Crítica | Sharkwater (2006)

Os tubarões talvez sejam os animais com maior número de documentários e narrativas ficcionais inspiradas em suas imagens calcificadas em nosso imaginário popular. Lançado em 2006, Sharkwater é uma produção com todos os elementos básicos da fórmula documental ecológica: imagens panorâmicas e avaliativas, construção de hipóteses, registros subaquáticos, dentre outros. Em seu desenvolvimento, o que observamos é a tentativa de reinterpretação da mitologia em torno dos tubarões, ressignificada depois de Tubarão, de Spielberg, em 1975, filme inspirado no romance homônimo de Peter Benchley. Sem o carisma de animais como pinguins, elefantes, pandas e golfinhos, os tubarões sofrem de uma má reputação, haja vista a sua demonização no cinema.

É neste encalço e no seu valor comercial que o documentário do ativista Rob Stewart se concentrará. Tal como a personagem de Viola Davis em How To Get Away With a Murder, o papel de Stewart é defender um animal com fama de predador assassino, considerações já enraizadas em nossa cultura, produzida por pessoas que amam o sensacionalismo e muitas vezes se dedicam de maneira superficial na análise de determinados fenômenos sociais e da natureza. Os tubarões sofrem deste problema. Ao longo dos 89 minutos, o documentário busca derrubar alguns mitos, elucidar alguns estereótipos, mas entre um fato e outro, perde o fio da meada com as dispersões pessoais do realizador Rob Stewart, ainda imaturo no segmento, tendo apresentado melhores resultados na “continuação” lançada postumamente, em 2018.

No desenvolvimento da narrativa, discute-se a importância dos tubarões para o ecossistema marinho, além dos desdobramentos no fornecimento de oxigênio em nossa atmosfera. É um ciclo de dependência e o equilíbrio em determinado setor é o que permite o desenvolvimento de outro. Desta maneira, a caça predatória, o consumo de barbatanas de tubarões para a famosa sopa asiática, iguaria caríssima que aquece todo um mercado obscuro, os perigos oriundos da extinção dos tubarões e o perigoso consumo da carne deste animal estão dentre os principais tópicos do roteiro, também assinado por Rob Stewart.

Ainda tomado pelos arroubos juvenis, o biólogo ativista “brinca” de pirata e investe contra uma embarcação que realizava caça ilegal, toma as rédeas para denunciar governos corruptos e máfias entranhadas. Há, entre uma aventura e outra, como por exemplo, o jogo de gato e rato com pescadores na Guatemala, a presença de um extenso arquivo de imagens subaquáticas acompanhadas por narração e registros de seus arquivos, além da gravação de situações vexatórias para a humanidade, mais selvagem que os próprios animais em alguns momentos. Em sua chegada na Costa Rica, fica retido por má conduta. É na Ilha de Galápagos que ele passa mal, sofre as consequências da sua má alimentação e fica internado por algum tempo, tendo como risco a perda da perna, algo que fica apenas no campo da ameaça, mas não se efetiva.

Assim, mesmo com seus deslizes, o que observamos em Sharkwater é o que alguns especialistas chamam de Efeito Michael Moore, isto é, o didatismo diante de temas complexos. Basicamente, tornar palatável algo considerado politicamente denso e teoricamente extenso. Por conta de seus excessos ao deixar no material final algumas imagens que destoam da abordagem central, Rob Stewart deixa a sua produção perder um pouco do ritmo, mas nada que desabone as suas intenções reflexivas, tampouco prejudique a qualidade técnica do material. São alguns excessos, assim, quando abstraídos pelos espectadores, tornam-se apenas excedências para eliminarmos da experiência.

Com direção de fotografia do próprio Stewart, Sharkwater teve condução sonora de Jeff Rona, adequada para o conteúdo, tal como os gráficos produzidos pela equipe de Rob Gyorgy, responsável pelos efeitos visuais. Em 2018, os produtores lançaram a continuação que teve Rob Stewart no comanda até mais ou menos 90% do material finalizado. Como divulgado em 2014, ele morreu por complicações após ficar à deriva por muito tempo, durante uma de suas missões. Morreu aos 37 anos, mas cumpriu os seus propósitos, conforme as suas declarações sobre a consciência dos perigos que enfrentava a cada expedição em torno dos grandes tubarões.

Há alguns anos, na região da Tasmânia, a população de lagostas foi reduzida drasticamente. O motivo? A pesca desmedida de tubarões. Responsáveis pelo controle da população de polvos, o maior predador das lagostas, os tubarões dizimados não estavam em seus devidos postos para o cumprimento da função atribuída pela natureza, o que conhecemos por cadeia alimentar. A lagosta, então, importante também para o desenvolvimento econômico e manutenção de algumas populações costeiras mantiveram-se ausentes e causaram desequilíbrio em várias esferas da sociedade e da natureza. Entende, de uma vez por todas, a importância destas criaturas?

Sharkwater — Estados Unidos, 2006
Direção: Rob Stewart
Roteiro: Rob Stewart
Elenco: Rob Stewart, Erich Ritter, Boris Worm, Patrick Moore, Paul Watson, Rex Weyler
Duração: 89 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.