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Crítica | Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras

por Kevin Rick
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Depois do sucesso de bilheteria de Sherlock Holmes (2009), não demorou muito para Guy Ritchie, Robert Downey Jr., Jude Law e Warner Bros. se juntarem para uma sequência, sendo lançada apenas dois anos após o divertido primeiro longa, ainda que não tão bem recebido pela crítica ou o público que exigiu mais fidelidade com o material original de Arthur Conan Doyle. Utilizando-se da inteligente colocação de um personagem misterioso em contato com Irene Adler (Rachel McAdams) no primeiro filme, a história da sequência continua as aventuras de Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) contra esta figura desconhecida que estava manipulando o show através da ardilosa Irene, e que agora quer iniciar uma guerra por motivos obscuros. Descobrimos então que se trata do arqui-inimigo de Holmes, o famoso professor James Moriarty (Jared Harris).

Tal qual o filme anterior, o cineasta britânico Guy Ritchie quer uma adaptação cômica e criminosa no escopo de blockbuster e experiência mais habitual de aventura/ação, do que necessariamente uma trama detetivesca. Como eu disse na crítica do longa de 2009, eu gosto da abordagem de Ritchie, pois o artista faz um interessante equilíbrio entre a mitologia de Holmes e a proposta frenética da narrativa ao dinamizar a lógica dedutiva do protagonista através da ação e a montagem acelerada. Ainda assim, é possível detectar alguns problemas do estilo sobre substância do diretor, especialmente na repetição e falta de evolução do drama da dupla principal e a fragilidade do embate entre Holmes e o tênue antagonista Blackwood. Ironicamente, pensando nesses pontos positivos e negativos, é possível articular como Ritchie retifica a questão do antagonismo com Moriarty, mas perde-se na grandiloquência.

Por se tratar de uma história de pré-guerra em 1895, com Holmes e Watson tentando evitar uma destruição global, faz bastante sentido como o filme aumenta a nota blockbuster do anterior. Não se trata mais apenas de uma injeção deste estilo nas lutas clandestinas, no misticismo indecifrável, nas sequências à la Indiana Jones ou no clímax extraordinário na ainda em construção Ponte da Torre em Londres, e sim em sequências de trens e torres explodindo, o constante perigo de bombas, canhões, e até mesmo mudança cirúrgica de face. O Jogo de Sombras é maior e mais exagerado, como a trama meio 007 e James Bond demanda, mas é neste ponto que Ritchie parece perder o equilíbrio e a narrativa fica caricata.

Ritchie deixa de trabalhar uma ação cerebral e dedutiva para termos metralhadoras e plano-sequências com excessivos slow-motions sem propósito além de uma estilização vazia (bem diferente do anterior, aliás, que usava a “pausa” para fazer o exercício de batalha mental de Holmes), as pontuais piadas de disfarce são reiteradas a todo instante, e o encadeamento narrativo é uma sucessão de situações de humor, no qual Holmes parece estar em uma aventura e não investigação. É divertido? Certamente, mas Ritchie perde a mão na dosagem dos elementos que fizeram a obra anterior interessante, com a comédia, a ação e a sua técnica servindo a um blockbuster genérico, e não a curiosa unidade que ele havia criado entre a essência do personagem e seu estilo.

Todavia, como disse anteriormente, o embate antagônico ganha um ar de verdadeira ameaça com o tortuoso e astuto Moriarty. Como um belo jogo de xadrez, simplificado ao mesmo no ótimo ato final entre os dois personagens, Moriarty se prova um temível adversário, até sádico em vários momentos, com o drama bem estabelecido do filme em torno de Holmes encontrando um rival à sua altura. O contexto político e de um período pré-guerra instituem a ótima trama de dois oponentes decidindo o destino de milhões, e, apesar de não ser um whodunnit propriamente dito, o conflito grandiloquente de Holmes e Moriarty mantém o espectador instigado até o desfecho que condensa uma possível guerra mundial em um despojado jogo de xadrez. Apesar do teor mais genérico, exageros fúteis e o humor caricato na perda de equilíbrio de Ritchie, realmente quase não tendo nada da essência de Doyle, Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras mantém a audiência com um mediano divertimento blockbuster, sustentado pelo ótimo embate dramático de um desconcertado Holmes e o megalomaníaco Moriarty.

Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras — Reino Unido, EUA, Alemanha, 2011
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Michele Mulroney, Kieran Mulroney (baseado na obra de Arthur Conan Doyle)
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams, Noomi Rapace, Jared Harris, Eddie Marsan, Geraldine James, Stephen Fry, Kelly Reilly, Paul Anderson
Duração: 129 min.

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