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Crítica | Sharp Objects – 1X04: Ripe

por Luiz Santiago
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  • Há SPOILERS do episódio. Para ler as outras críticas, clique aqui.

Não importa o quão desprendida uma pessoa se mostre, se auto-declare ou queira ser, sempre haverá alguém ou um grupo de pessoas do qual ela vai almejar aprovação e, invariavelmente, amor. Para a maioria das pessoas, o “alguém” desta equação acaba sendo os pais, e é exatamente esta a situação de Camille neste episódio. Embora a montagem não nos permita ter mais tempo de genuína exploração da protagonista (notem que sempre acontecem os cortes abruptos ou a interferência de alguém em cena quando estamos prestes a ter um tempo maior com Camille — e desta vez, não estou colocando isso como algo negativo, apenas como um fato), a direção de Jean-Marc Vallée e o trabalho de Amy Adams criam um ambiente intenso e cheio de ingredientes a partir dos quais montamos as mais diversas conclusões e passamos a conhecer a personagem. Camille é conhecida por nós não porque o enredo faz com que ela se mostre. Mas porque teme suas falhas. Pelo que nos esconde. Pelo que a perturba. Pelos flashes que temos dela.

Alguns de vocês têm acompanhado as críticas desde o Piloto da série e sabem que eu ainda estava lendo o livro quando o show começou. Terminei a obra no dia anterior à publicação desta crítica e agora posso dizer com segurança que o trabalho de ambientação feito por Vallée e o trabalho do excelente elenco da série torna a adaptação muitíssimo mais palatável e relacionável que o original. Não que o livro não o seja, vejam bem. Mas é mais difícil no papel. Aqui, de maneira muito inteligente, os roteiros mantêm o tom macabro através da suspeita a tudo e todos e com elementos de detalhes visuais e sonoros criados com muito escrúpulo (pegaram o flerte da engenharia de som com Os 39 Degraus?), mas a direção e a fotografia ou mesmo a escolha da trilha sonora não abraçam de todo a escuridão. As coisas mais ou menos caminham no mascarado ambiente de paz de pequena cidade que vemos desde o início…

Visualmente falando, o diretor escolhe a dedo os momentos escuros tipicamente ligados ao horror, ao suspense ou a uma saga de assassinatos num estudo de personagens suspeitos. O contraste com a felicidade de belas casas iluminadas, cheias de cores charmosas, aparência clean e civilizada é o grande cartão de visitas, e aqui quero destacar a incrível cena de entre Camille e John Keene no bar, falando sobre suas irmãs mortas, algo absolutamente desalentador, todavia, em um ambiente que é um verdadeiro show de luzes e sons. Uma excelente escolha e amálgama de partes diferentes do livro para criar uma grande cena, igualmente cheia de significados. É nessas ocasiões que percebemos uma boa adaptação não só pelo que ela entrega em si, quando analisada isoladamente, mas também em uma leitura crítica de aproximação com o original, ao perceber o quanto o showrunner e sua equipe de escritores mantiveram a essência do livro em sua versão nas telas.

O tratamento inicial dado a Richard foi que me incomodou um pouco. Não é segredo desde o segundo episódio que ele está totalmente desconfortável na cidade. Não é um lugar que ele gosta de trabalhar. Wind Gap o vê com maus olhos e lhe é hostil, além de parecer esconder dele algumas boas pistas para pegar o assassino. Reafirmar, através de frases raivosas, o quanto odeia a cidade me pareceu um didatismo bobo, diferente da alta exigência que o show faz aos seus espectadores. Colocando isso de lado, porém, temos mais um excelente capítulo de relações familiares obscuras, suspeitas (o laço mãe-e-filha é um dos mais delineados, tanto no livro quanto na série) e diversas movimentações pela cidade, com a comemoração de um evento cívico tradicional se aproximando e alguns rumores sobre quem é o assassino ganhando corpo. Cada vez mais entendemos que não apenas na pele de Camille mas também na alma da maioria dos habitantes de Wind Gap existem profundos cortes.

Sharp Objects – 1X04: Ripe (EUA, 29 de julho de 2018)
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Vince Calandra Jr. (baseado na obra de Gillian Flynn)
Elenco: Amy Adams, Patricia Clarkson, Matt Craven, Henry Czerny, Madison Davenport, Elizabeth Perkins, Chris Messina, Eliza Scanlen, Taylor John Smith, Gregory H. Alpert, Michelle Arthur, Jennifer Aspen, Betsy Baker, Matt Bauman, Guy Boyd, April Brinson, Violet Brinson, Beth Broderick
Duração: 60 min.

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24 comentários

O Homem do QI200 5 de agosto de 2018 - 21:38

Cara, além da atuação magnífica da Amy, tô gostando demais do suspense dessa série, não consigo encaixar ngm muito bem como o assassino, porém, começo a desconfiar do pai da Camille, ele ao meu ver é um livro fechado, nada sei sobre ele e isso já me causa uma estranheza.

