Crítica | Shocker – 100 Mil Volts de Terror

Quando Shocker – 100 Mil Volts de Horror foi lançado, lembro de maneira nebulosa que havia certa ansiedade das pessoas em conhecer o novo assassino em série do cinema. Depois de tantas investidas nas franquias Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e Halloween, era hora do cinema de horror se reinventar. Chancelado por Wes Craven então, era de esperar uma boa surpresa, pois mesmo diante dos desajustados Quadrilha de Sádicos 2 e A Maldição de Samantha, um dos mestres do macabro havia acertado em cheio com algumas produções anteriores. As expectativas descem tal com o sangue de Marion Crane ralo abaixo, pois a cada frame que o filme avança, mais certos da falta de bom senso do cineasta nós ficamos.

Há de se observar que minha análise para Wes Craven é diacrônica. Com exceção de Pânico e A Hora do Pesadelo, tinha vaga lembrança de A Maldição de Samantha e o psicopata que “atravessa a eletricidade” tinha sido conferido em excertos na exibição em televisão aberta lá pelos idos dos primeiros anos da década de 1990. O sono foi mais dominante e só tinha maiores informações sobre o filme por conta dos comentários dos colegas de escola no dia posterior, extasiados com os horrores da produção que fez todo mundo deixar de brincar e entrar para casa mais cedo no dia da exibição. Eis que após mais de duas décadas, retorno ao filme, com toda pompa e animação.

O resultado foi a descida ladeira abaixo das expectativas. Devo dizer que de todos os filmes de Wes Craven, Shocker – 100 Mil Volts de Horror é um dos três piores. A narrativa é declaradamente nonsense, irritante, fraca, esvaziada de sentido quando na verdade observamos que o cineasta, também responsável pelo roteiro, queria dizer tanta coisa que acabou errando a mão na escrita, na orquestração e nos demais processos que permitiram a existência do filme, lembrado apenas no circuito de cinéfilos que tal como quem vos escreve, mergulha profundamente nas malhas da memória para resgatar histórias que na atualidade, perderam bastante impacto ou qualidade diante de nosso processo de amadurecimento intelectual.

Psicopata é condenado à morte: a cadeira elétrica. Durante a execução, o seu corpo é energizado com a descarga elétrica e o espírito ganha o poder de se transferir para outros corpos, transformando pessoas inocentes em assassinos cruéis. E ele começa a perseguir Parker (Michael Murphy), adolescente que durante alguns sonhos, consegue prever as ações criminosas do assassino. O pacto sobrenatural realizado durante a execução permite ao “monstro” passar de um corpo para outro, numa escolha narrativa que nos faz observar o quão Jason Vai Para O Inferno é um filme igualmente ruim e nada original, pois a proposta para a franquia do assassino das sextas, dia 13, basicamente segue o mesmo ritmo.

Além de se transportar entre um corpo e outro, o assassino também viaja pelas fiações elétricas, atravessa mundos alternativos e invade acontecimentos exibidos na televisão, meio de comunicação que determinada seu modus operandi. As primeiras cenas do filme nos mostram o psicopata a trabalhar em televisores, tal como Freddy Krueger trabalhava em suas garras afiadas, num jogo de referências que vai além de aspectos visuais e adentra num processo de plágio, pois os piores elementos da franquia A Hora do Pesadelo, isto é, os filmes subsequentes ao de 1984, estão todos a gravitar em torno dos conflitos dramáticos em Shocker.  Pior que tudo isso é o suposto desfecho na torre, ledo engano para os ansiosos pelo fim, pois a narrativa se alastra por longos trechos mais adiante.

No bojo técnico, os profissionais não possuem muito a fazer com o roteiro ruim. O design de produção de Cynthia Kay Clarette ergue bem os espaços internos e gerencia a cenografia de Naomi Slohan e a direção de arte Randy Moore. A direção de fotografia de Jacques Haitkin tenta fazer milagre, mas não sai do trivial. Ademais, a condução musical de William Goldstein segue os 109 minutos de filme que poderiam ter menos 30 minutos ou não existir, tamanho a ruindade da narrativa e do assassino kitsch. O interesse em rabiscar um novo antagonista não deu certo, pois foi preciso retomar Freddy Krueger em 1993, intervalo depois do filme de 1984, filme cheio de charme e ótimo desempenho metalinguístico.

Shocker – 100 Mil Volts de Terror (Shocker/Estados Unidos, 1989)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven
Elenco: Michael Murphy, Peter Berg, Mitch Pileggi, Sam Scarber, Camille Cooper, Ted Raimi
Duração: 91 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.