Crítica | Sharkwater (2018): Extinção

Em 2006, Rob Stewart já tinha apresentado a sua postura ativista em Sharkwater, documentário que refletia, dentre tantas questões, os impactos da ausência dos tubarões na dinâmica do nosso ecossistema. Em Sharkwater: Extinção, o seu foco se volta para a indústria global de barbatanas que ameaça extinguir os tubarões do nosso planeta. Funciona como sequência, bem interessante para a abordagem das comparações estéticas e contextuais entre as duas produções, mas também é um documentário que se adapta bem como produção independente do anterior. Em suma, uma narrativa que serve para ativistas, biólogos, cinéfilos leigos no assunto, professores, dentre outros.

Com registros em diversos pontos do planeta, dentre eles, Costa Rica, Panamá, regiões da África e Los Angeles, o documentário dialoga com as celeumas que já conhecemos sobre os impactos da pesca predatória de tubarões, dando maior enfoque desta vez aos mecanismos que engendram a indústria de barbatanas para a famosa sopa asiática, servida em eventos sociais da elite chinesa. Um dos pontos curiosos é que os realizadores mostram os documentos oficiais, em paralelo ao desacato de pescadores nas regiões em que a prática é proibida, juntamente com a importação de barbatanas em containers, algo que soa como contraditório, afinal, na dinâmica do capital, pescadores comuns são proibidos, mas grandes empresas podem agir de maneira “oficial”?

As barbatanas alimentam um esquema mercadológico clandestino, com alto valor comercial. Os banquetes e cerimônias como casamentos e afins geralmente servem essa iguaria como comprovação do requinte das pessoas envolvidas nos eventos. Capturados, os tubarões têm a barbatana cortada e logo depois, são devolvidos ao mar para agonizar e morrer, afinal, sem a possibilidade de se movimentar, eles morrem. A poluição marinha também se apresenta como uma preocupação. Os resíduos sólidos oriundos do nosso alto consumo de material descartável não biodegradável, associado com a nossa própria ineficiência em tratar e descartar tais resíduos, torna o tópico um dos mais problemáticos dentro dessa discussão ambiental.

Outra “dor de cabeça” é a suposta utilidade da cartilagem dos tubarões para a indústria farmacêutica e cosmética, algo não comprovado em sua totalidade, responsável pela promoção aberrante de tubarões mortos para interesses comerciais. As pessoas, tal como denuncia o filme, não entendem que desequilibrando um setor, danificará outros tantos. Complexo e irritante, no mínimo. É uma indústria turbinada e de caça incansável, consciente da falta de tempo hábil entre o que se pesca e o que é recomposto na natureza. As infames redes de pesca também se apresentam como outro grande problema, pois no interesse de algumas espécies mais comerciais, alguns tubarões acabam adentrando no mesmo conjunto.

Rob Stewart, interessado em aplicar a polêmica em seu material, não deixa de registrar a crueldade humana diante da caça desses animais. Chega a ser lacrimejante ver um pequeno barco de pesca capturar um tubarão e antes mesmo de coloca-lo para dentro da embarcação, aplicar golpes de marreta na criatura, numa sede sanguinária aterrorizante. Tal como o filme de 2006, a produção flerta com a importância dos tubarões para o ecossistema: cadeia alimentar, promoção de oxigênio e outros tópicos são revisados de maneira didática, mas sem perder o tom de entretenimento. É uma espécie de “The Cove”, tenso documentário sobre extermínio dos golfinhos, desta vez, tendo os tubarões como protagonistas de uma situação indesejável.

Ademais, a qualidade estética de Sharkwater: Extinção é surpreendente. Ao longo de seus 85 minutos, Rob Stewart e sua equipe faz mágica com as imagens, com cenas deslumbrantes em torno do mundo subaquático que radiografa. Na direção de fotografia, temos Jordan Eady, Andy Casagrande, David Hannan e Goh Iromoto nos registros de imagens 4K, câmeras que serpenteiam as profundezas dos mergulhadores e drones que captam de maneira panorâmica os ambientes externos. A edição ágil de Nick Hector promove um discurso dinâmico e eficiente, acompanhado pelos gráficos e demais efeitos elaborados pela equipe de Paige Reynolds e Chris Wallace. Tudo isso é acompanhado da condução sonora de Jonathan Goldsmith, discreta, mas intensa.

Interessante observar que o documentário não revela de cara a morte do ativista, algo que já sabemos pelas notícias na época do ocorrido. Rob Stewart, numa de suas missões, ficou à deriva em pleno mar aberto e depois de algum tempo sumido, apareceu sem vida. Foi tudo muito comovente, mas tal como a construção de uma jornada de heróis, ele é apresentado como alguém que tinha amor ao que fazia e que tinha consciência dos altos riscos diante das suas incursões entre seres humanos e natureza. Todos ao seu redor temiam a sua morte. “Menos eu”, alega, num breve depoimento. Finalizado postumamente, Sharkwater: Extinção cumpriu o seu dever estética, denunciativo e respeitou o legado do seu idealizador ao lança-lo mesmo depois de tudo.

Sharkwater: Extinção– Estados Unidos, 2018
Direção: Rob Stewart
Roteiro: Rob Stewart
Elenco: Rob Stewart, Rebecca Aldworth, Will Allen, David Jimenez Alvarado, Randall Arauz, Maximiliano Bello, Shirley Binder, Brock Cahill, Diego Cardenosa, Regi Domingo, Nick Dulvy
Duração: 90 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.