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Luiz Santiago 5 de agosto de 2018 - 22:14

Essa é uma das sensações mais legais da série mesmo. Essa dificuldade de se encontrar suspeitos e nossa busca por ler personagens. No livro também é assim. A adaptação tá porreta demais!

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Luiz Santiago 3 de agosto de 2018 - 09:15

Só foi mostrado em flashbacks, desde o primeiro episódio, @disqus_UyaoA3WIUl:disqus.
Mas ela não foi assassinada. Foi um problema de saúde não especificado ou explorado ainda na série.

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Alan Coelho 5 de agosto de 2018 - 20:01

Então Luiz na sua critica você disse “falando de suas irmãs assassinadas”, não tinha como pensar outra coisa. Usar “mortas” séria mais adequado.

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Luiz Santiago 5 de agosto de 2018 - 20:21

De fato.

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O Homem do QI200 5 de agosto de 2018 - 21:36

Essa irmã que estão falando é a que morreu, logo no começo, certo? Se me lembro, morreu depois do corpo reagir mal as drogas ou bebidas, correto?

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Luiz Santiago 5 de agosto de 2018 - 21:38

Isso, é a irmã mais nova da Camille, a dos flashbacks.

Alan Coelho 3 de agosto de 2018 - 04:23

A irmã da Camille foi assassinada em que parte da série foi mostrado isso?? Pq até agora pra mim era um mistério como foi a morte dela.

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Luiz Santiago 2 de agosto de 2018 - 00:45

Adora é toda desequilibrada, estranha não. E ela fica inventando coisas pra fazer Camille se sentir culpada, vide aquele escândalo todo por causa do espinho da rosa que furou a mão hahahahahaha.

Sobre a menina da cabana, sinceramente não sei. Ainda estou em dúvida se é uma alucinação, flashback ou flashforward… Bora ver no próximo episódio.

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MayB 2 de agosto de 2018 - 12:23

Revi o episódio e parei na imagem da menina. Me pareceu ser a Amma mesmo. Só não dá pra saber se é verdade, passado ou futuro, como vc disse. Por isso que eu to gostando dessa série.

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MayB 1 de agosto de 2018 - 22:57

Não li o livro. Mas pelas palavras do Detetive, o assassino é alguém que se sente rejeitado. Então eu acho que é o padrasto da Camille. Matou as meninas pq a mulher gostava delas. Talvez tenha matado a outra menina (irmã caçula da Camille???). E poupou a Camille pq sentia pena e ela é tratada igual ele. Era a irmã dela (Amma) na cabana no final do episódio? Ia e voltava entre passado e presente, me pareceu que sim. E a Adora confundido as filhas? Pelo que eu entendi quem cortou o cabelo foi a outra filha ou foi ela quem cortou o cabelo da Camille? Loucona

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Luiz Santiago 1 de agosto de 2018 - 10:16

Tem obras que eu também perco a vontade de ler o livro depois de ver a adaptação. Já outras, eu tenho é mais vontade de conhecer a história original.

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Teco Sodre 1 de agosto de 2018 - 09:11

Ótimo episódio, bela condução do Jean-Marc Vallée, que já tinha ganhado meu coração no filme C.R.A.Z.Y., em Clube de Compras Dallas e, mais recentemente, na série BBL, porém, nesse trabalho, ele está se superando. Não vou mais rasgar elogios para Amy e Patricia, porque né? Não li o livro e acho que não vou ler mais, creio que a série já tem me contemplado com o melhor da obra escrita. Então, tô lendo menos comentários aqui pra fugir de possíveis spoilers e me deleitar com essa história mórbida e depressiva. 😀

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Mário Dantas 31 de julho de 2018 - 23:49

Gente, ninguém reparou num flash back do momento em que foi achado o corpo da segunda vítima, o John aparece no fundo da tela, ele vê que acharam sua irmã e corre. Isso eu vi porque voltei várias vezes a cena pra ter certeza. FIQUEM ATENTOS!!!.

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Luiz Santiago 31 de julho de 2018 - 21:51

A relação entre público e crítica, para este caso, eu concordo com você. Talvez seja esse ponto mesmo. Por enquanto, ainda vejo a maioria dos espectadores, ao menos na minha bolha, gostarem. Mas percebo que é uma temática e narrativa que normalmente desagrada ao público mesmo.

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Adriana Santos 31 de julho de 2018 - 19:52

Uma dúvida sobre esse episódio: a namorada do “irmão da menina que morreu” (sou péssima com nomes, mas acho que ele se chama John) achou uma mancha de sangue debaixo da cama? Aparece depois ela limpando e cobrindo, mas isso tem algo a ver com os crimes? Achei meio solto no final.

