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Crítica | Sherlock – 3ª Temporada

por Iann Jeliel
142 views (a partir de agosto de 2020)

  • SPOILERS! Leia aqui, as críticas das outras temporadas de Sherlock.

A mitologia de Sherlock em minha perspectiva é problemática porque exige uma estruturação extremamente dependente de várias suspensões de descrença. Ora, mas se é uma obra de ficção, por que o poder sobre-humano de dedução do investigador seria incômodo? Para o exercício de suspense no audiovisual, parece algo traíra, excepcionalmente temos que aceitar a cada novo mistério que o personagem tenha tal linha de raciocínio para chegar aonde chega. No universo literário, até pelas pontes da imaginação, esse poderio irreal de pensamento fornece deliciosamente uma forma participativa mais direta, uma ludibriação onde nos vemos naquele personagem e por isso o compramos facilmente, algo que para o audiovisual soa muito mais complexo.

Felizmente, o fenômeno da BBC desde o começo evitou ao máximo transparecer esse caminho de fácil muleta para o exercício de gênero, e a todo momento usa diferentes formas de articular o pensamento do personagem em elementos cênicos visuais, para que possa ser crível a mágica por trás de sua inteligência. Mas também, esconde o necessário para manter a redoma quase mitológica do investigador. A suposta morte de Sherlock no episódio anterior só surpreende e impacta até o momento em que não se confirma uma nova temporada, o que não é um problema, foi um baita cliffhanger e deu uma nova possibilidade de explorar as consequências dramáticas dos fatos nos personagens.

Algo que é devidamente o mote da terceira temporada, desde seu mob-episode, Many Happy Returns. O curta de 7 minutos – que faz parte do escopo da temporada – funciona como um gancho de expectativa para o retorno do icônico personagem e no processo já estabelece o psicológico afetado de John com sua morte, adjunto à “ciência” de Sherlock para com esse afeto. É legal que a montagem – uma das melhores coisas da série em geral – desse mini episódio sugere um planejamento de Sherlock ao forjar sua morte, desde antes da gravação do vídeo de feliz aniversário a Watson, convergindo numa série de crimes insolúveis que traçavam seu caminho de volta a Londres.

O mob-episode é uma ótima ponte para The Empty Hearse, que retoma àquela dinâmica mais simplista do piloto, em que distribui igualmente os núcleos da dupla e extrai o melhor de sua química na comédia. Ele e o seguinte, The Sign of Three, são os episódios mais cômicos da série, e os roteiristas brincam bastante com as possibilidades do humor britânico para fortalecer o vínculo de amizade entre John e Sherlock – respectivamente vividos pelos sempre ótimos Martin Freeman & Benedict Cumberbatch. Além de fornecer um teor autodepreciativo e provocativo do poderio intelectual do investigador, por exemplo, como diabos ele conseguiu forjar sua morte? A série não oferece respostas concretas, mas imagina diversas possibilidades divertidíssimas.

O protagonista acompanha esse novo espírito e abraça um lado mais piadista assexuado, “zoeiro”, que discursa no casamento do amigo de forma hilária e finge que não conseguiu desarmar a bomba a tempo num momento extremamente crucial. Juntando isso a mistérios mais contidos, só que com um bom grau de urgência, temos pelo menos os dois primeiros episódios de excelência. Uma pena que o terceiro – intitulado His Last Vow – não trilhe o mesmo caminho e volte a apostar em conspirações malucas que sempre soaram menos interessantes que esses capítulos contidos. Se ao menos elas fossem criadas do zero, mas não, forçam uma conexão com a esposa de John (Mary), em que ela seria um tipo de espiã desde sempre (pura conveniência) e precisaria resolver pendências com um certo vilão envolvido com Moriarty.

Não gosto tanto da ideia de trazê-lo novamente, o arco de embate entre ele e Sherlock já havia sido muito bem resolvido na segunda temporada, colocá-lo de novo para o fechamento de uma próxima é uma escolha confortável e errônea pensando na perda da boa divisão de tempo de tela entre John e Sherlock. Com Moriaty, ainda que ele seja um grande vilão, o tempo de John era ofuscado por um hiperprotagonismo de Sherlock que tende a colocá-lo naquela posição inicialmente citada de super-herói que resolve tudo sozinho. E isso fica bastante claro em The Abominable Bride, o “filler” que crava definitivamente o retorno de Moriarty para o próximo ano. Coloco entre aspas porque poderia realmente ser excepcional um episódio filler de época em outra linha temporal, caso o final não forçasse uma junção entre elas.

Ao menos fechou a terceira temporada com um experimento interessante – que poderia ser o norte para uma derivada de até mais potencial –, mantendo uma satisfatória regularidade com as demais temporadas. A série Sherlock é isso, um prato cheio para os admiradores já acostumados à essência do material de Arthur Conan Doyle, e uma pedida divertida e didática para os não familiarizados – como eu.

Sherlock – 3ª Temporada | Reino Unido, 2014
Criação:
Steven Moffat, Mark Gatiss
Diretores: Jeremy Lovering, Colm McCarthy, Nick Hurran
Roteiristas: Mark Gatiss, Steve Thompson, Steven Moffat (baseado nos livros de Sir Arthur Conan Doyle)
Elenco: Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Jonathan Aris, Rupert Graves, Lars Mikkelsen, Mark Gatiss, Louise Brealey, Una Stubbs, Amanda Abbington
Duração: 3 episódios – 90 minutos em média cada episódio | 2 especiais (Many Happy Returns – 7 minutos + The Abominable Bride – 90 minutos)

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