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Crítica | Sherlock: The Abominable Bride

por Luiz Santiago
209 views (a partir de agosto de 2020)

Spoilers!

Quando o anúncio de que um Especial de Sherlock seria feito para “compensar” a longa espera dos fãs pela 4ª Temporada (His Last Vow, o finale da terceira, foi ao ar em janeiro de 2014), muito se especulou sobre qual seria o tema e como os eventos vistos anteriormente se encaixariam nesse novo capítulo da série. Então Mark Gatiss e Steven Moffat anunciaram o enredo de The Abominable Bride e sobrou apenas confusão e um pouco de apreensão para os fãs, que na esteira do “esperar para ver”, compraram a ideia de um episódio/filme realmente apartado da atualidade, encerrado na década de 1890 e com uma aventura alternativa, apenas para diversão.

Conhecendo, porém, a carreira de Gatiss e Moffat, não era de se esperar inteiramente que The Abominable Bride fosse de fato um episódio solto. Os autores se utilizaram do gancho do Palácio Mental de Sherlock para criar um enredo que servia ao mesmo tempo de revisão de fatos do passado e construção de uma história que funciona sim de forma isolada mas que se ergue, por seu significado e trabalho com a mitologia da série, como ponto de partida para a 4ª Temporada (previsa para 2017, se não for adiada mais uma vez), problematizando a volta do Professor Moriarty.

A narrativa de abertura reconta o encontro do Dr. John Watson com o detetive Sherlock Holmes, já dentro de um outro tempo e sob uma outra perspectiva. A estrutura do roteiro se parece muito com a de A Study in Pink, da 1ª Temporada, e parece manter esse tom mais didático e mais casual na parte do episódio centrada no século XIX, do começo da projeção até o momento em que o assassinato de Sir Eustace Carmichael acontece. Daí em diante o texto ganha outro ritmo, torna-se mais reticente (incrementando o enigma), muito mais rápido e apontando para vários caminhos ao mesmo tempo. Outra abordagem, mais simples, mais cínica e mais condescendente é adotada pelos autores no bloco do presente, que no desfecho tem a maior estranheza narrativa do episódio, pela forma como expõe o cliffhanger. Já o final, puramente cômico e irônico, faz um jogo metalinguístico com a quarta parede, sem necessariamente quebrá-la mas jogando com a base de toda a narrativa do episódio, o que acaba funcionando muito bem.

A construção do cenário vitoriano cria uma atmosfera propícia para o tipo de fake mystery a que somos apresentados, entre fotografia escura, figurinos austeros, névoa e desenho de produção sombrio, com interiores de madeira escura e maior número de peças que transitam entre o neutro e o frio. Mais adiante, o contraste com o “outro quarto” do Palácio Mental de Sherlock (a sequência da cachoeira) e o maior impacto com a aparição iluminada do presente têm impacto positivo na transição dessas histórias para o espectador, que tanto por isso quanto pelo roteiro consegue identificar e se localizar de forma precisa e emotiva em cada um dos locais.

Há quem possivelmente se sentirá “agredido” porque o texto conta uma história mas ao final de tudo “não conta nada”, uma defesa que deixa passar duas coisas importantes: o conceito previamente apresentado das viagens mentais do protagonista e a justificativa dada no presente de que Sherlock estava sob o efeito de drogas. Entendo que o final do episódio se mostra um pouco aquém da interessante apresentação do mistério e sua ligação entre tempos e dramas, mas nada disso atrapalha o jogo detetivesco e tampouco descarateriza a obra por nos propor esse jogo, afinal, todas as histórias existem, mas não do mesmo jeito.

Mesmo depois de tanto tempo, Benedict Cumberbatch e Martin Freeman parecem muitíssimo a vontade em seus papeis, criando sutilizes identificáveis em cada uma das épocas representadoss, o que é um presente para o público. Claro que nem todo o elenco segue o mesmo padrão, mas as grandes bandeiras da série seguem representando muito bem, o que era essencial para um Especial como esse depois de uma pausa tão longa e com o retorno que expõe temas difíceis de serem vistos na tela sem elevar sentimentos morais do público, como a inserção do machismo e misoginia nas falas e atitudes dos personagens. Discussões paralelas também ganham espaço, como o sufrágio universal e os medos de “grupos políticos” expostos pelo Watson vitoriano, que cita socialistas e anarquistas entre possíveis vilões por trás de uma “guerra vencida”.

