Crítica | Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu (Special Marvel Edition #15 e 16)

As duas edições que trago aqui à discussão (números #15 e 16 da revista Special Marvel Edition) marcaram as primeiras aparições de Shang Chi, o Mestre do Kung Fu nos quadrinhos. Com roteiro de Steve Englehart e arte fantástica de Jim StarlinAl Milgrom, essa estreia nos mostra um personagem complexo na medida certa, sem nenhum arroubo melodramático em sua história de origem (que não é bem lá uma história de origem, no sentido de nos mostrar todo o processo que o levou a se tornar Shang-Chi: a mudança que ocorre com ele aqui é moral, de devoção e lealdade) e com habilidades de luta fascinantes.

A criação do lutador começou a circular pelo escritório da Casa das Ideias no final de 1972, após o sucesso dos três primeiros episódios da série Kung Fu, que estreou em fevereiro daquele ano e teve mais dois episódios exibidos no final do segundo semestre. No pacote de elementos criativos, os autores pensaram em elencar semelhanças do protagonista com Bruce Lee (óbvio), mas isso só seria realmente aplicado na arte a partir da edição #18 da revista solo do protagonista (numeração cumulativa da antiga Special Marvel Edition, renomeada The Hands of Shang-Chi, Master of Kung Fu) sob os desenhos de Paul Gulacy.

O contexto para o personagem principal é intimista, familiar, baseado em um código de honra e conduta que expõe o discípulo a uma servidão inquestionável diante de seu Mestre, nesse caso, o próprio pai: Fu Manchu, personagem pulp de Sax Rohmer para o qual a Marvel conseguiu os direitos de uso. Fu Manchu apareceu pela primeira vez no conto The Zayat Kiss (outubro de 1912) e teve sua primeira publicação de grande alcance no ano seguinte, com o romance O Mistério do Dr. Fu-manchu, coletânea de diversos contos do personagem. Sua colocação no roteiro de Steve Englehart é poderosa, misteriosa, faz jus ao respeito/temor/dominação que exerce sobre as pessoas e cria um impacto bem maior quando Shang-Chi resolve se livrar dele, após descobrir que pessoa de fato era este seu pai.

plano crítico Crítica Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu! (Special Marvel Edition #15 e 16) plano crítico

A chegada do conhecimento para Shang-Chi tem um caráter filosófico, reflexivo, mas em nenhum momento a ação abandona essas duas revistas para dar lugar exclusivo a linhas existencialistas no texto. Na edição #15 vemos o motivo pelo qual o jovem de 19 anos rompe laços com o pai e na edição #16 vemos uma consequência imediata disso, ou seja, a sua vida em Nova York após abandonar a morada de Fu Manchu e seu encontro com o único amigo que tinha até então, Midnight (M’Nai), cuja tragédia aparece como mais um capítulo de horrores para a vida do protagonista. Nas duas tramas ele se engaja em lutas incríveis e a arte de Jim Starlin explora a sua movimentação pelo ambiente, a perspectiva em relação aos cenários e a sequência de golpes pelos quadros de maneira primorosa.

Essas edições iniciais apresentando o personagem são quase um tratado sobre como unir um conceito meio genérico de máfia — ligada a uma figura chinesa — e ao mesmo tempo colocar de maneira muito bonita valores relacionados às artes marciais e como elas podem guiar uma pessoa, não apenas na pancadaria, mas também no caráter e na visão de mundo, chegando a um resultado que não poderia ser outro: a escolha do caminho da justiça.

Special Marvel Edition Vol.1 #15 e 16 (EUA, dezembro de 1973, janeiro de 1974)
No Brasil:
 Kung Fu n°2, (Ebal, 1974), Mestre do Kung Fu n°1 (Bloch, 1975, ), Grandes Heróis Marvel 1ª Série – n°3 (Abril, 1984), Coleção Histórica Marvel: Mestre do Kung Fu n°1 (Panini, 2018).
Roteiro: Steve Englehart
Arte: Jim Starlin
Arte-final: Al Milgrom
Cores: Steve Englehart
Letras: Tom Orzechowski
Capas: Jim Starlin, Al Milgrom
Editoria: Roy Thomas
48 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.