Crítica | Shadowhunters 1X01: The Mortal Cup

estrelas 2,5

Shadowhunters: The Mortal Instruments (2016) é uma produção americana realizada pela Constantin Film e exibida originalmente (e semanalmente) pela Netflix. Trata-se da segunda adaptação para a franquia literária de grande sucesso escrita por Cassandra Clare, sendo a primeira dessas adaptações, o filme Os Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos (2013), que deveria dar origem a uma série de outros filmes, mas o fracasso de bilheteria e crítica acabou engavetando o projeto e o aguardado Cidade das Cinzas nunca aconteceu.

O desenvolvimento desta série também foi marcado por idas e vindas complicadas, com uma proposta inicial extremamente ambiciosa e uma aprovação final — esta a que estamos assistindo — mais juvenil e despreocupada. Quem acompanha Cassandra Clare no twitter deve lembrar-se de que em julho de 2015 a autora deixou claro que não estaríamos diante de uma série no estilo “um livro por temporada”, mas de um mix de eventos (e algumas coisas novas), que, obviamente, se concentraria bastante em Cidade dos Ossos para contextualizar os espectadores, todavia, este não seria o padrão que os fãs deveriam aguardar.

Dito isto, é importante que os leitores da franquia The Shadowhunter Chronicles deixem de lado as expectativas de uma real e familiar adaptação. A concepção da série é de uma intervenção grande no contexto literário — algo que aconteceria de qualquer forma –, e trará mudanças de profissão e até comportamento ou contexto de vida dos personagens. Esqueçam o sarcasmo e a ironia da obra. Esqueçam a intensidade na construção de um ambiente macabro e cheio de surpresas. Shadowhunters é Instrumentos Mortais para adolescentes crescidos e adultos com muita paciência. Uma versão light e didática que começou regular, tem muito para melhorar e possivelmente o faça, dado o grande potencial vindo de sua fonte.

Com roteiro de Ed Decter, o criador da série, The Mortal Cup procura nos convencer o máximo da confusão de Clary Fray ao descobrir que o mundo à sua volta não era nada do que ela imaginava. A atriz Katherine McNamara interpreta satisfatoriamente essa faceta da personagem, mas me preocupa o fato dela não dar indícios de uma possibilidade de mudança, aumentando sua extensão dramatúrgica, o que curiosamente não parece afetar de forma tão grande os coadjuvantes, de quem se espera bem menos e que nos entregam bem mais.

A primeira parte do episódio tem um bom ritmo de construção narrativa. Não era de se esperar algo diferente, nem no andamento e nem no contexto: estamos no dia do aniversário de 18 anos de Clary, ela vai ao Pandemonium, encontra pela primeira vez outros Shadowhunters e também demônios. A partir desse ponto, o andamento do capítulo se torna menos orgânico e uma onda de clichês incômodos e diálogos nada criativos povoam a tela. Isso, aliado a desfecho abrupto e inteiramente anticlimático formam uma bolha no roteiro que nos deixa com duas grandes percepções; a primeira, a vontade de ver a sequência dos eventos e a torcida para que a série de fato melhore; e a segunda, a sensação de que para uma boa premissa, a execução de The Mortal Cup foi vergonhosamente medíocre.

Há falhas e mal tratamento nos efeitos especiais na maior parte das cenas, mas esse tipo de “efeito B” não seria de fato um problema se todo o restante compensasse as limitações orçamentárias (vide, por exemplo, a 1ª Temporada de Doctor Who). Contudo, se de um lado temos efeitos ruins — nem todos, mas a maioria — não dá para reclamar, por exemplo, da direção de arte, especialmente no QG dos Shadowhunters ou dos figurinos, cabelo e maquiagem, que se enquadram bem em cada um dos espaços e indivíduos. Pena que a direção de fotografia não tenha investido em uma atmosfera mais sombria e movimentos de câmera mais imaginativos. Mesmo assim, o trabalho é válido e novamente ganha destaque no interior da “igreja abandonada”.

Resta saber o que essa tal “mistura de eventos” da saga irá significar para a série daqui para frente. O começo foi medíocre, no sentido original da palavra, mas há um potencial enorme em jogo. Aqueles que veem meio copo cheio, esperam melhoras.

Shadowhunters: The Mortal Instruments 1X01: The Mortal Cup / O Cálice Mortal (EUA, 12 de janeiro de 2016)
Criador: Ed Decter
Direção: McG
Roteiro: Ed Decter (baseado na obra de Cassandra Clare)
Elenco: Katherine McNamara, Dominic Sherwood, Alberto Rosende, Matthew Daddario, Emeraude Toubia, Isaiah Mustafa, Harry Shum Jr., Alan Van Sprang, Maxim Roy
Duração: 40 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.