A competente montagem de Andrew McClelland une todos esses temas dentro de um ciclo visual único, tanto pelo ritmo interno dos planos quanto pelas transições utilizadas. Há, talvez, alguma preguiça em sua montagem no início da sequência da igreja, mas ainda assim, nada que minimize o ótimo trabalho feito durante o Especial, com destaque para o primeiro bloco da história (da guerra até a apresentação do caso da noiva abominável pelo Inspetor Lestrade) e para todas as cenas entre Sherlock e Moriarty, cujo primeiro encontro transborda um quê de libido que deixa a ambos (e talvez a alguns espectadores) desconfortáveis, mas vejam, este tema já foi discutido inúmeras vezes desde a 1ª Temporada: a tal “tensão” é apenas uma forma de abordagem para o encontro esses dois homens geniais que normalmente não expressam libido. E este é um recurso que funciona bem pelo incômodo e pelo “flerte” infame gerado pelas duas personalidades, algo que se dissipa em um encontro futuro, dando lugar a um outro sentimento dominante.

Exibido em 1º de janeiro de 2016, The Abominable Bride abriu o ano com uma peça televisiva criativa, inteligente e bem executada, contando histórias válidas, cada uma em seu espaço e realidade, e que lançam as bases para o retorno de um Moriarty que definitivamente está morto. O que isto quer dizer exatamente, apenas o futuro dirá.

Sherlock: The Abominable Bride (Reino Unido, 1º de janeiro de 2016)
Direção: Douglas Mackinnon
Roteiro: Mark Gatiss, Steven Moffat
Elenco: Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Una Stubbs, Rupert Graves, Mark Gatiss, Andrew Scott, Louise Brealey, Jonathan Aris, Yasmine Akram, Tim McInnerny, Natasha O’Keeffe, Taj Smith, Gerald Kyd
Duração: 89 min.

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16 comentários

Joly81 2 de abril de 2017 - 15:30

Incrível como essa série consegue trazer Sherlock para os dias atuais sem deturpar a essência do personagem. Até os fãs mais puritanos devem esta contentes.

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Luiz Santiago 5 de abril de 2017 - 10:22

Exatamente. A qualidade do roteiro, o tipo de trama que eles criam… é tudo muito bem construído. Dá gosto de ver.

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Guilherme Coral 1 de janeiro de 2017 - 02:55

Que episódio! Fui assistir hoje só, porque sabia se assistisse no ano passado ficaria morrendo de ansiedade! Daqui a pouco tem episódio novo, graças!

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Luiz Santiago 1 de janeiro de 2017 - 04:33

Eu ME RECUSO a ler um certo e-mail que acabei de identificar aqui. Vou fingir que não recebi, porque com certeza é papinho de USURPADORA!!!! Ai ai…

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Luiz Santiago 1 de janeiro de 2017 - 04:33

Eu ME RECUSO a ler um certo e-mail que acabei de identificar aqui. Vou fingir que não recebi, porque com certeza é papinho de USURPADORA!!!! Ai ai…

Responder
Guilherme Coral 1 de janeiro de 2017 - 09:50

Hahahahaha sua cretina! Eu sendo todo legal no email e MESMO assim você me chama desse nome injustamente de novo. VOU USURPAR! *musiquinha de nós somos exatamente iguais*

Responder
Luiz Santiago 1 de janeiro de 2017 - 10:05

EU SABIA QUE TINHA ALGUMA COISA A VER COM ISSO!!!
Que cara lavada essa sua, Jocrenylce!!!!

Acabei de ler. Mudei seu título para A CHANTAGISTA EMOCIONAL!

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Guilherme Coral 1 de janeiro de 2017 - 09:50

Hahahahaha sua cretina! Eu sendo todo legal no email e MESMO assim você me chama desse nome injustamente de novo. VOU USURPAR! *musiquinha de nós somos exatamente iguais*

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Fernando 7 de janeiro de 2016 - 20:07

Que episódio lindo e gostoso de assistir, só aumentou a minha ansiedade para a quarta temporada. A dupla Gatiss e do Moffat estava realmente inspirados e que grandes atuações.

Sherlock com certeza continua como uma das melhores séries atuais.

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Luiz Santiago 7 de janeiro de 2016 - 20:40

Continua mesmo! É maravilhoso ver essas tramas inteligentes se desenvolverem. E ver a essência do personagem respeitada, sempre!

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Tiago Lima 4 de janeiro de 2016 - 23:51

Mas que episódio elegante, conciso, e ao mesmo tempo funcionando como um episódio solo e de ligação entre as temporadas.

