Crítica | She-Ra e as Princesas do Poder – 5ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas. 

Tendo encerrado o arco “mágico” de She-Ra na excelente 4ª temporada, Noelle Stevenson escolheu levar sua série mais diretamente para a ficção científica, inspirando-se generosamente em Star Wars para lidar com a resistência da heroína e de suas amigas e amigos rebeldes contra o vilanesco Mestre da Horda que tem Cintilante em seu poder e Felina relutantemente ao seu lado. E, com isso, a showrunner leva grande parte da ação para fora de Etérea, no espaço profundo, o que imediatamente dá novos ares para a série.

Essa escolha é acertada e muito bem-vinda, especialmente porque a ação na superfície do planeta deixado para trás por Adora, Arqueiro e a agora menos insuportável Entrapta não é nunca deixada completamente de lado, com um bom equilíbrio narrativo entre a trinca (ou quinteto contando Cintilante e Felina na nave-mãe do Mestre da Horda) no espaço e o restante das heroínas e heróis fazendo de tudo para não sucumbir à invasão. No entanto, os pecados originais da série vêm cobrar pedágio agora no final, já que, apenas tardiamente, as princesas do título ganham protagonismo consistente, mas que é, em última análise, vazio e pouco impactante justamente por faltar-lhes estofo.

Além disso, ainda que Serena – uma das mais razoavelmente desenvolvidas princesas – comece ganhando destaque com sua relutante liderança na ausência de Adora que, depois de quebrar a espada, não mais consegue transformar-se, isso não demora a desaparecer na segunda onda do ataque em que o Mestre da Horda passa a fazer como os Borgs, assimilando a população do planeta com chips na nuca dos habitantes. Afinal, Serena é logo “convertida”, juntamente com a recém-empossada como princesa Scorpia, outra personagem que tinha tudo para completar seu crescimento na série. E, assim, estranhamente, Stevenson coloca na linha de frente as coadjuvantes das coadjuvantes, dando enorme foco para o casal Netossa e Spinerella, que mal haviam tido tendo decente de tela antes. Igualmente, quase que completamente do nada, a sumida Rainha Mágica, irmã do rei Micah, vem ajudar, também ganhando destaque por aliar-se à Sombria e, também aleatoriamente, Perfurma torna-se importante.

Ou seja, a showrunner nos pede que personagens que nunca tiveram relevância maior do que algumas participações especiais para meras demonstrações de poder, de repente tornem-se importantes para nós, algo que muito claramente poderia ter sido evitado se, de um lado, houvesse menos personagens e, de outro, eles fossem trabalhados com mais consistência e vagar, sem parecerem adereços das temporadas. Teria sido preferível que Stevenson tivesse deixado a ação em Etéria em uma escala menor, mantendo a mesma estrutura anterior em que as “Princesas do Poder” existiam só para justificar o título e não o contrário.

Quem chegou até aqui deve achar que eu detestei a temporada e não está entendendo a nota em estrelas que dei acima, mas esse tipo de incongruência é natural. É que todo o lado Star Wars com Adora e companhia funciona muito bem, mesmo com as várias tentativas de reviravoltas, troca de alianças e relevações de segredos a cada episódio. Além disso – e principalmente – a esperada conversão de Felina em aliada e a lenta, mas constante reafirmação do amor que ela sente por Adora, que culmina com as duas ficando juntas em uma corajosa e aplaudível escolha narrativa, tem enorme valor não só pela inclusividade desse relacionamento que reúne a protagonista com a melhor personagem da série, como também pela forma como o heroísmo é relativizado.

Sim, Adora está pronta a sacrificar-se por seus amigos e nós, espectadores, esperamos esse sacrifício como algo natural da Jornada da Heroína. E é bem verdade que ela se sacrificou de diversas maneiras diferentes ao longo das temporadas, mas seu sacrifício final simplesmente não é aceito por Felina, que chega a brigar com Adora justamente sobre esse ponto. A mensagem de que “o amor vence tudo” pode até ser brega e démodé, mas, no mundo cínico em que vivemos, ela é às vezes necessária e a temporada final de She-Ra entrega isso com categoria, sem muitos exageros. Se personagens como Sombria são redimidos, outros como Cintilante e Arqueiro ganham maturidade, Adora revela-se como uma heroína que verdadeiramente só é o que é porque ela tem um ecossistema de amor e amizade ao seu redor, em uma espécie de simbiose do bem (e ajuda muito o novo e muito mais bonito uniforme de She-Ra, que lhe dá toda a imponência que ela merecia). E Felina, bem, Felina é, talvez, a grande personagem da série, com um arco narrativo que a leva ao lado mais sombrio possível, para que ela saia de lá completamente mudada, mas sem que seu passado seja esquecido.

E, em meio a isso tudo, há ainda tempo para Etérnia e Grayskull serem “explicados” de maneira simpatiquinha, mas canhestra até dizer chega, para a introdução do ótimo personagem Hordak Errado, um clone fora da “rede sináptica” do Mestre da Horda e o desnecessário retorno, no último segundo, do Hordak “certo”, que passa a temporada toda em dúvida sobre quem ele é na verdade. Ah, já ia me esquecendo dos irmãos Starla, Tallstar e Jewelstar, infelizmente muito pouco usados, mas que, por serem os conduítes para a fagulha de rebelião de She-Ra em planetas off screen do império do Mestre da Horda e por abrir uma fresta para um revival da série (quem sabe?), certamente têm seu valor.

Noelle Stevenson, ao final de bem pensados 52 episódios, entrega um épico de fantasia e sci-fi que triunfa em reinventar She-Ra sem trair o espírito da personagem e em mostrar-se ousado e atual. Tomara que a showrunner volte em breve com outro projeto do mesmo naipe.

She-Ra e as Princesas do Poder – 5ª Temporada (She-Ra and the Princesses of Power, EUA – 15 de maio de 2019)
Desenvolvimento: Noelle Stevenson (com base em criação de Larry DiTillio e J. Michael Straczynski)
Direção: Mandy Clotworthy, Jen Bennett, Kiki Manrique
Roteiro: M. Willis, Laura Sreebny, Katherine Nolfi, Noelle Stevenson, Josie Campbell
Elenco: Aimee Carrero, Karen Fukuhara, AJ Michalka, Marcus Scribner, Lorraine Toussaint, Keston John, Lauren Ash, Christine Woods, Genesis Rodriguez, Jordan Fisher, Vella Lovell, Merit Leighton, Sandra Oh, Krystal Joy Brown, Noelle Stevenson, Morla Gorrondona, Grey Griffin, Adam Ray, Jacob Tobia, Amanda C. Miller, Daniel Dae Kim
Duração: 24 min. por episódio (13 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.