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Crítica | Showgirls (1995)

por Leonardo Campos
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Showgirls

Para compreender Showgirls além do que a própria narrativa nos oferta enquanto material a ser contemplado e refletido, acredito ser importante observar o seu contexto. Toda obra de arte é parte de um momento histórico que será refletido nas discussões associados aos seus elementos estéticos e com o cinema isso acontece com muito mais força, haja vista a sua possibilidade de expor ânsias, costumes, medos e outros tópicos contextuais por meio do audiovisual, uma linguagem “mais completa” se comparada aos traços característicos de artes predecessoras. Além disso, a reflexão em torno do filme dirigido por Paul Verhoeven, baseado no roteiro escrito por Joe Eszterhas, quando realizada hoje, precisa levar em consideração algo que o filósofo italiano Giorgio Agamben versa sobre a nossa relação com o contemporâneo. No livro O Que é o Contemporâneo e Outros Ensaios, o pensador reflete, dentre tantas outras coisas, a importância de nos distanciarmos de determinados fenômenos quando somos contemporâneos aos mesmos, tendo em vista manter o olhar um pouco distanciado de paixões, ideologias, etc. O autor aponta que precisamos nos descolar da “situação” e contempla-la de longe, criticamente.

A “situação”, aqui, é o filme Showgirls, um clássico moderno elevado ao status de produção maldita, tal como descrito pelo personagem Randy, em Pânico 2, absolutamente assustador. Salvaguardadas as devidas proporções, a narrativa cheia de momentos eróticos e intensos é a versão contrária de filmes como Titanic no quesito lançamento e relacionamento com a mídia. Enquanto o drama sobre o desastre com o transatlântico acumulou dezenas de prêmios e ganhou a simpatia do público e da crítica, a trajetória dos personagens sem escrúpulos da trama comandada por Verhoeven foi indicado e ganhou uma quantidade enorme de prêmios negativos da época, além de crítica que o afundaram vertiginosamente. Olhado hoje, tanto quem vos escreve como alguns integrantes do nosso campo da reflexão sobre o cinema, dentre eles, o diretor Kleber Mendonça Filho, acham que Showgirls é uma espécie de “obra-prima” incompreendida e injustamente naufragada em sua época de veiculação.

Em 2017, o mencionado realizador de Bacurau e O Som ao Redor dedicou-se ao projeto de revisar a obra de Paul Verhoeven, coordenada junto ao Instituto Moreira Salles. Ao ler sobre isso, percebi que a linha de pensamento do cineasta era muito parecida com as minhas anotações sobre o quão precisamos dar tempo ao cinema e as demais artes para redescobrirmos e avaliarmos o legado e o impacto cultural de determinadas produções. Com desenvolvimento cáustico e perspectiva desagradável, sem as redenções comuns aos muitos filmes hollywoodianos abraçados pela crítica e pelo público, Showgirls teve o mesmo retorno que Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock, em sua época de lançamento, isto é, amargou o fracasso pelo desempenho nas bilheterias e na recepção branda dos críticos em uma ocasião que a opinião de determinados agentes deste campo discursivo era capaz de elevar ou enterrar um filme por bastante tempo. Foi assim com Verhoeven e seu elenco em 1995.

Ao longo de seus 128 minutos, acompanhamos uma narrativa que possui ecos do arco dramático central do clássico A Malvada. Mulheres ambíguas, busca incessante por poder e manipulação de status estão entre os tópicos temáticos desta história que se passa no espetáculo Cabaré Godness, um local de encenação com figuras caricaturais que fazem de tudo para obter fama. A obtenção deste status leva ao poder e consequentemente o dinheiro e o acesso aos locais de conforto desejados por qualquer pessoa que vive a dinâmica capitalista em seu cotidiano. O espaço cênico é Las Vegas, uma cidade de muito brilho e efusão, mas considerada oca e socialmente opaca, com figuras apodrecidas e esvaziadas de sentidos diante de suas existências. Aqui, Nomi Malone (Elizabeth Berkley) é uma mulher ambiciosa que se muda para a cidade com planos de trabalhar como dançarina em uma boate. Certo dia, ela se tem a oportunidade de ser substituta da grande estrela do show, Cristal Connors (Gina Gershon). Numa situação única, Malone precisa abraçar o caos que se estabelece com a ira da musa principal do espetáculo, ameaçada pelo talento e dedicação da novata que está disposta a qualquer coisa para garantir uma fatia da torta do sucesso e da felicidade na cidade repleta de sonhadores.

Para manter-se assegurada, Malone não apenas se esforça nos palcos, mas dorme com o seu chefe, o produtor Zack Carey (Kyle Machachlon), dentre outras ações que deflagram o seu incessante interesse por um espaço para brilhar em Las Vegas e viver longe do fantasma da prostituição marginal, aquela praticada nas ruas e por preços nada favoráveis ao tamanho trabalho que é satisfazer todo tipo de cliente sexualmente, um caminho a ser trilhada para quem não quer ser garçonete, balconista ou qualquer outra função profissional que pague pouco, cobre muito e não tenha nem um pouco de luxúria para ofertar. Numa saga em busca de dinheiro e a obstinada procura pela fama, a protagonista de Showgirls endurece e sente na pele as agruras de uma sociedade comandada por pessoas egocêntricas vis. A sua caminhada ocorre por meio de uma trilha repleta de cenas polêmicas e propositalmente exageradas. Numa determinada passagem, um produtor pede que a protagonista passe gelo em seus seios e assim, parecer excitada diante de seu público. Noutro momento, alguém fica menstruada e a situação é observada pelo viés do conflito, numa cena que, digamos, não é cinematográfica em si, mas algo indesejável aos olhos de quem está atrás de diletantismo e estética favorável ao olhar já surpreendido pelo grotesco nos acontecimentos diários. Nesta narrativa repleta de camadas que precisa ser atravessadas para a efetiva compreensão, Paul Verhoeven debate os histrionismos do espetáculo, alegoria para as ambições da nossa cultura midiática que fabrica padrões comportamentais e vende modos de vida que custam caro demais para os seus interessados.

