Crítica | Shazam: No Princípio… (1973)

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“Depois de 20 anos… o retorno triunfante do mortal mais poderoso do mundo… o Capitão Marvel original!“. É com esta frase que a DC Comics, sem nenhuma vergonha na cara, exibe para seus leitores o resultado de um processo judicial absurdo que jamais deveria ter ganhado: o Capitão Marvel, ex-propriedade da Fawcett. Em 1953, as histórias do “Grande Queijo Vermelho“, como o apelidara o Dr. Silvana, pararam de ser publicadas pela Fawcett (mais detalhes sobre o processo na introdução desta crítica), retornando, agora como propriedade da DC, em 1973, em um título solo — Shazam! Vol.1, que durou 35 edições.

O primeiro arco não formalizado da revista (In the Beginning…) abarca as sete primeiras publicações do título, todas datadas de 1973. E aqui, um detalhe: a edição oito também é do mesmo ano, mas ela não possui nenhuma aventura inédita, são todas republicações de sagas da Era de Ouro do personagem, por isso abordo aqui apenas as sete primeiras, que trazem roteiros de Dennis O’Neil (história principal) e de Elliot S. Maggin (histórias secundárias). Como se tratam de reintrodução do personagem em nova editora (todas as aparições aqui são as primeiras desses personagens na DC) há muita coisa básica em jogo e os roteiros até podem enjoar um pouco que já conhece o Shazam das aventuras dos anos 40 e 50. Ocorre, porém, que não são histórias ruins.

A partir daqui temos um novo contato com Billy Batson, com o Dr. Silvana e diversos outros personagens icônicos para a mitologia da Família, como Capitão Marvel Jr. e Mary Marvel (em aparições rápidas na primeira revista), o tigre falante Mr. Tawky Tawny (Seu Malhado), o dono da rádio Whiz onde Billy trabalha, vilões da Sociedade dos Monstros e por aí vai. Já na primeira edição é dada a explicação do por quê o Capitão Marvel havia desaparecido… É criada uma ação do Dr. Silvana com os filhos Thaddeus Silvana Jr. e Georgia Silvana, colocando Shazam e seus dois companheiros + um bom número de cidadãos (convenientemente todos os principais personagens, civis ou vilões, que apareciam nas revistas da Família de maneira regular) em uma bolota de Suspendium, resumidamente, um processo tecnológico inventado pelo Dr. para colocar pessoas em animação suspensa “para sempre”. Não é a mais inteligente das resoluções, mas tem o seu charme e, pensando na Terra-S pré-Crise, onde essas histórias se passavam, dá para aceitar a explicação sem maiores problemas. E assim, a Família Marvel volta à ativa.

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Arte, finalização e letras dessas sete primeiras revistas do Shazam na DC ficaram a cargo do co-criador do personagem, C.C. Beck, cujos desenhos inspiram um ar infantil, sério e ao mesmo tempo jocoso que é uma delícia de acompanhar. Existem momentos dessas edições que me lembraram as resoluções bem engenhosas de Jack Cole, especialmente na história onde aparece um ex-membro da Sociedade dos Monstros. O curioso nos desenhos dessa primeira fase da Shazam Vol.1 é que as páginas de aventura, com os títulos grandes e que normalmente eram um chamariz visual, acabam, em muitos casos, poluídas por uma porção de quadros menores ou balões com diálogos gigantes. A arte, que é melhor coisa desses momentos, fica espremida ou é atrapalhada pela diagramação da página. Já no desenvolvimento das histórias isso não acontece e é bem curioso observar que C.C. Beck mantém o mesmo ritmo e a mesma dinâmica de diagramação que utilizara para seu personagem na Era de Ouro.

Essas sete primeiras edições de 1973 mostrando o retorno do Capitão Marvel aos quadrinhos, agora em outra editora, é um misto de deleite e estranheza, porque canonicamente ele ficou em animação suspensa por 20 anos e a mudança do mundo à sua volta é literalmente mostrada em diversas aventuras: novas gírias, nova moda, caminhos diferentes para o crime (embora certas coisas, nesta seara, nunca mudem) e novas percepções das pessoas para o herói que um dia batera o Superman em número de vendas. Começava aqui uma longa história de “maldição editorial” da DC com o Shazam. Um retorno com um peso embutido.

Shazam Vol.1 #1 a 7: …In the Beginning… (EUA, 1973)
No Brasil: Ebal, 1973 a 1975; 1978, 1980
Roteiro: Dennis O’Neil, Elliot S. Maggin, Otto Binder
Arte: C.C. Beck
Arte-final: C.C. Beck
Letras: C.C. Beck
Capas: C.C. Beck, Nick Cardy, Murphy Anderson, Jack Adler, Gaspar Saladino
Editoria: Julius Schwartz, E. Nelson Bridwell
160 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.