Crítica | Shazam: O Novo Começo (1987)

PLANO CRITICO 1987 SHAZAM O NOVO COMEÇO

A primeira “nova” origem do antigo Capitão Marvel da DC Comics aconteceu em A Origem Secreta de Shazam (1986), mas como praticamente tudo na Casa das Trevas, nada dura por muito tempo, e logo no ano seguinte veio a minissérie em quatro edições intitulada O Novo Começo. Com texto de Roy Thomas e Dann Thomas, a obra trata o herói de uma maneira muito divertida e num bom equilíbrio entre a origem do Shazam da Era de Ouro e um herói que fosse a cara da DC naquele momento pós Infinitas Terras e na cola de Legends.

Tom Mandrake, que assina a arte e também a finaliza, ao lado de Jan Duursema, também não perde a oportunidade de fazer inúmeras referências e recriações visuais, especialmente na icônica passagem onde Billy Batson é levado para o metrô e então descobre o caminho para a Pedra da Eternidade, encontrando-se com o Mago e obtendo seus poderes. Nas primeiras páginas da edição de abertura, o leitor ainda não está convencido de que a trama pode funcionar. A despeito da demora para engrenar, o roteiro claramente tem potencial e isso é mostrado mais ou menos do meio da primeira edição e ao longo de toda a segunda revista da saga, que concentram os melhores momentos, em texto e arte, desta minissérie.

E o que funciona mais neste espaço do que em qualquer outra das quatro edições é a colocação de Billy com uma interessante dualidade de personalidade, sem exagerar no maravilhamento adolescente dele quando está musculoso e super-poderoso, mas também sem ignorar esse óbvio fator. As mudanças de corpo e a relação do menino com sua nova condição heroica são coisas necessárias para um roteiro desse tipo, e o que faz a primeira parte da história ser muito boa é exatamente o triunfo dos dois Thomas em trabalharem essa questão. Como eu já disse em outra oportunidade aqui no Plano Crítico: escrever para um personagem como Shazam é uma tarefa muito difícil, porque o autor não só precisa adequar dois tipos de linguagem, como precisa fazer o protagonista avançar e ser orgânico em uma história que utilize essa premissa. O bom disso, no entanto, é que quando o serviço é bem feito, dá um imenso gosto e mostra para o leitor por que Shazam é um personagem tão especial.

PLANO CRITICO SHAZAM LUTANDO COM ADÃO NEGRO PLANO CRITICO

Dobradinha de TOP SOCÃO!!!

A relação de Billy com o tio Dudley Batson (futuro Uncle Marvel) é colocada já no início da minissérie, uma mudança curiosa estabelecida pelos autores e que eu estranhei no início, mas acabei gostando à medida que a trama avançava. No mesmo espectro de novidades estão a presença imediata de Hoppy (o futuro Coelho Marvel) e, como complemento, a introdução interessante de Silvana, Beautia, Magnificus e Adão Negro (com história de origem contada e tudo), além do cameo final o com Senhor Cérebro (Mister Mind). Ou seja, trata-se de uma origem bem pensada em diversos caminhos, fazendo uma trajetória elogiável entre a vida comum dos Batson com a novidade de uma jornada de aventuras — só vale dizer que para uma trama com tom realista como a que temos aqui, a colocação de Billy como âncora na TV me pareceu estranhíssimo!

Infelizmente as edições #3 e 4 perdem a boa representação do protagonista e rapidamente tornam o enfrentamento com o Adão Negro algo protocolar, meio mecânico, com raros momentos de genuína diversão. Até mesmo a luta, que é um ponto sempre chamativo para os leitores, aparece numa toada mediana, vinda a partir de diálogos que ora tentam marcar pé na inexperiência do Capitão Marvel; ora louvam a história de vida de Teth-Adam, nunca encontrando um ponto atrativo para se estabelecer, algo igualmente aplicável à presença de Silvana nessas duas revistas, que é algo simplesmente chateante.

O Novo Começo tinha tudo para ser uma excelente história de origem. Na verdade, depois de engrenar e até a segunda edição, ela de fato se mostra uma excelente história de origem. Mas o desenvolvimento da batalha contra Adão Negro e os planos familiares e vilanescos de Silvana saem pior do que a encomenda e não sustentam o nível da saga no alto. Para complicar ainda mais o fator de “leitura essencial“, a minissérie passou de origem canônica para fora da cronologia, sendo colocada na Terra-85. Ainda vejo a leitura da minissérie como algo válido, até para que se consiga aumentar a base comparativa e o entendimento de como a personalidade de Shazam foi aos poucos ganhando novas camadas na DC. Mas é fácil compreender por que ela está em várias listas de histórias que “não tem problema se pular“, em maratonas sobre o personagem.

Shazam!: The New Beginning #1 a 4 (EUA, abril a julho de 1987)
Roteiro: Roy Thomas, Dann Thomas
Arte: Tom Mandrake
Arte-final: Tom Mandrake, Jan Duursema
Cores: Carl Gafford, Joe Orlando
Letras: Augustin Mas
Capas: Tom Mandrake
96 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.