Crítica | Sharp Objects – 1X04: Ripe

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Não importa o quão desprendida uma pessoa se mostre, se auto-declare ou queira ser, sempre haverá alguém ou um grupo de pessoas do qual ela vai almejar aprovação e, invariavelmente, amor. Para a maioria das pessoas, o “alguém” desta equação acaba sendo os pais, e é exatamente esta a situação de Camille neste episódio. Embora a montagem não nos permita ter mais tempo de genuína exploração da protagonista (notem que sempre acontecem os cortes abruptos ou a interferência de alguém em cena quando estamos prestes a ter um tempo maior com Camille — e desta vez, não estou colocando isso como algo negativo, apenas como um fato), a direção de Jean-Marc Vallée e o trabalho de Amy Adams criam um ambiente intenso e cheio de ingredientes a partir dos quais montamos as mais diversas conclusões e passamos a conhecer a personagem. Camille é conhecida por nós não porque o enredo faz com que ela se mostre. Mas porque teme suas falhas. Pelo que nos esconde. Pelo que a perturba. Pelos flashes que temos dela.

Alguns de vocês têm acompanhado as críticas desde o Piloto da série e sabem que eu ainda estava lendo o livro quando o show começou. Terminei a obra no dia anterior à publicação desta crítica e agora posso dizer com segurança que o trabalho de ambientação feito por Vallée e o trabalho do excelente elenco da série torna a adaptação muitíssimo mais palatável e relacionável que o original. Não que o livro não o seja, vejam bem. Mas é mais difícil no papel. Aqui, de maneira muito inteligente, os roteiros mantêm o tom macabro através da suspeita a tudo e todos e com elementos de detalhes visuais e sonoros criados com muito escrúpulo (pegaram o flerte da engenharia de som com Os 39 Degraus?), mas a direção e a fotografia ou mesmo a escolha da trilha sonora não abraçam de todo a escuridão. As coisas mais ou menos caminham no mascarado ambiente de paz de pequena cidade que vemos desde o início…

Visualmente falando, o diretor escolhe a dedo os momentos escuros tipicamente ligados ao horror, ao suspense ou a uma saga de assassinatos num estudo de personagens suspeitos. O contraste com a felicidade de belas casas iluminadas, cheias de cores charmosas, aparência clean e civilizada é o grande cartão de visitas, e aqui quero destacar a incrível cena de entre Camille e John Keene no bar, falando sobre suas irmãs mortas, algo absolutamente desalentador, todavia, em um ambiente que é um verdadeiro show de luzes e sons. Uma excelente escolha e amálgama de partes diferentes do livro para criar uma grande cena, igualmente cheia de significados. É nessas ocasiões que percebemos uma boa adaptação não só pelo que ela entrega em si, quando analisada isoladamente, mas também em uma leitura crítica de aproximação com o original, ao perceber o quanto o showrunner e sua equipe de escritores mantiveram a essência do livro em sua versão nas telas.

O tratamento inicial dado a Richard foi que me incomodou um pouco. Não é segredo desde o segundo episódio que ele está totalmente desconfortável na cidade. Não é um lugar que ele gosta de trabalhar. Wind Gap o vê com maus olhos e lhe é hostil, além de parecer esconder dele algumas boas pistas para pegar o assassino. Reafirmar, através de frases raivosas, o quanto odeia a cidade me pareceu um didatismo bobo, diferente da alta exigência que o show faz aos seus espectadores. Colocando isso de lado, porém, temos mais um excelente capítulo de relações familiares obscuras, suspeitas (o laço mãe-e-filha é um dos mais delineados, tanto no livro quanto na série) e diversas movimentações pela cidade, com a comemoração de um evento cívico tradicional se aproximando e alguns rumores sobre quem é o assassino ganhando corpo. Cada vez mais entendemos que não apenas na pele de Camille mas também na alma da maioria dos habitantes de Wind Gap existem profundos cortes.

Sharp Objects – 1X04: Ripe (EUA, 29 de julho de 2018)
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Vince Calandra Jr. (baseado na obra de Gillian Flynn)
Elenco: Amy Adams, Patricia Clarkson, Matt Craven, Henry Czerny, Madison Davenport, Elizabeth Perkins, Chris Messina, Eliza Scanlen, Taylor John Smith, Gregory H. Alpert, Michelle Arthur, Jennifer Aspen, Betsy Baker, Matt Bauman, Guy Boyd, April Brinson, Violet Brinson, Beth Broderick
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.