Crítica | She-Ra e as Princesas do Poder – 2ª Temporada

A Dreamworks Animation Television tem funcionado a todo vapor, trazendo ótimas animações para distribuição pelo Netflix como Voltron: O Defensor Lendário, o “DelToroverso” dos Contos de Acádia e, mais recentemente, o resgate de She-Ra, a criação oitentista de  Larry DiTillio e do versátil J. Michael Straczynski, spin-off do enormemente bem-sucedido He-Man. Com uma 1ª temporada muito bem pensada que não só respeita o cânone da Princesa do Poder que brada “Pela Honra de Grayskull” no planeta Etérea, como também o reimagina e atualiza para os espectadores modernos sob o comando criativo da autora de quadrinhos Noelle Stevenson, responsável por Nimona e Lumberjanes.

Usando a mesma estratégia de Voltron, a Dreamworks e o Netflix lançaram a 2ª temporada menos de seis meses depois da primeira, com os episódios que tinham disponíveis, no caso aqui uma meia temporada de apenas sete em oposição aos 13 da original. Se isso mantém a animação viva na mão dos fãs, reduzindo drasticamente a ansiedade da espera, mantendo uma cadência boa, por outro lado há que se tomar cuidado para a obra não perder rumo. É um pouco do que acontece aqui, infelizmente. A 1ª temporada temporada tinha uma temática firme e um arco bem definido que lidava com o desenvolvimento de Adora, ex-soldada da Horda, controlada pelo vilão Hordak, que descobre que, na verdade, é um princesa super-poderosa ao empunhar uma espada mágica e que passou a vida inteira lutando do lado vilanesco da guerra pela dominação do planeta. Ela é obrigada a abandonar Felina, sua melhor amiga e a aliar-se principalmente à princesa Cintilante e ao guerreiro Arqueiro em uma tentativa de convencer as diversas princesas de reinos espalhados pelo planeta a reunirem-se em prol do bem comum.

Agora, porém, não há um norte e a história que começa esboçando uma direção na linha do treinamento de Adora como She-Ra e da revelação de mais detalhes de Esperança da Luz, a inteligência artificial que controla o Castelo de Cristal e que tem conexão com o passado do planeta e outras encarnações da princesa guerreira, logo começa a perder-se em narrativas paralelas no estilo “perigo da semana” que consomem tempo de duração dos episódios sem realmente desenvolver os personagens. Com isso, as tais “princesas do poder” – Gélida, Serena e outras – tão proeminentemente indicadas no subtítulo da animação são sub-aproveitadas, aparecendo quando conveniente para os roteiros, mas sem um propósito maior como foi a unificação delas na temporada inaugural.

Esse não é um problema gravíssimo, claro, já que é perfeitamente possível compreender esta 2ª temporada como a primeira metade de uma temporada dupla contando uma história maior, especialmente diante do cliffhanger que encerra o último episódio, mas meu ponto é que a Dreamworks soube manejar isso muito bem em Voltron, criando mini-arcos completos sempre que era necessário recorrer a esse expediente. Em linhas gerais, os mistérios de Etérea perpassam toda a temporada e são o foco do capítulo final em que somos apresentados aos divertidos pais de Arqueiro. Da mesma forma, é interessante ver um pouco mais de Entrapta trabalhando para a Horda, ainda que não tenha ficado convencido das motivações da moça em trair suas amigas e seu planeta desse jeito. Por mais avoada que ela possa ser, pareceu-me forçada sua felicidade absoluta em criar armamentos mortais para Hordak que, aliás, com a redução do papel Sombria, ganha bom destaque. Além disso, mesmo considerando que a relação entre Adora e Felina também seja pouco abordada na temporada, a relação de sua vilã com sua mentora Sombria é explorada minimamente, com direito a um episódio quase inteiro de “origem” da feiticeira.

Mas o que realmente importa na reimaginação de She-Ra por Stevenson é a forma contagiante e alegre com que ela lida com esse universo. Trata-se de uma animação muito claramente voltada para um público mais jovem, como aliás, temos que admitir, era também os desenhos originais de He-Man e She-Ra. Mas o que antes era lidado de maneira mais, digamos, super-heróica, aqui ganha contornos mais humanos, algo que Stevenson transfere também para seus personagens recriados, algo que vemos na diversidade deles, inclusive de corpos, com Cintilante sendo o destaque por ser muito raro vermos uma heroína em proporções físicas não-Barbieanas. A inclusividade também é algo importante para a animação, algo trabalhado de maneira natural, sem que a obra seja vendida em função disso.

E há momentos genuinamente interessantes, como o quarto episódio em que vemos a trinca principal bolando uma estratégia para retomar uma fortaleza controlada pela Horda (o pessoal dos dois lados da Batalha de Winterfell poderia aprender com eles…). Nele, os saudosistas ganharão um presente quando as versões originais de diversos personagens aparecem pela imaginação do Arqueiro. Outro capítulo muito bom é o já mencionado em que somos apresentados aos pais do Arqueiro em um ambiente completamente familiar em que ele tem que esconder sua verdadeira natureza, o que comenta justamente sobre o preconceito e a aceitação.

Vibrante e divertida, a 2ª temporada de She-Ra e as Princesas do Poder peca apenas por não ser uma temporada de verdade e por não lidar com um arco minimamente fechado. Se Noelle Stevenson souber acertar esse probleminha nas próximas temporadas, mantendo a estrutura ganhadora de menos episódios com mais constância e dar mais espaço para as demais princesas que gravitam ao redor da trinca protagonista, a animação poderá alcançar facilmente a qualidade dos demais trabalhos recentes da Dreamworks.

She-Ra e as Princesas do Poder – 2ª Temporada (She-Ra and the Princesses of Power, EUA – 26 de abril de 2019)
Desenvolvimento: Noelle Stevenson (com base em criação de  Larry DiTillio e J. Michael Straczynski)
Direção: Jen Bennett, Stephanie Stine, DWooman, Lianne Hughes
Roteiro: Katherine Nolfi, Laura Sreebny, Josie Campbell
Elenco: Aimee Carrero, Karen Fukuhara, AJ Michalka, Marcus Scribner, Reshma Shetty, Lorraine Toussaint, Keston John, Lauren Ash, Christine Woods, Genesis Rodriguez, Jordan Fisher, Vella Lovell, Merit Leighton, Sandra Oh, Krystal Joy Brown, Noelle Stevenson, Morla Gorrondona, Grey Griffin, Adam Ray
Duração: 24 min. por episódio (7 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.