Crítica | Shade – Entre Bruxas e Heróis

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A imaginação de uma criança é algo incrível. Em Shade – Entre Bruxas e Heróis, adaptação de uma obra da famosa escrita sérvia Jasminka Petrovic, especializada em literatura infanto-juvenil, acompanhamos de perto o simpaticíssimo Jovan (Mihajlo Milavic) um garoto de dez anos com paralisia cerebral que anda às voltas com sua fisioterapia, os deveres de casa e seu tempo cada vez mais curto para brincar. Para fugir do mundo onde seu corpo é um grande empecilho para uma série de coisas, o garoto mergulha num Universo particular, um lugar chamado Cidade Fantasma (da qual ele tem uma maquete no quarto). Nessa cidade, o menino possui poderes semelhantes aos do Superman, mas seu nome, neste mundo, é Shade.

O caráter de fantasia infantil pode ser visto no filme já em seus primeiros minutos. A fotografia é clara, há profusão de cores quentes por todos os lados e o contraste de tudo isso na tela cria um ambiente convidativo e caloroso, onde até as ações de bullying de alguns alunos da sala de Jovan não são vistas com a gravidade com que normalmente veríamos esse comportamento — isso, e o fato de as perturbações aqui não serem, a rigor, imensamente agressivas. Estabelecida a condição física e a fértil imaginação de Jovan para o público, o roteiro coloca em cena uma outra personagem, Milica (Silma Mahmuti), nova aluna da escola que tende à valentia e acaba se afeiçoando a Jovan. É das conversas dessas duas crianças que a temática do super-heroísmo e de bruxaria vem à tona e forma a coluna vertebral do filme.

De certa forma, Shade também é um drama sobre superação e sobre o início da jornada de amadurecimentos que a vida traz para cada um de nós. Também temos um claro limite traçado entre o “antes” e o “depois” da plena inocência de Jovan e Milica, cuja busca pela bruxa e pelas várias formas de se matar uma bruxa constitui ao mesmo tempo um jogo, um ritual de passagem, um caminho para a superação de algumas coisas (para ambos) e o primeiro encontro deles com a realidade dos relacionamentos amorosos. A visão da dupla para a condição de se apaixonar, aliás, é uma daquelas coisas fofas que a gente realmente ouve de crianças e que até nos esquecemos que um dia pensamos igual. Bons tempos…

Como é de se esperar, alguns elementos narrativos puramente infantis nos fazem “rejeitar” certas resoluções da fita, especialmente no ato final. O maior problema aí é que o público já tinha entendido a confusão de símbolos e adequações fantasiosas e maléficas que as crianças fizeram do mundo “orientalizado” de uma certa personagem, portanto, todo o didatismo da última parte foi desnecessário, mesmo se considerarmos o público-alvo do filme. Até ali, o roteiro estava tão bem construído nesse aspecto, que a explicação para cada uma das coisas tidas como “feitiços de uma herbologista” quebrou o encanto (hehehe) e atrapalhou a finalização da saga.

Outros pequenos furos de verossimilhança, como a colocação do garoto sozinho no ônibus, em plena madrugada (vai ver isso é normal na Macedônia, mas eu temo que não) ou a engenharia de som que deveria ter trabalhado de modo mais cuidadoso o volume de voz da dupla nos momentos de crise (quando deveriam falar baixo, estão em um tom que alguém a 50 metros de distância conseguiria ouvi-los tranquilamente) também incomodam, mas no final, nenhum desses aspectos são capazes de estragar de verdade o filme. A experiência continua sendo de plena ternura em relação à dupla e sua percepção de mundo. Ainda vale dizer que o espectador pode estranhar os efeitos de voo do menino-herói, mas tendo em vista que esta é a representação de um Universo de fantasia, um tipo de composição assim acaba sendo válida.

Shade – Entre Bruxas e Heróis é uma graça de filme, daqueles que nós realmente precisamos de vez em quando, especialmente se levarmos em conta o enfeitiçado e sombrio mundo que nos cerca. Um pouco de doçura e inocência que vem bem a calhar em nossos tempos.

para R.M. & Fe

Shade – Entre Bruxas e Heróis (Zlogonje) — Macedônia, Sérvia, 2018
Direção: Rasko Miljkovic
Roteiro: Milos Kreckovic, Marko Manojlovic, Ivan Stancic (baseado na obra de Jasminka Petrovic)
Elenco: Mihajlo Milavic, Silma Mahmuti, Jelena Djokic, Bojan Zirovic, Dubravka Kovjanic, Jelena Jovanova, Olga Odanovic, Milutin Milosevic, Stela Cetkovic, Milena Predic, Mateja Popovic, Vaja Dujovic
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.