Crítica | Shazam! (2019) – Sem Spoilers

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Eis que surge um clarão no céu da Warner/DC. Um raio mágico, capaz de transformar um adolescente de 14 anos em um super-herói que, nos quadrinhos, um certo vilão apelidava de ‘Grande Queijo Vermelho’. Primeiro chamado de Capitão Marvel, o herói em questão teve uma longa e turbulenta história editorial, surgindo em 1940, na Whiz Comics #2 e se tornando um fenômeno de vendas. Depois de um processo da DC Comics contra a Fawcett Publications, proprietária original do personagem de Bill Parker e C.C. Beck, o Vermelhão foi comprado pela casa do Azulão e do Morcego. Entre altos e baixos, conseguiu chegar a 2012 e ganhou uma nova versão pelas mãos de Geoff Johns. Foi essencialmente com base nesta fase que os roteiristas de Shazam! (2019) se basearam para escrever o filme. Um clarão no céu da Warner/DC.

Assinado por David F. Sandberg (o mesmo de Quando as Luzes se Apagam e Annabelle 2: A Criação do Mal) Shazam! é definitivamente o “diferentão para ser amado” desse Universo cinematográfico, com a Warner/DC experimentando uma fórmula atípica para a sua grade de filmes majoritariamente sombrios. Em Aquaman, lançado menos de quatro meses antes, um primeiro teste de mudanças foi realizado, com um bom resultado visual e narrativo, mesmo que não livre de problemas. Em Shazam!, o teste assumiu o caráter de reinvenção, agora não mais buscando o humor através da bizarrice pura e simples e dentro de um enredo desgovernado, tal qual Esquadrão Suicida. Em primeiro lugar, o texto de Henry Gayden e Darren Lemke não tem vergonha absolutamente nenhuma de ser aquilo que a adaptação de um quadrinho sobre um adolescente que vira super-herói poderia ser. E convenhamos que abraçar os próprios personagens e confiar no projeto pelo que ele é — como claramente a Warner/DC está fazendo com este filme (notem a total liberdade diante do embargo para a publicação de críticas, por exemplo) — já é um largo passo para fazer a coisa começar bem.

E “começar bem” é algo ironicamente adotado pela produção nesse filme, em termos de tonalidade da história, dos personagens e da fotografia. Para os desafetos do título desde o trailer, o estúdio entrega brevemente a DC-padrão, apenas de brincadeira, marcando território na apresentação de um personagem como se aquilo fosse inteiramente a base do filme. Para quem conhece o Universo da antiga Terra-S, há até um pequeno susto na concepção de uma mitologia em todo o bloco inicial (eu desgostei da proposta, no início, mas depois abracei a ideia), até que a direção nos faz entender a jogada e finca o pé entre o que poderia ter sido e o que será Shazam!. Sandberg disse em entrevistas que Quero Ser Grande (1988) e Stranger Things (2016) são duas grandes inspirações gerais para o filme e esta é a mais pura verdade. Vejam bem, quando usei a palavra “reinvenção” para definir o caráter deste longa, eu estava falando justamente em relação ao que a gente conhece das coisas que a DC trouxe para o cinema e o que esta presente obra nos traz. Shazam! é um filme que não se apega à necessidade patológica de mostrar os grandes Deuses-DC em ação soturna. Os produtores não interfeririam na toada familiar, cômica (especialmente em piadas visuais, mas com boas sacadas literais também) e emotiva que formam a trama. E o que isso nos traz?

Essencialmente nos traz alegria. O filme se constrói sob uma gangorra de dramas familiares e comportamento adolescente que, a despeito de nos incomodar em alguns pontos (uma certa cena de exibição arrogante e algumas conveniências diante do uso de poder do protagonista que até me fizeram pensar: “por que diabos deixaram isso aqui em um enredo tão delicioso?”) jamais permite que a obra caia de sua alta posição calorosa e complicada para laços familiares. Esse núcleo é de imensa importância para o arco do vilão, o Dr. Thaddeus Silvana, vivido em bom tom por Mark Strong. É em torno dele que a maravilhosa bobagem heroica do filme irá se desenvolver, inclusive com a discussão dos valores básicos que formam um herói e da força que uma família unida pode ter. O clichês bonitinhos de moralidade familiar passam por diferentes nuances aqui, até porque a negativa posição de Billy em relação à instituição é conhecida desde o primeiro trailer. E para guiá-lo nessa nova forma de olhar o mundo e as pessoas em volta, a gente tem o incrível Freddy Freeman, maravilhosamente interpretado por Jack Dylan Grazer.

