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Crítica | Shrek 2

por Davi Lima
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shrek 2

Eu quero o que qualquer princesa quer: viver feliz para sempre… com o ogro, com quem casei

A paródia tem um apreço por liberdade, em que a intertextualidade fragiliza qualquer entrave para se contar a história que se queira. Shrek 2 não apenas compreende o trunfo dos contos de fadas como uma brincadeira satírica, conquistando o público pela criatividade em usar as peças para a ação e comédia, como encorpa-os num avanço discursivo de transgressão do local de fala das narrativas clássicas. Invés de usar a sátira como desconstrução dos contos de fadas, apenas, apresenta-se por meio dela um espaço de liberdade, para aproximar a fantasia com o espectador no tempo mais moderno, e uma localização de abrangência, que permite ascender a ideia dramática de que qualquer um pode ter seu conto de fada legítimo, mesmo que fora do seu pântano/casa.

Diferente do que aparenta, Shrek 2 não é iconoclasta, diga-se, destruidor de ícones. O fruto da paródia, o auge da memória dos espectadores em relação a criatividade do filme e a comédia bem ensaiada nos videoclipes musicais, é a ponta do iceberg, que tanto subestima o discurso por trás da linguagem de usar os contos de fadas, como superestima cenas quanto a construção geral da narrativa em blocos de atos transitados com engessamento. Se fosse iconoclasta o beijo de amor verdadeiro não seria um conflito, e a fada madrinha tão poderosa. A força da intertextualidade da paródia satírica não transforma os ícones, mas apresenta um território que os dois fatores citados se tornem, respectivamente, decidido por Fiona e a personagem a grande vilã. Dessa forma, a subestima do discurso e superestima de cenas isoladas acontecem porque no campo satírico do filme alimenta-se explicitamente muito mais da comédia, no abraço das referências verossimilhantes do reino Far Far Way com Hollywood, do que do drama envolto da desconstrução dos fatos das narrativas fantásticas que, em potência, é o que permite a criatividade irônica e humorística dentro da paródia.

A história de Shrek 2 é bem direta nesse caráter de paródia quando se evidencia primeiro o personagem Príncipe Encantado para introduzir o filme, já apresentando comédia na sua nomeação ser um nome próprio e não um papel dos contos de fadas para salvar a princesa atribuído a algum homem com nome próprio, e sua pose de balançar os cabelos em câmera lenta para pôr nos livros de histórias. Diferente do primeiro Shrek, que conta o livro de uma maldição de uma princesa em ogro para debochar a partir do leitor Shrek, Shrek 2 parte da visão do mundo extra Shrek, dos “posistas“, dos monarcas, das fadas madrinhas e qualquer realidade que determina a fantasia como base no artifício, não na concretude de algo encantador e belo de fato. A relação desse mundo com Hollywood é uma crítica e ao mesmo tempo um campo seguro para a sátira, em vista que a noção do falso dentro do local hollywoodiano vira graça entre os californianos, sem medida ofensiva ou efetiva para mudança de caráter, algo mais puxado para a paródia “inocente”. 

Desse jeito, o que se conta na história do filme, sobre o tão tão distante reino em que os sogros de Shrek afastam o protagonista do pântano, o seu castelo que iria passar a lua de mel com Fiona como de costume em um matrimônio comum, determina a comédia de erros hollywoodiana à la Entrando numa Fria do genro ogro oprimido em uma mesa real de etiqueta francesa, passando por segundo ato com modos de filme de assalto e um final de gala estilo Oscar, ansiando por um herói que invada um castelo com um biscoitão apenas para ter a dança com sua esposa, dizendo: afaste-se da minha esposa. O drama é implícito no ogro fora de seu espaço, em que ele é coagido pela estética artificial da beleza física, como é costume num universo de atores que interpretam contos de fadas no realismo de Far Far Away, e a comédia surge do mesmo ponto, em referências criativas a essa associação dos filmes produzidos por Hollywood, surgindo um engessamento narrativo apenas nas viradas dos atos em que a referência primordialmente satírica e cômica precisa relatar o drama implícito para prosseguir na história de desconstrução do conto de fadas exclusivos de alguns.