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Luiz Santiago 31 de julho de 2018 - 19:57

Isso não é explicado mesmo não. A mancha de sangue de fato é encontrada. Ela limpa, no final, mas o episódio não explica a origem, o que é aquilo. certamente para deixar o púbico especulando. Virão respostas em breve…

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Luiz Santiago 31 de julho de 2018 - 19:00

Adora tem esse remorso e ao mesmo tempo… carência louca em relação ao que ela recebeu (ou não recebeu) da mãe. No livro é explicado um pouco essa relação. Se não abordarem na série e vc quiser saber e não for ler o livro, eu te conto depois hehehe

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Maitê 31 de julho de 2018 - 20:11

Por ter lido e concluído o livro, você leva uma vantagem. No entanto, estou com uma forte impressão que Sharp Objects será o tipo de série que é amada pelos críticos e será indiferente para o público. Explico, mesmo correndo o risco de parecer patética.
Furiosa (Mad Max) é um personagem magnífico por uma grande qualidade: ela é uma sobrevivente que deseja a redenção e isso nos causa admiração, respeito. Camille se vitimiza por meio dos cortes que faz no próprio corpo. Ela é incapaz de dar e receber qualquer afeto,ou seja, não vejo Camille em busca de redenção o que fará dela
apenas uma vítima de uma infância sem amor materno, de uma adolescência de abusos que deram causa a uma adulta danificada, portanto é digna de pena. E uma personagem assim é muito difícil de nos identificarmos, afinal gostamos de personagens que enxergam uma luz no fim do túnel. Bem, quanto a relação de Adora com a própria mãe, ou carência louca, isso não justifica sua conduta, afinal, Charles, aquele que jamais será rei, é sabido que não recebeu carinho da mãe-rainha, mas isso não o impediu de seu um pai amoroso. Pronto#faleibobagem.

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Luiz Santiago 31 de julho de 2018 - 18:59

Então, eu não quis tocar no final porque é um terreno nebuloso hahahahahaha. Eu acho que é alucinação, mas deixei para ter certeza no próximo. Mesmo assim, eu adorei a forma como foi finalizado esse episódio.

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leo liçarassa 31 de julho de 2018 - 12:21

Leves spoilers do livro:

Sobre os flashes do passado, isso me deixou um pouco confuso porquê no livro ela meio que “quis” transar com aqueles meninos (me sinto muito mal falar isso porquê pra mim isso é uma forma de estupro), e na série acho que é um pouco diferente, nesse ep nós vemos ela lá com os meninos nos flashbacks mas sem acontecer o ato, e a Camille no presente, quando o Richard pergunta se aconteceu alguma coisa com ela desse tipo ela fala algo como: se os meninos fazem isso é feito uma estátua em homenagem a eles mas as meninas são chamadas de vadias etc… Bem é mais ou menos isso, então isso me faz pensar que ela no começo quis tbm, igual ao livro, mas no primeiro ep nós vemos ela lembrando dela, jovem, correndo de uns meninos na floresta, e isso que me deixou confuso, só que ai eu pensei que no começo ela aceitou fazer aquilo e lá quando ia começar, ela se arrepende e corre e eles vão atrás dela, e eu acho que vai ser até mais pesado do que o livro, porquê eles vão conseguir pegar ela e vão abusar dela. Nossa se for desse jeito vai ser uma cena bem difícil de se ver.

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Cygne Noir 31 de julho de 2018 - 22:38

Eu não cheguei a ler ao livro, e o episódio também não mostrou especificamente o que aconteceu depois. Mas minha interpretação foi que ela poderia sim estar afim de seduzir os caras, mostrar que uma garota pode sim satisfazer suas vontades assim como os meninos e talvez, o arrependimento tenha batido quando, ela muito bem diz com rancor, os caras são postos num pedestal enquanto as garotas são vistas como vadias. A reação ativa dela com o detetive muito diz sobre o ponto de vista da Camille em virtude do sexo. Um ato cru. Um ato totalmente prazeroso assim como é para muitos homens.
Um alívio.
Mas essas atitudes podem confundir. Pois é algo intrínseco da personagem entrando em atrito com suas mágoas pelas coisas desagradáveis que foram acarretados após seus atos.

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Junito Hartley 31 de julho de 2018 - 11:11

Gostei mais desse episodio d que o anterior. Aquele final foi real mesmo? Vc nao falou dele na crítica, a guria bateu as botas??? Ou foi alucinação?

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Maitê 31 de julho de 2018 - 09:31

Achei que o episódio trabalhou muito bem o mais profundo desalento de seus personagens. A forma como o xerife ao acordar olha para o ventilador, que parece ser um importante figurante na trama. O Detetive Richard olhando para fora da janela ou ainda a forma como Camille bebe água como se quisesse vomitá-la, principalmente, nas duas cenas de masturbação. Não sei até quando Alan vai suportar ser o “marido de Adora” , até aqui o personagem está reduzido a ser apenas a escada de uma Adora narcisista e da jovem Camille-de-mal-com-o-mundo! Que situação mais patética para um homem. Já deu para ter uma ideia da origem dos traumas de Camille naquela mata e cabana. Próximo episódio deve ser um horror!! Agora a Adora, na meia-idade, esperando a aprovação da mamãe foi impagável.

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