Em seu desenvolvimento, a narrativa escancara a subversão e no painel de excessos, encontrou na mixagem entre sexo, violência e personagens ambíguos, a desaprovação de uma sociedade aparentemente despreparada para contemplar tanto escândalo em apenas uma narrativa cinematográfica. No pontual e eficiente traçado no encaminhamento dos personagens, Verhoeven toma o roteiro de Eszterhas e faz uma crítica contundente ao american way of life e seu discurso perturbador de beleza, valentia e prosperidade acima de todas as coisas, mesmo que tais possibilidades não possam ser alcançadas para todos aqueles que as almejam. E essa sua análise social é empreendida pelas imagens concebidas por Jost Vacano na direção de fotografia, setor que capta os bastidores, as personagens e as passagens externas com uma movimentação que parece voyeur, voltada para a contemplação dos acontecimentos por todos os ângulos possíveis. Acompanhadas pela trilha sonora de David A. Stewart, temos momentos embalados pela perspectiva pop e noutros trechos, a textura percussiva faz valer os acordes intensificados por ritmos que sobem da mesma maneira que os corações dos personagens palpitam.

Da mesma maneira que Instinto Selvagem fez em 1992, o filme aqui analisado aborda o corpo feminino por um viés sensual e perigoso, entretanto, sem o aspecto aurático que tínhamos na concepção da ambivalente Catherine Tramell de Sharon Stone. Em sua superfície, Showgirls pode até parecer vulgar e com situações aleatórias por parte dos personagens dentro dos jogos sujos de poder que o filme empreende, mas há elementos que vão além disso. Verhoeven e sua equipe emulam características da cultura do espetáculo para tecer a análise sombria da mídia e dos bastidores deste meio considerado cáustico e violentamente competitivo, arena onde as pessoas são até capazes de matar para conseguirem um lugar privilegiado. As mulheres e seus corpos turbinados por cirurgias plásticas cada vez mais invasivas, comportamentos antiéticos aos extremos para manutenção de status de glória numa existência cheia de artificialidades, pessoas subjugadas e submetidas ao posto específico de objetos sexuais para o prazer momentâneo alheio, sem outras garantias emocionais, bem como o culto ao que é ilícito, isto é, as drogas, a prostituição, o sexo com contorcionismos, tópicos dispostos por aqui numa perspectiva negativa.

Assim é Showgirls. O design de produção de Allan Cameron capricha na representação visual deste mundo amoral, habitado por pessoas vulgares, sem caráter, adoradoras do que é kitsch, sujo, visualmente burlesco, quase poluído, figuras que se relacionam em diálogos baixos, posturas de mau-caratismo, funcionais dentro dos camarins erguidos e adornados por Richard C. Gaddard e William F. O Brien, cenógrafo e diretor de arte, respectivamente. O que torna essas ambientações ainda mais excessivas é a concepção dos figurinos de Ellen Mirojnick, setor repleto de trajes igualmente exagerados, numa profusão de cores e estilos que saem do campo exclusivamente estético para refletir sobre a própria condição social e psicológica de seus personagens. É a estética do desagradável proposital, colocado em cena para dar um tapa na cara dos indivíduos hipócritas de nossa sociedade, tessitura costurada por seres humanos que se relacionam de maneira tão fugaz e obtusa, criaturas capazes de neutralizarem situações aparentemente catalisadoras de revolta, debate, intervenção, dentre outras posturas adequadamente cidadãs.

Em seu desfecho, Showgirls nos deixa claro que a história continua. Alguns personagens evoluíram em suas jornadas, outros regrediram ou estagnaram, a nossa protagonista muda de cidade e nos deixa entender que continuará a sua jornada em busca de um lugar merecido e que comporte as suas ambições. Parte de uma cultura onde as pessoas querem gozar o tempo inteiro, não apenas no sentido sexual do termo, mas também em outras perspectivas, a personagem de Elizabeth Berkley se contorce além de seu desempenho na cama, mas também na pavimentação de seu caminho pela vida, numa existência em busca de sobrevivência com o mínimo de dignidade, circundante num mundo talhado por situações complexas e cheias de atrocidades físicas e psicológicas, onde o trauma é suspenso para ser sofrido em ocasiões posteriores, quando o corpo e a mente já não disponibilizarem de combustível suficiente para continuar a manter a luta cotidiana e as toalhas, jogadas após o fechamento das cortinas, indicarem que não há mais tempo nem condição para ser peça do jogo sujo vivido pelos tipos que habitam este universo de pessoas lindas, mas sujas e malvadas.

Showgirls (Idem | EUA, 1995)
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: Joe Eszterhas
Elenco: Elizabeth Berkley, Kyle MacLachlan, Gina Gershon, Glenn Plummer, Robert Davi, Alan Rachins, Gina Ravera, Lin Tucci, Al Ruscio, Patrick Bristow, William Shockley
Duração: 128 min

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