Quando se usa a paródia com Hollywood entranhada com a mitologia dos contos de fadas é o aporte temporal, a conexão com o público tanto nas piadas que podem incluir criaturas fantásticas quanto naquelas que se referem ao mundo real de quem assiste. A Dreamworks exercita em suas animações a verossimilhança não apenas em suas temáticas mas também no material físico da animação, desde da computação gráfica que preserva a humanidade dos personagens de proporções variadas, quanto na composição espacial do universo do filme. Assim, a desconstrução dos contos de fadas começa já na imersão do público, quando nesse segundo Shrek abraça-se a paródia satírica, a intertextualidade como unidade para o espectador se emocionar. Por causa dessa imersão é que o filme provoca por detrás disso um local de fala próprio sobre os contos de fadas, mesmo que a desconstrução se baseie na comparação básica do que se conhece de senso comum dos contos fantásticos de Grimm. Até mesmo a fada madrinha se refere aos Grimm como deuses desse mundo, mas na verdade são os diretores usam a paródia como liberdade e assertividade com quem assiste o filme, para tanto incluir o presente do senso comum, como a TV e as referências a transmissão do Oscar – tapete vermelho para a festa de casamento de Shrek e Fiona – e canais policiais estadunidenses – quando Shrek, Burro e Gato de Botas são presos – que o Espelho Mágico transmite para Pinóquio, Três Porquinhos e companhia no pântano; como também um novo espaço, livre para trazer um novo discurso sobre e com os contos de fadas.

Se o primeiro Shrek não anulava os contos de fadas com seu deboche, e dava um “feios para sempre” como alternativa legítima, esse segundo aumenta o escopo, nesse espaço já descrito em referências espaciais e temporais, e contra argumenta os livros de contos de fadas argumentados pela Fada Madrinha que não tem a presença de ogros. A ideia central e temática do discurso do filme é que os contos de fadas podem ser diferentes, não há limites, necessariamente, para a fórmula, clichê, ou qualquer outro nome dito narrativamente para um “felizes para sempre”. O cerne dos contos de fadas é a transformação pela verdade mediada pelo romance medieval. Com Shrek casado com Fiona só faltava a legitimidade além, como se o segundo filme enfatizasse em toda a sua paródia o cerco certeiro para fugir de alternativas e emplacar uma verdade contemporânea de moldagem do que se diz contos de fadas. Por isso a dimensão espacial de Los Angeles, Califórnia e toda a amostragem hollywoodiana com toda as relações temporais a filmes da década de 90 – Missão: Impossível – ou década de 30 – Frankenstein – entre várias outras, que constroem um tempo próprio para o filme, indicam não apenas uma carta branca de criatividade, como também de impacto de verossimilhança e engajamento com a realidade realista de cada espectador pelo ar fantástico realista de Shrek 2.

Afinal, de onde vem os contos de fadas? O que essa produção da Dreamworks implicitamente no drama de Shrek querer ser humano pergunta é exatamente isso. Em meio a paródia, o Gato de Botas que sai da barriga do Shrek como um xenomorfo do Alien, e a ação do gato de reconquistar a honra com Shrek é se expor como um gatinho fofinho de um meme. Ou seja, só nessa relação desenvolvida entre os dois personagens a mistura cria algo novo, um novo conto de fadas do século XXI. Americano? Sim, mas também como linguagem adaptativa para outros centros mundiais. Porque, na verdade, quando Fiona escolhe a hora específica de beijar, é a linguagem que qualquer um consegue entender, seja no pântano, no reino Far Far Away, ou seja lá o que se chame de local legítimo para o seu conto de fadas. Não vira bagunça relativista do fantástico, só se interpreta melhor, faz-se a paráfrase, a intertextualidade dramática, de qual régua tem se usado por tanto tempo.

Shrek 2 (Shrek 2) – EUA, 2004
Direção: Andrew Adamson, Kelly Asbury, Conrad Vernon
Roteiro: Andrew Adamson, Joe Stillman, J. David Stem, David N. Weiss
Elenco: Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz, Julie Andrews, Antonio Banderas, John Cleese, Rupert Everett, Jennifer Saunders, Aron Warner, Kelly Asbury, Cody Cameron, Conrad Vernon, Christopher Knights, David P. Smith, Mark Moseley, Kelly Cooney, Wendy Bilanski, Larry King, Guillaume Aretos, Chris Miller, Latifa Ouaou, Alina Phelan, Erika Thomas, Joan Rivers, Andrew Adamson
Duração: 93 minutos

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