Eu não vou cair na besteira de dizer que Grazer, em algumas (muitas?) vezes chega a apagar o Billy Batson de Asher Angel, que também faz um trabalho muito interessante na criação de um adolescente negativamente marcado pela vida, carrancudo e ressentido que aos poucos aprende o quão bom é ser amado e ter a quem amar. Mas Grazer, em algumas (muitas?) vezes chega a apagar o Billy Batson de Asher Angel. Como o roteiro captura com muita precisão as personalidades e a direção de atores faz a gente curtir a excelente química do principal trio masculino, Billy acaba passando por uma jornada de intensas transformações, enquanto Freddy — definitivamente o meu personagem favorito da obra — é o guia moral e técnico dele, estando inteiramente engajado em fazer com que o novo herói da área descubra seus poderes e, principalmente, entenda os valores envolvidos na frase “eu sou um super-herói”. Aí entra em cena Zachary Levi, como Shazam, mais outra grande escalação da obra.

Levi abraça efusivamente o seu personagem e os primeiros 10 minutos dele transformado pela primeira vez são um verdadeiro presente o espectador. No miolo da fita, que é onde eu encontro alguns obstáculos no desenvolvimento da história (especialmente para vilão e efeitos), a atuação de Levi perde um pouco da genuína exposição de um adolescente no corpo de um adulto, mas a passagem por esses espinhos é bem rápida e está cercada de coisas que nos chamam a atenção pelo caráter amedrontador e pelos já citados motivos que fazem este filme ser tão caloroso e tão gostoso de se ver. Se um ponto não tão bom aparece aqui, a mesma sequência nos traz seis outros ótimos acontecimentos para prestar atenção, de modo que os problemas acabam sendo diminuídos por tudo o que a obra tem de positivo para nos oferecer. Aliás, se o leitor conhece a versão de Shazam nos Novos 52, pode esperar para ser mimado até o último instante da projeção.

No meio de tanta seriedade, quase-realismo e jornadas épicas no atual Universo dos super-heróis nos cinemas, Shazam! adota uma marca que não se ressente de ser bobona, de ser para a família ou para qualquer um que tenha um coração batendo no peito e se permite duas horas de diversão com o mal e o bem enfrentando-se num trânsito de olhar adolescente para adulto. Trata-se de uma obra diferente para a DC, uma aposta diante da qual estão muito confiantes, e com razão. Da trilha aos figurinos, da abordagem vilanesca (com boas surpresas) ao enfrentamento com um garoto que não queria ser herói (também com boas surpresas, especialmente no final), a obra nos faz respirar leveza e apresenta uma comédia adolescente que respeita os quadrinhos, que não inventa caminhos para tentar tornar tudo mais importante do que é, satisfazendo-se com o bom material que tem em mãos e que certamente vale muito a sessão. Como crítico, minha avaliação final para a fita acabou sendo três e meio (quase dei quatro!), mas a criança feliz que mora em mim simplesmente vê brilhar uma constelação inteira para esse filme. Um verdadeiro clarão no céu da Warner/DC… SHAZAM! ⚡

ATENÇÃO!: Existem duas pequenas cenas pós-créditos!

Shazam! (EUA, 2019)
Direção: David F. Sandberg
Roteiro: Henry Gayden, Darren Lemke
Elenco: Zachary Levi, Djimon Hounsou, Michelle Borth, Mark Strong, Jack Dylan Grazer, Adam Brody, Meagan Good, Asher Angel, Marta Milans, Ross Butler, Lovina Yavari, Grace Fulton, John Glover, Stephannie Hawkins, Cooper Andrews, Natalia Safran, D.J. Cotrona, Evan Marsh, Ava Preston, Faithe Herman
Duração: 132 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.