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Crítica | Short Trips: Livro de Regras

Papeladas e papeladas!

por Luiz Santiago
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Sempre que Doctor Who resolve satirizar a burocracia, a coisa pode ir para dois lados: ou vira uma sátira afiada que incomoda de verdade, ou vira aquela piadinha chata que a gente já viu mil vezes. Livro de Regras, uma Pequena Viagem escrita por Tony Jones e lançada pela Big Finish em outubro de 2016, fica naquele meio-termo onde a gente reconhece o que a trama tem de bom, mas sente falta daquele pulo do gato narrativo, entendem? A história bota o 5º Doutor e Peri Brown (ainda se conhecendo, entre Planet of Fire e The Caves of Androzani) no planeta Beadledom 3, onde os Ellani vivem numa harmonia tão regulamentada que, quando os Valtor invadem com frotas ciborgues, o verdadeiro problema não são os alienígenas, mas o próprio Livro de Regras que paralisa qualquer tentativa de defesa. A premissa é ótima e a execução de Nicola Bryant na narração não é de se jogar fora, mas algo aconteceu: Jones decidiu fazer uma homenagem explícita a Robert Holmes, o roteirista que, entre 1968 e 1986, virou lenda justamente por transformar autoridades ridículas e sistemas opressivos em alvos de suas sátiras mais venenosas. Só que homenagem aqui virou algo bem “okayzinho e nada mais“.

Jones até consegue incorporar elementos recorrentes nos textos de Holmes. A burocrata Yorvell, com sua prancheta tendo mais poder que qualquer arma; as duplas cômicas representando diferentes níveis de estupidez institucional; o humor ácido extraído de regulamentações absurdas… está tudo lá, certinho, nos conformes. O problema é que está “certinho demais“. A derrota dos Valtor acontece quando o Doutor simplesmente ativa o modo de manutenção da frota invasora. Pronto. Resolvido. E a grande sacada crítica é que os Ellani ficam mais ofendidos com o desperdício de 2,7 bilhões de créditos do que com a invasão propriamente dita. É uma crítica válida sobre prioridades distorcidas, mas falta o veneno, aquela acidez que Holmes colocava quando satirizava o sistema tributário britânico em The Sun Makers porque estava genuinamente puto com a burocracia fiscal. Aqui parece oficina de roteiro: “vamos escrever no estilo de Holmes!“. E olha, o exercício está bom, mas continua sendo exercício. O formato curto de 38 minutos ajuda no ritmo, mas não deixa espaço para Beadledom 3 virar um lugar de verdade. Fica só um cenário genérico onde acontece a piada sobre papelada.

Para quem conhece bem Doctor Who e os arcos escritos por Holmes, Livro de Regras trará um pouquinho a mais de diversão, mas advirto que nada ficará na memória após a narração terminar. É aquele tipo de enredo que ouvimos, achamos bacana, mas não voltamos para reouvir e nem recomendamos como essencial. Jones claramente estudou Holmes a fundo e entendeu o que tornava aquele roteirista um gênio da sátira, mas entender não é a mesma coisa que sentir, certo? Holmes escrevia com raiva autêntica porque foi policial, foi jornalista, viu sistemas idiotas funcionando de perto e transformou essa indignação em roteiros que atacavam com vontade. Jones faz uma réplica bem-comportada dessa indignação, tecnicamente correta, mas sem o tal “pulo do gato” que citei anteriormente. É competente, mas falta alma. E depois, também tem a minha birra pessoal com o 5º Doutor, então vocês já sabem…

Short Trips – 6X10: Livro de Regras (Rulebook) — Reino Unido, 29 de setembro de 2016
Direção: Lisa Bowerman
Roteiro: Tony Jones
Elenco: Nicola Bryant
Duração: 38 minutos

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