Crítica | Short Cuts – Cenas da Vida

plano critico short cuts cenas da vida

SPOILERS!

A tarefa de compreender o cinema – tal qual a de compreender qualquer outra arte – continua a se introduzir para mim como um permanente exercício de curiosidade. E que meu contato com Short Cuts – Cenas da Vida e com seu ilustríssimo realizador sirva de evidência a essa hipótese, porque não seria possível conhecer a trama inflada de personagens e situações pictóricas de Altman, sem antes impressionar-me com um resultado direto de sua influência como diretor, que são os primeiros filmes do, também inquestionavelmente americano, Paul Thomas Anderson.

As semelhanças entre Magnolia ou Boogie Nights e o filme em questão, se devem inescapavelmente a uma inspiração confessa de Paul na trajetória autoral de Altman. Minha relação com o diretor se encontra, por isso, inevitavelmente envolta na sua influência sobre a obra de outro artista, e talvez por essa questão, esse filme, que representa uma manifestação tão tardia e até um pouco isolada de seu realizador, tenha sido o meu primeiro contato com sua filmografia. Esse já era o vigésimo terceiro longa-metragem dirigido por ele e, juntamente com seu antecessor O Jogador, representa apenas uma fase de restabelecimento na sua carreira, no início dos anos noventa. Altman fez-se um diretor de relevância muito antes disso, tendo alcançado sucesso notório com o destacável M.A.S.H., ainda na década de setenta, revelando – não só nesse, mas como em todos os seus filmes – profundas influências do cinema francês, seja da estética de Lelouch, ou da mise-en-scène de Renoir.

Contudo, ainda é estritamente necessário abordar Short Cuts – Cenas da Vida ao tratar sobre Robert Altman, porque além de grande parte da teoria crítica escolher esse filme como sua obra-prima, a importância atribuída se reflete na permanente relevância das suas inovações de enredo no cinema contemporâneo – inovações em muito relacionadas ao fato desse filme ser uma livre adaptação dos contos de Raymond Carver: um escritor que, apesar de mais culturalmente celebrado por sua dramaturgia, era também poeta, tendo concebido, entre as áreas que escolheu atuar, um istmo estilístico de minimalismo e brevidade – assemelhando-se, assim, ergonomicamente aos recursos narrativos que Altman precisou elaborar para idealizar esse projeto cinematográfico.

O filme parte de uma intervenção do governo do Estado da Califórnia, a fim de conter uma epidemia de insetos vetores, ação de tal abrangência que acomete todas as personagens centrais, sendo elas invariavelmente moradoras de Los Angeles – a cidade onde a ação percorre.

Essa situação, que pode ser resumida de modo simplista numa frota de aviões, carregados com um inseticida sobrevoando e despejando a droga por toda a extensão da metrópole, já serve para colocar a mostra, ou originar, conflitos dramáticos circundantes à trama inteira. Além disso, o fato também funciona, de forma mais caprichosa, para dividir e separar as personagens elementares em grupos de semelhança e discórdia. Enquanto há quem especule que a substância utilizada pelas aeronaves é tóxica, e que portanto não é seguro permanecer à céu aberto enquanto ela é borrifada contra as casas, existem outros que encontram nessa suposição um absurdo, pois um governo minimamente sério jamais consideraria colocar em risco a saúde de seus cidadãos.

Tal espécie de discordância começa a se mostrar nesses tipos de conflitos diminutos, o que auxilia a apresentação de determinadas reações viciosas, comuns a certos personagens; colaborando para que, então, o roteiro consiga colocar organicamente essas personagens em situações mais extremadas. É o caso da cena onde Gene (Tim Robbins) e Sherri Shepard (Madeleine Stowe) entram em uma discussão sobre deixar ou não as janelas abertas durante o despejo do remédio, cena que requereu o subtexto abrilhantado pelos dois atores, mas em especial por Robbins, que possui uma carga dramática mais completa e sequenciada.

Daí em diante, o que acontece é uma sucessão de ocasiões e acontecimentos que possuem em comum o mérito de colocar duas virtudes em confronto, isto é, a indiferença contra a insatisfação. Em particular, esse embate ressaltou aos olhos de maneira mais proeminente num segmento que inicia na lagoa — onde um defunto afogado é encontrado por um grupo de caipiras que fora lá para pescar — e que prossegue na casa dos Kane, onde Stuart (Fred Ward) – um dos rapazes presentes na lagoa – conta a sua mulher Claire (Anne Archer) que ele e seus companheiros continuaram a pescar, mesmo com o corpo de uma mulher afogado a poucos metros da área onde fisgavam os peixes. A indignação de Claire, magistralmente registrada na sua interpretação, foi o bastante para me fazer despertar metonimicamente para as entrelinhas do roteiro.

Há de se dizer algo, também, sobre a ótica tragicômica, que permeia a narrativa dos pés a cabeça – mais sobressalentemente no segmento do garotinho, Casey Finnigan (Zane Cassidy), que é atropelado pela garçonete cinquentona Doreen Piggot (Lily Tomlin) – ótica tal acrescida de um tom iconoclasta, uma vez que, após Casey se levantar e mostrar que consegue caminhar “normalmente” pela calçada, ele se nega a aceitar qualquer ajuda de Doreen, fazendo de pretexto o jargão quase culturalmente universal “minha mãe me disse para não conversar com estranhos”. Ela, enxergando nisso a chance de sair impune de um processo judicial arrasador, entra no carro e dá o fora. A partir disso, uma série de descuidos resulta na morte do garoto, dias depois no hospital – momentos de uma dramaticidade pulsante pelo surgimento de alguns personagens e situações conflituosas que, pelo seu caráter inesperado e emergencial, põem em confronto determinados personagens com algumas perspectivas adotadas e praticadas anteriormente.

