Crítica | Shaft (2019)

Ok.

Ok é a expressão que universalmente designa aquilo que não fede, nem cheira, que não é bom, mas também não é ruim, que não levanta a sobrancelha, mas também não chateia. Ok é quase um termo científico sinônimo de indiferença branda, de apatia light, de “nada demais”, de algo que logo depois de visto ou ouvido não será mais lembrado. E o quinto longa-metragem cinematográfico tendo um personagem chamado Shaft e o segundo com Samuel L. Jackson é exatamente isso: um filme ok.

Um dos símbolos do blaxspoitation quando foi lançado em 1971, Shaft, com Richard Roundtree, marcou época e ganhou duas continuações nos dois anos seguintes, O Grande Golpe de Shaft e Shaft na África. Com o insucesso da segunda continuação, a produtora resolveu levar o personagem para a TV, na forma de uma série composta de sete telefilmes entre 1973 e 1974. Como em Hollywood nada morre e tudo é reciclado, uma nova versão cinematográfica foi lançada no ano 2000 que era ao mesmo tempo uma continuação e um remake do filme original, tendo o referido Jackson como protagonista e sobrinho do primeiro Shaft, além de inspiração direta para o Nick Fury de Os Supremos que, por sua vez, passou a ser o Nick Fury do Universo Cinematográfico Marvel. Agora, 19 anos depois, é a vez da terceira geração de Shaft, com mais um filme da série, desta vez co-produzido pelo Netflix, que ficou com a distribuição dele fora dos EUA e tendo o razoavelmente desconhecido Jessie Usher como JJ Shaft, filho do Shaft de Jackson, criado somente pela mãe depois que o pai o abandona no final dos anos 80 conforme vemos na sequência de abertura.

JJ Shaft é um analista de dados do FBI que é o cara mais certinho e politicamente correto do mundo, basicamente a mais completa antítese de seu pai, cuja ajuda ele procura para investigar a morte de seu melhor amigo Karim Hassan (Avan Jogia). Para surpresa de absolutamente ninguém, estabelece-se, então, aquele relacionamento hesitante entre dois pólos completamente opostos em um buddy cop de pai e filho que joga seguro em cada sequência, por vezes parecendo ousado nas críticas sociais somente para retroceder em seguida e ficar bem em cima do muro, com o roteiro de Kenya Barris e Alex Barnow ficando em cima do muro sobre tudo e repetindo a estrutura que dá certo nas primeiras vezes, mais depois cansa e que se resume a Shaft II revirar os olhos para tudo que Shaft III faz e vice-versa.

Se Usher é o “ok” encarnado, pelo menos Samuel L. Jackson, com seu carisma, impede que o filme seja, todo ele, aquela linha de sinais vitais “em zero” de monitor hospitalar, por vezes trazendo verve suficiente para tirar algumas risadas aqui e ali. Mas Jackson parece tão à vontade no papel, mas tão à vontade, que ele mesmo não faz esforço nenhum para absolutamente nada. É um ator vivendo ele próprio 100% do tempo. Eu consigo até imaginar, lá no set de filmagens, Jackson dando ordens para Tim Story, o criminoso que cometeu crime audiovisual duplamente qualificado com Quarteto Fantástico e Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (na época em que não sabíamos que a coisa poderia piorar para a Primeira Família da Marvel Comics), dizendo o que ele iria fazer e o que não faria e quando faria entre uma cervejinha e outra no seu trailer (aliás, ele está com uma pança que não esconde, hein?).

E é claro que o terço final, em que acontece a esperada (e anunciada) reunião entre Shaft I, II e III – com Shaft I agora sendo pai de Shaft II em um retcon de leve apesar dos meros seis anos de diferença entre Roundtree e Jackson – para detonar os bandidos é o que faz valer passar pela bobajada padrão anterior. Novamente, porém, não são momentos particularmente brilhantes ou especiais, ainda que ver Roundtree sendo badass novamente seja sempre divertido, e sim, apenas ok. Cumpre sua função primordial sem oferecer – e, portanto, nem devemos esperar – nada além do básico e burocrático tiroteio em arranha-céu onde fica o QG do final boss que já vimos tantas outras vezes por aí.

Ok?

Shaft (Idem, EUA – 2019)
Direção: Tim Story
Roteiro: Kenya Barris, Alex Barnow (baseado em personagem criado por Ernest Tidyman)
Elenco: Samuel L. Jackson, Jessie Usher, Richard Roundtree, Alexandra Shipp, Regina Hall, Matt Lauria, Titus Welliver, Method Man, Isaach de Bankolé, Avan Jogia, Robbie Jones, Lauren Vélez
Duração: 111 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.