos em uma série de roubos que chamam a atenção do espectador, no melhor estilo Bonnie e Clyde (ao lado de Rake Brown, personagem de Barry Primus) é feita de duas formas: inicialmente cheia de informações que devem agradar a alguns espectadores com sua representação da passagem do tempo (não foi o meu caso); e depois com cortes diretos que escancaram a falta de organicidade da fita. Além disso, Scorsese foi obrigado pelo produtor a recorrer à dinâmica exploitation (que sim, combina com o enredo, mas não é bem executada) e isso resulta em cenas de lutas mal coreografadas, mal inseridas na história (lembrando um pouco aquelas brigas de saloon vindas do nada, em alguns westerns) e momentos de violência que isoladamente são fantásticos, mas não bem encadeados no filme.

É um projeto bem estranho de Scorsese (talvez o seu por filme), mas também não é carente de bons momentos. Alguns planos das cenas íntimas entre Bertha e Bill são verdadeiros e belos quadros e a própria relação amorosa entre eles, mais a amizade que cultivam juntamente com Rake e Von Morton é algo bonito de se ver. Conceitos históricos que livram o roteiro de uma maior derrocada aparecem na obra de modo mais bem azeitado, como os elementos sociais que impulsionam os personagens para a espiral criminosa (a crise econômica e o início da neurose anti-comunista nos EUA são bem abordados no texto, por exemplo), assim como a questão racial e a presença da mulher — vale notar que Bertha é a protagonista aqui, e no filme ela recebe um fantástico tratamento como personagem.

Ainda assim, Sexy e Marginal não consegue se impulsionar nem mesmo para o meio da linha. Um filme ruim de um dos grandes diretores do cinema. E o curioso é que mesmo em seu possível pior projeto, ainda é possível encontrar traços dignos de nota, e isso, vocês sabem, não é pra todos.

Sexy e Marginal (Boxcar Bertha) — EUA, 1972
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Joyce Hooper Corrington, John William Corrington (baseado na obra de Ben L. Reitman)
Elenco: Barbara Hershey, David Carradine, Barry Primus, Bernie Casey, John Carradine, Victor Argo, David Osterhout, Grahame Pratt, ‘Chicken’ Holleman, Harry Northup, Ann Morell, Marianne Dole, Joe Reynolds
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.