Crítica | She-Ra e as Princesas do Poder – 4ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas. 

É gratificante quando acompanhamos uma série que evolui constantemente e que, a cada temporada, deixa mais claro que toda a história foi pensada de antemão, com finitude e um caminho bem pavimentado até lá. A 4ª e penúltima temporada de She-Ra e as Princesas do Poder, reboot da famosa  série oitentista irmã de He-Man e os Mestres do Universo, é a prova cabal de que Noelle Stevenson tinha toda a trajetória de Adora muito bem mapeada desde o início, preparando o potencialmente explosivo final.

Mais fortemente que nunca girando ao redor da temática da amizade e lealdade, um dos pilares da série, a temporada começa com a coroação de Cintilante como rainha de Lua Clara, a única personagem que ganha essa alteração radical de status juntamente com seu redesenho, com uma figura mais esguia e mais alta, certamente para representar visualmente seu amadurecimento, mesmo que tenhamos que aceitar a maneira razoavelmente repentina como tudo acontece. O que importa, porém, é a simbologia, até porque Cintilante, que já obviamente tinha muito destaque juntamente com Arqueiro, passa a ser colocada em primeiro plano, muitas vezes disputando o primeiro lugar com Adora/She-Ra.

E essa “disputa” está no centro da temporada como a principal forma de desafiar a união de Cintilante, Adora e Arqueiro, com a infiltração de Encrenca Dupla (Jacob Tobia), um fascinante metamorfo andrógino que semeia a discórdia entre os amigos como parte de um plano bem engendrado por Felina. Com isso, apesar de não necessariamente fruto do trabalho direto de Encrenca Dupla, as princesas começam a perder território mais marcadamente na guerra contra a Horda, tornando a situação verdadeiramente desesperadora, algo que só enterra mais profundamente a cunha que separa Cintilante de Adora, com a primeira preparada para fazer literalmente qualquer coisa para salvar seu planeta, incluindo aliar-se cegamente a Sombria e pedir ajuda de Esperança de Luz, mesmo depois que seus propósitos verdadeiros são revelados.

No lado da Zona do Medo, há um bem-vindo paralelismo narrativo, com a aproximação maior de Hordak a Felina e, por outro lado, a separação entre Scorpia e Felina, com a primeira finalmente largando sua inocência de lado e percebendo o quão obsessiva sua amiga se tornou. Mas o interessante é que os roteiros, apesar dos problemas que mencionarei mais abaixo, consegue tirar o ar maniqueísta da coisa em grande parte dos episódios, mostrando as frustrações, indecisões e a tristeza também no seio dos vilões, algo que fica muito evidente em Felina e, surpreendentemente, no próprio Hordak. Há um cuidado e um carinho grande nos dois lados da história, com as mocinhas agindo não somente por altruísmo, mas também por raiva e orgulho e os vilões agindo não apenas com a vontade de dominação global, mas também ciúmes e, não seria incorreto afirmar, amor não correspondido, pelo menos não da maneira que eles esperam.

E, em meio a tudo isso, os mistérios são revelados a passos largos, particularmente a vilania – ou a corrupção, melhor dizendo – de Esperança de Luz, o verdadeiro objetivo dos Primeiros, a função de She-Ra e mais detalhes sobre Mara, o avatar anterior da super-heroína que ganha um belo destaque no episódio 4X09 (Heroína) que usa a confusão mental da bruxa Rizzo para trabalhar exemplarmente duas linhas temporais diferentes. Também é bom ver que a insuportável da Entrapta não foi esquecida, ainda que sua participação fique circunscrita a um único, mas importante episódio (4X11: A Ilha das Feras) que revela, para a surpresa de absolutamente ninguém, que o rei Micah (Daniel Dae Kim), pai de Cintilante, ainda está vivo como um Robinson Crusoé galático.

Outro ponto que merece nota é que todas essas revelações não ficam pela metade e levam ao que parece ser o encerramento de todo um arco sobre a magia de Etérea e sobre a She-Ra anterior, deixando a última temporada para focar na portentosa chegada do Horda Mestre ao planeta e no esforço final das princesas e de Adora, agora sem os poderes, para sobreviver. Isso é que é saber construir e encerrar bem um arco narrativo importante, sem segurar todas as revelações para os últimos episódios da série.

Mas, nem tudo são flores. Apesar do grande trabalho dos roteiros sobre amizade e lealdade que perpassa toda a temporada e em ambos os lados do conflito, por vezes a repetição temática com diálogos expositivos é irritante e cansativa, como se a equipe de roteiristas se esquecesse que estava escrevendo uma série inteligente para o público infanto-juvenil e não uma dessas centenas de bobagens que são descarregadas semanalmente por aí para esse mesmo grupo alvo. Com isso, as “explicações” sobre o valor e importância da amizade e da lealdade por vezes parecem aquele giz derrapando no quadro negro e fazendo aquele barulho que arrepia todos os cabelos, de tão deslocados que são. Toda a imersão que os episódios proporcionam é defenestrada nesses momentos completamente desnecessários que são pontilhados constante e incessantemente.

Outro aspecto, este um padrão da série desde seu início, é a manutenção das princesas – com exceção, claro, de Cintilante e, pelo histrionismo, também Entrapta – como coadjuvantes de luxo para justificar o título no plural. Apesar de bem desenhadas, com características físicas bem próprias, elas têm personalidades absolutamente fungíveis e só aparecem quando essenciais para que a trama ande. Tudo bem que Serena até tem seus arroubos interessantes, valendo destaque para o episódio 4X07 (Sereia-Mistérios), que talvez me fizessem até assistir a um spin-off curto só sobre ela, mas na grande maioria do tempo ela é só decoração de cenário juntamente com as outras cujos nomes nem me lembro direito. E isso porque nem adentrei na mais completa inutilidade que é o unicórnio voador falante que só ocupa espaço nos frames

Felizmente, porém, os problemas da temporada não ofuscam completamente sua qualidade. Sabendo mesclar prodigiosamente desenvolvimento de personagens com evolução da narrativa e desvendamento de mistérios e segredos, Noelle Stevenson prepara She-Ra e as Princesas do Poder para o final que a série merece.

She-Ra e as Princesas do Poder – 4ª Temporada (She-Ra and the Princesses of Power, EUA – 05 de novembro de 2019)
Desenvolvimento: Noelle Stevenson (com base em criação de Larry DiTillio e J. Michael Straczynski)
Direção: Dwooman, Diana Huh, Kiki Manrique, Mandy Clotworthy, Jen Bennett
Roteiro: Laura Sreebny, Katherine Nolfi, M. Willis, Shane Lynch, Josie Campbell, Noelle Stevenson
Elenco: Aimee Carrero, Karen Fukuhara, AJ Michalka, Marcus Scribner, Lorraine Toussaint, Keston John, Lauren Ash, Christine Woods, Genesis Rodriguez, Jordan Fisher, Vella Lovell, Merit Leighton, Sandra Oh, Krystal Joy Brown, Noelle Stevenson, Morla Gorrondona, Grey Griffin, Adam Ray, Jacob Tobia, Amanda C. Miller, Daniel Dae Kim
Duração: 24 min. por episódio (13 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.