A mise èn cene da Inglaterra vitoriana esta tão incrível, a fusão de imagens, aquela Noiva Cadaver, que enche os olhos de qualquer um.

Fora o texto que abre margens para tanta discusão, como você bem expos. O feminismo, a paranoia de invasões de outras nações ou regimes politicos.O envolvimento de Holmes com drogas.

Apesar do final parecer ambiguo, minha leitura é que Moriaty, a pessoa, de fato esta morto, mas não a idéia de Moriaty. Como Holmes mesmo fala, não se mata uma idéia. E creio que esse será o plot da 4° temporada, um imitador, fan de Moriaty que tentará a todo custo terminar o que ele começou. Começamos o ano muito bem.

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Luiz Santiago 5 de janeiro de 2016 - 00:36

De fato começamos muito bem! Estou ansioso para ver essa ideia sendo revisada por outra pessoa. Nas mãos do Gatiss e do Moffat isso tem cara de coisa épica. Afinal, estamos falando de Sherlock, não é mesmo? E tomara que mantenham 2017 fixo e não adiem (DE NOVO!!!) a 4ª Temporada. ¬¬

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Matheus Popst 4 de janeiro de 2016 - 19:32

É estranho a maneira que o Gattis e o Moffat trabalham. Em seus textos para Doctor Who, Gattis entrega produtos que embora garantam a atenção do SM (SM pediu um Sleep no more 2) causam o ódio da audiência. Aposto em MG para ser próximo Showrunner de doctor who e embora ele se considere um escritor de terror, Cold War, The Victory of the Daleks e The Crimson Horror não empolgam.

A pergunta é: como que dá tão certo a parceria em Sherlock? Por que Gattis e Moffat não escrevem assim para Doctor Who? (eu digo nos trabalhos que desenvolvem juntos, mesmo MG e SM nunca tendo assinado um episódio juntos, é SM que os aprova)

Por fim, evoco uma frase de SM dizendo por que ele não se seduz para fazer um filme de DW mesmo sabendo da grana (adapte para Sherlock): “This is BBC, we’re British. We do art.”

Sim, Moffat. O que vocês fazem é arte.

Do mais, preciso admitir que fiquei perdido nos inceptions e nas referências que claramente nos lembram de Last Christmas e Heaven Sent. Já não sabia mais onde estava. Mas não vejo problema nisso, isso é Inglaterra! Ninguém precisa ser didático.

Quando alguém me diz que assiste Elementary eu logo pergunto se vê Sherlock. Nunca vi alguém dizer que sim. Creio que qualquer pessoa que já tenha visto Sherlock olhe com preconceito pra qualquer outra coisa de Holmes, pois sabe que nunca será tão bom e por isso nem tenta assistir para não se decepcionar. Ao menos, pra mim é assim.

Abraços Santiago e um feliz ano novo.

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Luiz Santiago 4 de janeiro de 2016 - 19:48

Sabe que eu estava me fazendo exatamente essa pergunta? É incrível o que eles fazer em Sherlock e como o foco de enredos dele em DW é… diferente. Eu até entendo que sendo Sherlock uma série deles e DW tendo um baita canon e “forças terríveis” por trás, haja um certo pé atrás de ambos, mas tanto MG quanto SM poderiam sim trabalhar mais arte, como eles fazem aqui.

E sobre Elementary, toda vez que alguém vem defender a série como o supra-sumo do mistério e da inteligência, eu ativo a minha audição seletiva. Na mesma hora começa a tocar “Another One Bites the Dust” na minha cabeça e eu só consigo balançar a cabeça, marcando a linha do baixo e o ritmo da bateria, enquanto a pessoa acha que eu to concordando com ela. hahahahahhahahahahahahha
Abraços, Matheus!

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Filipe Isaías 4 de janeiro de 2016 - 17:46

“Elementar, meu caro Watson”. Eu quase pulei de alegria quando ele disse isso, mas tinha visita em casa.

Tirando esse fan-service o momento que eu mais gostei nesse especial foi a revelação de que o Sherlock é usuário de drogas, uma clara referência aos livros. Achei que aprofundou mais o personagem, incluindo a relação dele com Mycroft.

E, cara, 2017! Não sei se eu aguento até lá. Quem dera a gente tivesse uma máquina do tempo…

Abs.

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Luiz Santiago 4 de janeiro de 2016 - 17:58

Essa visão mais crua que o Gatiss e o Moffat deram ao personagem me agradou muito. Ele está um pouco diferente do que vimos nas temporadas, mas entendemos o motivo na reta final. E que final, hein! 🙂

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