A abordagem da frigidez novamente torna-se notável, principalmente com o aparecimento do avô da criança, Paul (Jack Lemmon), que revela certos desentendimentos e descasos do passado, além de certo distanciamento preservado por seu filho, Howard (Bruce Davison), o pai do garoto – dando ainda mais ênfase sobre a observação de que a tragédia poderia ter sido evitada, bastava que a criança não houvesse seguido pragmaticamente os ensinamentos de indiferença dos pais.

O compassar do filme se dá dessa forma, com a trama castigando a indiferença e presenteando a insatisfação. E o maior exemplo dessa tese reside nas relações (extra) conjugais; especificamente e primeiramente na crise dos Wyman, um casal que, apesar de em princípio apresentados como bem resolvidos, vão dissolvendo, por pequenos caprichos, o invólucro das boas aparências e expondo os problemas e ensejos ignorados e não vociferados por Ralph (Matthew Modine) e/ou por Marian (Julianne Moore). Nesse cenário, se desenrola a cena com maior potência cênica do filme, sendo essa a que envolve uma discussão intensamente elucidativa entre os dois, exibindo a intocável capacidade de Moore e Modine em trabalhar com um cume de intensidade dramática, seguido de uma guinada repentina de calmaria e desfaçatez, uma vez que os Kane os interrompem com uma visita.

Um ponto curiosíssimo de construção é a utilização das profissões para descrever subtextualmente a psique de dois protagonistas: Bill Bush (Robert Downey Jr.) – sendo ele um inveterado maquiador de horror, produzindo, sem peias conscienciosas, faces horrivelmente deformadas e degeneradas – e Claire Kane, uma ocupadíssima animadora infantil, que vende a si própria como palhaça. Enquanto um deles demonstra sérios desvios de caráter em circunstâncias diversas, sendo traído severamente, no final, pelas forças da natureza e por seu amigo Duke, a outra ressona o seu incômodo com a indiferença e a sua obsessão com a calidez na interação com seu marido e a história do defunto. O que há de se dizer sobre o desfecho desses dois é que, enquanto Bill termina como testemunha de um crime, e irremediavelmente preso a uma situação que ele não gostaria de tornar pública, Claire descansa numa banheira de hidromassagem, aos brindes com Stuart.

Outro exemplo de castigo à supressão dos problemas pela indiferença está no desfecho de Duke Finnerly (Chris Penn), um homem comum, mas que durante muito tempo buscou ignorar um incômodo excruciante dentro de sua casa. Problema tal que se configura como uma das maiores sacadas do filme todo, se não a maior de todas: sua mulher Lois (Jennifer Jason Leigh), é uma garota na flor da juventude, com alguns filhos para criar, mas incapacitada, financeiramente, de fazer isso sem simultaneamente trabalhar com uma linha de “disque sexo”. As cenas mais memoráveis do longa-metragem envolvem esse pretexto, essencialmente por conta do seu teor inapropriado e antitético. Não é à toa que Altman abusa da inventividade de Jennifer Jason Leigh em criar uma diversidade de abordagens eróticas, preenchendo o filme, consciente do que poderiam significar excessos incômodos de várias cenas com a dureza e insensibilidade da personagem, perfeitamente transmitidas pela atriz.

Gosto de atribuir o dialogismo deste filme ao gênio de Altman, porque até mesmo a trilha sonora de um jazz suave, contínuo e inexorável acompanhando os acontecimentos mais escabrosos possíveis significa a estória em níveis extraordinários. É um apuro de tal esmero que se reverbera e distende-se num arco dramático próprio e incrivelmente sofisticado, que é o da mãe Tess (Annie Ross) e o da filha Zoe Trainer (Lori Singer). A profissão aqui também se transforma em outra camada de análise, uma vez que o jazz não é usado só narrativamente para depreender a frigidez teleológica do cosmos, mas também para servir de meio para que Zoe e Tess indiquem psicanaliticamente seus distúrbios, além do seu refugio na mais infante indiferença.

A grande pira de Short Cuts – Cenas da Vida parece ser um esconjuro à indiferença e à letargia, além de uma apoteose ao diálogo e à transparência. Pois mesmo que alguns dos desfechos sejam incompletos – como o de Doreen, que não chega a saber que cometeu um assassinato dos mais trágicos – Altman parece incentivar que os conflitos continuem a ser resolvidos, mas jamais menosprezados ou ignorados.

Short Cuts – Cenas da Vida (Short Cuts) — EUA, 1993
Direção: Robert Altman
Roteiro: Robert Altman e Frank Barhydt.
Elenco: Julianne Moore, Lily Tomlin, Jack Lemmon, Tim Robbins, Jennifer Jason Leigh, Robert Downey Jr, Matthew Modine,  Andie MacDowell, Madeleine Stowe, Anne Archer, Chris Penn, Tom Waits, Bruce Davison, Fred Ward, Lori Singer, Lili Taylor,  Peter Gallagher, Annie Ross, Huey Lewis, Lyle Lovett, Frances McDormand e Buck Henry.
Duração: 188 min.

PEDRO PINHO . . . Pedro é um apreciador parcialmente incentivado, porém nada financiado, de algumas coisas que ele mesmo considera importantes. Suas intenções não são tão claras, e ao que tudo indica ele fará de tudo para impedir que sejam, tem medo que se mostrem esplêndidas ou ridículas demais, ou na pior das hipóteses que não despertem qualquer reação. As coisas que fala ou escreve revelam tanto sobre ele quanto esse texto. Minha tarefa em decifra-lo continua frustrada.