Crítica | Sharp Objects – 1X02: Dirt

dirt objetos cortantes sharp objects

  • Há SPOILERS do episódio. Para ler as outras críticas, clique aqui.

Algo que havia ficado bastante claro em Vanish, como uma boa possibilidade de desenvolvimento para personagem de Amy Adams em Sharp Objects, reaparece aqui em Dirt, segundo capítulo da minissérie, como um estranho no ninho, quase um capricho inútil: as confusões de perspectiva, os saltos temporais e a mescla de cenas à guisa de maiores explicações para que esta ou aquela ação poderiam ter no roteiro. O problema de tudo isso é que pelo bom critério de direção de Jean-Marc Vallée, essas quebras entrarão facilmente para a camada pessoal dos espectadores, talvez gerando divergências extras, mas não deveriam, porque são quebras problemáticas e negativas para o episódio, não importando se são bem plasmadas em tela, bem concebidas pelo desenho de produção e bem fotografadas por Yves Bélanger (BrooklynBig Little Lies).

Este segundo episódio é uma continuação menos empolgante da investigação do assassinato das duas garotas (e isso não quer dizer nada além de “menos empolgante“), muito por conta de ser um episódio de velório e caminhos de luto + pequenos passeios de reconhecimento pela cidade. O ritmo que o roteiro de Marti Noxon adota é bem parecido com o do livro, embora existam as esperadas alterações de posição de acontecimentos e desenvolvimento de personagens que vão trazendo alguns surpresas ao longo da série.

Aqui, a trama avança com bom uso de trilha sonora e forte exposição de Camille lutando contra a dominação da mãe, além de algumas situações constrangedoras que a pequena cidade onde cresceu guarda sob seus lençóis. Na série, Camille é mais ativa e aparentemente mais forte que a Camille do livro, onde a postura da mãe é mais intimidadora, irritante, desprezível. A comparação, no entanto, é apenas a exposição de um fato, não um critério de aumento ou diminuição de qualidade. Gosto das duas versões de tratamento, mas tenho contra este segundo passo do show o fato de que a montagem picotada, a fim de exibir a confusão de perspectiva e a passagem do tempo, como apontei no início da crítica, começa a atrapalhar a narração, muitas vezes nos tirando de um bloco que tinha tudo para se tornar imensamente impactante, bloco este interrompido por uma rápida passagem de takes trágicos sugerindo algo que só consegue dar voz à criação de atmosfera, não padrão de construção de roteiro — pelo menos até aqui.

E em relação à tal atmosfera, devo dizer que a forma como Vallée filma e como Bélanger fotografa já bastam para esse tipo de visão, não havia necessidade alguma desse esparramar cênico para nos dizer algo que roteiro, composição visual, interpretações e trilha sonora já dizem, e muitíssimo melhor. Se em um primeiro momento isso serviu para nos alertar: “cuidado com o que Camille vê! Ela não é plenamente confiável!“, neste segundo, serve apenas como empecilho de boas finalizações. Ainda não está tornando nada ruim, mas está atrapalhando consideravelmente e, como imagino que isto será uma constante ao longo da série, já estou me preparando para lidar com essas quebras sem ter que bufar o tempo inteiro. Aos poucos, as máscaras começam a se mostrar frágeis e a forte sensação de que muita gente está escondendo algo é habilmente exibida pelo texto. Daqui para frente, será a progressiva derrocada moral de uma cidade e de figurões aparentemente incorruptíveis.

Sharp Objects – 1X02: Dirt (EUA, 15 de julho de 2018)
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Marti Noxon (baseado na obra de Gillian Flynn)
Elenco: Amy Adams, Patricia Clarkson, Chris Messina, Eliza Scanlen, Matt Craven, Henry Czerny, Taylor John Smith, Madison Davenport, Miguel Sandoval, Will Chase, Jackson Hurst, Sophia Lillis, Lulu Wilson, Elizabeth Perkins, Reagan Pasternak
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.