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Crítica | “Shabrang” – Sevdaliza

por Matheus Camargo
190 views (a partir de agosto de 2020)

“Let the water flow
Where it has to flow”

Shabrang dialoga muito sobre raízes. Desde o seu título – em síntese o nome de um personagem de um poema épico iraniano (país de nascença da artista), onde o cavalo em toda a sua coragem conduz o príncipe Siyâvush’s por uma montanha de fogo – até faixas cantadas em Farsi, a língua persa. Mas além das raízes regionais, Sevdaliza se aprofunda em suas bases numa experiência espiritual sobre amor próprio. Sem se prender necessariamente a algum gênero musical, seu som migra entre um trip-hop eletrônico, ao R&B alternativo, e descansa nas mãos do art pop. Não importa. Não importa porque Sevda não se prende nessas limitações, e cria o seu próprio espaço no meio de qualquer melodia que deseja seguir. 

Abrindo com Joanna, faixa que ecoa em uma escuridão total e que fala sobre um “tipo de amor que amou profundamente, mas se perdeu profundamente”. Misteriosa, a música ressoa em um ciclo angustiante de se aproximar, mas que deseja ser quebrado. Entre várias interpretações, acredito que esse tipo de amor tão profundo e violento seja o que temos por nós mesmos. Subjetivo ou não, é reconhecível na voz de Sevdaliza uma urgência em recuperar o que uma vez foi seu, em sair de vez desse lugar tão sombrio. O ato de se permitir reconhecer que há coisas que precisam ser mudadas de dentro pra fora é doloroso, porque o ponto de partida é “confortável”, mas o de chegada, desconhecido.

É a partir de All Rivers At Once que o processo se inicia. Enquanto o eu-lírico repete incansáveis vezes o seu medo de sentir essa dor, a melodia se estica, encolhe e redobra como água, levando todos os seus erros e as partes sujas da sua vivência até o seu conhecimento. Habibi é a síntese da purgação, extremamente dolorosa e imersiva, a canção nos leva a esse movimento de expulsão do que não faz mais parte da alma por meio de um exaspero “Existe alguém aqui que consiga me tirar da minha cabeça?”. Fechando esse trio, Dormant exalta suas facetas mais originais enquanto range em nossas mentes com um instrumental que soa estridente, irritante, desconhecido. É o uso dos recursos que a arte e a tecnologia disponibilizam para traduzir o que se passa em nossa psique. Essas três músicas, uma após a outra, se completam de maneira intangível.

Ainda assim, Shabrang e seus sessenta e dois minutos de duração possui muito a apresentar e nem tudo é consumido de forma tão deleitosa. Wallflower e suas experimentações conseguem quebrar um fluxo musical num jeito curioso de criar altos e baixos. Seu refrão recitado se perde entre as outras faixas cantadas com tanto poder. Oh My God e Eden são grandiosas e invencíveis, talvez as faixas mais fáceis de escutar fora da narrativa que o disco propõe e oferece para o ouvinte, e mesmo junto de batidas de trap, um dos gêneros mais conhecidos atualmente, Sevda consegue marcar seu território e denominar o seu som. Mesmo que Rhode não se pareça com algo que eu gostaria de ouvir nos meus dias, ao final desse percurso, é facilmente reconhecível uma nova pessoa, mais confiante no amor, na solidão como forma de ressignificar seus fluxos, pronta para trilhar novos trajetos. Sua força e seu ardor se comparam com a de um cometa, pronto para viajar céus desconhecidos, dessa vez, sem se perder.

Sevdaliza ascende em toda a sua solitude e redefine sua história com glória. Seu som vibra estrondoso em escolhas que podem não fazer sentidos para nós, mas, naquele momento, foram suficientes para curar dores do espírito. É um disco difícil, e, como em todo trajeto humano, tropeça, cai, mas levanta com mais certeza do que deve ser feito. Após enfrentar tantas montanhas emocionais, é reconfortante saber que não estamos sós em nossas tentativas de encontrar soluções para não apagar os fantasmas que convivem conosco, mas aprender a viver e, principalmente, se fortalecer neles.

“To be selfish simply means to be yourself”

Aumenta!: Habibi
Diminui!: Wallflower

Shabrang
Artista: Sevdaliza
País: Holanda
Lançamento: 28 de agosto de 2020
Gravadora: Twisted Elegance
Estilo: Eletrônico, Art Pop

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