Crítica | Sharp Objects – 1X03: Fix

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O desenvolvimento de uma história nem sempre se dá por caminhos aplaudíveis do começo ao fim. E o mais curioso nisso tudo, especialmente em séries com um material-base tão forte como o de Sharp Objects, é que a exposição de algo que não funcionava — por diversos motivos — em um ponto da série, acaba funcionando em outro momento, seja por melhor interação com a temática então desenvolvida, seja pelo esforço técnico diferente ao expor essas coisas, adotando um modo mais palatável para isso. Estes são, em conjunto, os exatos casos de Fix, terceiro e, até aqui, melhor episódio da série.

Marcando um território na “exploração da alma dos personagens“, o roteiro abre o leque para a presença de Camille na cidade, expondo alguns fantasmas do passado, ressaltando alguns traumas através de suas memórias (enfim os cortes e as elipses funcionaram bem!), rememorando de maneira coerente a sua presença na clínica e, de certa forma, moldando a jornada para que ela chegasse ao ponto de vício em que se encontra hoje. Já sabemos que isso tem um pé na infância traumatizada pela perda da irmã e plena negligência afetiva da mãe, mas como era de se esperar, outros motivos se somaram à base de tragédias para a personagem, sempre colocando-a à beira de um ataque de nervos,  fazendo-nos vê-la como um potencial perigo, mesmo que de ordem diferente daquele que Adora pensa que a filha mais velha representa.

No primeiro episódio em fiz alusões à ideia de uma cidade certinha, com tudo funcionando perfeitamente e que é atormentada por assassinatos e mais uma série de estranhezas que podem afetar a população como um todo (bebendo na fonte de Twin Peaks, por exemplo), para um indivíduo ou um grupo seleto de pessoas, como em Veludo Azul. Essas duas inspirações ficam cada vez mais fortes à medida que a adaptação avança (e devo dizer que essa sensação é unicamente para a série, pois não senti tal aproximação temática lendo o livro) e curiosamente vemos as mulheres, de todas as idades, serem cada vez mais delineadas pelo texto, o que nos faz perguntar do quê são capazes. Adora, Camille e Ama são bases muito interessantes às quais podemos adicionar uma porção de comportamentos na cidade, e notem que é a partir delas que temos não só motivações para o avanço da trama, como também para o contato com outros personagens, especialmente os homens.

Também é importante destacar que a série tem como ponto de partida um certo mal-estar causado pela chegada de Camille a Wind Gap. A “estranha que veio noticiar nossas tragédias“, diz um. Hostilidade similar ocorre com o Detetive Willis, o “Kansas City”. Wind Gap não gosta de estranhos. Os tais “assuntos internos“, com todo o dinheiro às claras e toda a miséria escondida são demasiadamente ciosos de seu “sonho americano” e, por isso mesmo, o temor do escândalo social, da opinião alheia, da recusa em ver o monstro no quintal. Afinal, como é que um espaço com tantos cidadãos de bem, bons costumes e famílias sob um certo patamar de ideal… tradicional, pode gerar um assassino? Ou uma assassina? O roteiro de Alex Metcalf brinca muitíssimo com esse conceito aqui em Fix, sempre puxando das mulheres a iniciativa de atribuição de culpa, controle, desfaçatez e até mesmo gentileza. A intenção aqui é tornar todo mundo muito difícil de ler, apesar de parecerem despudoradamente transparentes (ou terem marcas na pele para dizerem o que são, o que pensam de si ou do mundo). Impulsos e segredos. Uma combinação perfeita para a tragédia…

Sharp Objects – 1X03: Fix (EUA, 22 de julho de 2018)
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Alex Metcalf (baseado na obra de Gillian Flynn)
Elenco: Amy Adams, Patricia Clarkson, Chris Messina, Eliza Scanlen, Matt Craven, Henry Czerny, Taylor John Smith, Madison Davenport, Miguel Sandoval, Will Chase, Jennifer Aspen, Emily Yancy
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.