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Crítica | Shoeless Joe (Campo dos Sonhos), de W.P. Kinsella

por Ritter Fan
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Já tentei por diversas vezes entender as regras do beisebol, inclusive assistindo a um jogo ao vivo em um estádio americano ao lado de um fanático pelo esporte que usou as várias horas de muito cachorro quente e pipoca para tentar me explicar cada detalhe do que estava vendo. Mas não teve jeito. Continuei ignorante. No entanto, os filmes americanos que tem o esporte como pano de fundo costumam me agradar tremendamente, com Campo dos Sonhos sendo um deles não só em razão de seu elenco, mas também – e, principalmente – pela forma como o sobrenatural é delicadamente costurado nesse recorte da cultura esportiva dos EUA.

Foi assim que, muitos anos depois de ficar fascinado pelo longa estrelado por Kevin Costner, finalmente tive a oportunidade de ler Shoeless Joe, o romance que o canadense W.P. Kinsella escreveu como parte de seu aprendizado como escritor e publicou em 1982. No romance, assim como no filme, o autor não só se insere na narrativa como protagonista, como também usa o famoso escândalo de corrupção esportiva conhecido como Black Sox (até eu conhecia!), em que o time White Sox, de Chicago, entregou a final contra o Cincinnati Reds de 1919, depois de receber pagamento da máfia, levando ao banimento do esporte de oito jogadores, incluindo Joseph Jefferson Jackson, ou Shoeless Joe Jackson, por toda a vida deles. Kinsella, que escrevera histórias de cunho jornalístico sobre o escândalo, partiu desse enquadramento para imaginar uma situação em que Shoeless Joe e outros magicamente voltariam à vida no presente.

Para fazer isso, ele se transporta para o romance como Ray Kinsella, um fazendeiro “de primeira viagem” no Iowa que, em um belo dia, houve, em meio ao seu milharal, alguém sussurrar “se você construir, ele virá”. O que ele precisa construir fica logo evidente pelas visões que acompanham o sussurro e Kinsella segue então cegamente para derrubar parte de sua plantação para erigir parte de um campo de beisebol, com direito a holofotes e arquibancadas. Apesar de  ter o apoio de sua esposa Annie e de sua filhinha Karin, de cinco anos, Ray sabe que a construção ameaça sua renda e, por tabela, sua família, mas mesmo assim ele encara o desafio da voz desencarnada e fica à espera do que vai acontecer.

O autor, então, sofistica sua premissa e faz com que as vozes e visões de seu alter ego o levem a uma viagem pelos EUA, primeiro para tirar ninguém menos do que J.D. Salinger de sua famosa reclusão (e sim, o autor, quando descobriu esse atrevimento, ameaçou Kinsella com medidas judiciais – e é principalmente por isso que Salinger é substituído pelo fictício Terence Mann na adaptação audiovisual), mergulhando ainda mais na chamada construção dos mitos modernos dos EUA. Porque Shoeless Joe é exatamente isso, uma obra que usa personagens reais modernos como uma espécie de panteão de nomes que estão profundamente enraizados na infraestrutura mítica de um país relativamente jovem.

Se Shoeless Joe, o jogador, é encarado como o homem que serviu de bode expiatório em uma conspiração que ia muito, mas muito além dele (e, defendem alguns, que ele sequer estava envolvido), representando o cidadão comum que é soterrado debaixo da máquina da Justiça e do Estado, vítima muito mais do que algoz. Salinger, por sua vez, é a voz, mesmo a contragosto, de uma legião silenciosa em desconformidade com o status quo, que quer apenas viver a vida de maneira simples, sem interferência indevidas. O próprio Ray Kinsella encapsula o sonho americano, o homem que, por impulso, largou seu emprego e passou a viver da terra vasta do interior dos EUA e cujo desafio, estabelecido pela construção do campo de beisebol, está em lutar contra o esmagamento do pequeno debaixo dos calcanhares do chamado progresso. E, lógico, o beisebol é americaníssimo, por assim dizer, fazendo parte da essência moderna do país.

Mas, no final das contas, o que está sendo verdadeiramente indagado pelo autor ao longo de toda a jornada mágica de seu personagem é como fazer para encontrar a felicidade. Na verdade, minto. Kinsella não tem fantasias inocentes de que todo mundo encontrará a felicidade uma hora, já que ele não romantiza o sonho americano, muito ao contrário, mas só para quem souber ler nas entrelinhas ou entender que, quando ele fala no tamanho enorme da salada que Ray come, ele fala em desperdício. O que ele diz é que precisamos aprender a encontrar a felicidade onde ela está ou a reconhecer a felicidade em pequenas coisas. Pode parecer algo que seria possível encontrar escrito em para-choque de caminhão, mas é necessário desacelerar, parar com a sofreguidão da vida, e realmente olhar ao redor e curtir de verdade o que talvez esteja ao alcance de nossas mãos, seja o sorriso de um filho, um beijo soprado de um companheiro ou companheira, uma partida do esporte favorito, a leitura de um livro e assim por diante. São nas coisas mais simples que provavelmente fica escondida essa coisa estranha chamada felicidade e não, ela não é eterna, mas deve ser saboreada enquanto dura.

Shoeless Joe é um lindo convite à reflexão. Um pedido para que nos preocupemos menos com um caminho de vida baseado apenas em objetos materiais de consumo fácil e imediato – e isso é exponencialmente mais verdade hoje do que quando o livro foi publicado – que leva àquela felicidade efêmera como deve ser a experiência com drogas alucinógenas. Arriscando-me a outra possível frase de para-choque de caminhão, a vida é feita de pequenos momentos, às vezes tão pequenos que sequer percebemos a existência deles. O que Kinsella – W.P. ou Ray – quer é que desaceleremos justamente para que tenhamos a oportunidade de reconhecê-los.

Shoeless Joe (Campo dos Sonhos) (Canadá, 1982)
Autores: W.P. Kinsella
Editora: Houghton Mifflin
Data de lançamento: 1982
Páginas: 272

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