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Crítica | Shrek Para Sempre

por Davi Lima
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sempre

Shrek : Eu achava tinha resgatado você da Torre do Dragão. sempre
Princesa Fiona : E resgatou.
Shrek : Não. Foi você quem me resgatou.

Uma nostalgia inefetiva no quarto filme do ogro do pântano para mostrar que o final feliz não é um momento de finalização de ato, e sim um processo ininterrupto de variações. Depois de um Shrek que mostrava o conto de fadas dos ogros, dos feios, um deboche hollywoodiano, um Shrek 2 que parafraseia o cinema hollywoodiano para abranger o alcance dos contos de fadas no quesito narrativa, e um Shrek Terceiro pastelão que evoca a quebra de maniqueísmo como nova fase politicamente correta do meio californiano, Shrek Para Sempre engrena de vez nas pautas sociais contemporâneas num misto de ressignificação do passado, enquanto viaja-se por um mundo paralelo que rivaliza os tempos do discurso debochado.

Ao longo da franquia Shrek e sua análise interna do percurso hollywoodiano na história do século XXI, já que todos os filmes de Shrek refletem tempos da grande indústria cinematográfica da Califórnia, a perda de qualidade, ou a exaltação dos filmes do ogro protagonista na mitologia dos contos de fadas da Dreamworks realista e humanista, bebeu muito da fonte imediata de suas estreias, na medida que o deboche, a paródia e a teatralidade burlesca gritavam uma referência popular que era cumulativamente desconstruída nos filmes para o próprio final feliz representativo. No entanto, Shrek Para Sempre parece se adiantar 5 anos, ou prever uma tendência hollywoodiana que o discurso debochado não combina mais com as sensibilidades políticas e causas sociais que a indústria comprou para vender ao seu público. O quarto filme de Shrek não depende de um apelo nostálgico de bolhas narrativas sobre a história de Shrek, nem ousa tornar a revolução social dos ogros o centro temático. Shrek Para Sempre media-se no mesmo cerne de deboche, expansão e ausência de maniqueísmo, mas dando voz ao problema de Shrek ser um herói conservador, quando sua origem ogra ansiava por quebrar essa estrutura, e dá um cenário novo para que Shrek se mostre mais progressista no reinterpretar narrativo do ogro ter seu conto de fadas porque uma personagem de dois mundos o salvou.

Desde Shrek a personagem Fiona mostrava-se a mudança dos contos de fadas, quando o herói não precisava ser aceito pela princesa, e sim o contrário. Ela é a personagem de dois mundos: “à noite de um jeito, de dia de outro”. Nesse sentido, a problemática de Shrek Terceiro pouco desenvolvida, mesmo sendo a premissa inicial, sobre como Shrek não pode ser rei ou ser bonzinho pela representação de subversão original do personagem para manter a coerência; abre o quarto filme sobre como, de maneira mais evidente, Shrek sente falta de sua vida como ogro odiado em relação a sua vida repetitiva de pai e esposo nos padrões mais conservadores de família. A narrativa do debochado e irreverente se tornando passivo e herói imaculado, em suma, reflete uma conclusão de desconstrução do conto de fadas diferente que Shrek vendeu, já que a emulação conservadora, apenas, não se relaciona com a demanda representativa e progressista que o campo cultural em 2010 avançava na Califórnia. Em compensação, se Shrek inicia-se num impasse necessário para discutir questões postas em Shrek Terceiro, também não há muito o que contar dentro do mundo mitológico já estabelecido, só descobrir que a melhor pessoa para entender o que Shrek estava passando era a própria Fiona.

Assim, a compreensão final de que Fiona salvou Shrek na torre do dragão, já que ele se apaixonou e por ela e ele assumiu a vida de pai e esposo que um ogro nunca quis, só é possível com a questão dramática “mais óbvia”: quando se perde é que se entende o valor que se tinha. Shrek Para Sempre não esconde isso, em que a passagem pelos locais da história de Shrek, ou até mesmo o que se chama pós cinema 2015 como tocada nostálgica, serve a desilusão mitológica de Shrek, não como uma saudade de Shrek, e sim como um momento associativo isolado de memória. As referências de Burro pisar na ponte do castelo e olhar para baixo no primeiro filme, ou como Shrek faz um balão de sapo para encantar Fiona, semelhante ao videoclipe romântico do date dos dois na floresta no longa inicial, nunca funcionam para acalentar o coração dos espectadores como Jurassic World e Star Wars: O Despertar da Força fizeram em 2015. Entretanto, ao mesmo tempo, com o mundo paralelo criado por Rumpelstiltskin a partir do contrato que anula o nascimento de Shrek, a tendência da história é fazer uma sequência de Shrek lembrando da torre do castelo, do paninho que a Fiona dá-o para limpar a cara em Shrek, além de contar mais uma lacuna do conto de fadas moderno chamado Shrek.

Porque algo que a franquia Shrek também formou é sua originalidade, um livro de contos próprio que mistura referências temporais medievais com dimensionamentos contemporâneos. Shrek Para Sempre expande a história dos ogros como a resistência meio jacobina contra o absolutismo “fascista” de Rumpelstiltskin, e torna as bruxas, mulheres, como o exército monárquico, enquanto a dança vira arma de controle. São essas peças que coloca o filme como atendente ao crescimento de hegemonia progressista no mercado dentro da linguagem debochada de praxe da franquia, e ao mesmo tempo consertar a possível incoerência de um ogro seguir o mainstream conservador não se associar tão bem ao deboche que fundou Shrek. 

Daí a importância do desse quarto longa-metragem. Mesmo que pareça ser uma insistência numa sequência desnecessária ao mudar paradigmas com ressignificações que alteram discursos do primeiro filme, além de reciclar estéticas da franquia para músicas pops, com cenas de fuga com uma mixagem agitada até fazer Burro cantar mais diegeticamente (sem grande adereço clipesco, apenas a voz de Eddie Murphy) para as bruxas; o quarto filme do ogro verde, que expandiu as possibilidades do clássico ser representativo, fecha uma narrativa na crença de que mesmo os feios comprando o antigo bonito que os renegaram isso é uma evidência de que os feios nunca deixaram de ser bonitos, por conhecerem o belo muito além da maldição social binária do feio e bonito para se ter um Feliz Para Sempre. 

Por isso, quando o livro Shrek Para Sempre é lido por Rumpelstiltskin no começo da metragem, com título homônimo do filme, e quando Shrek termina o longa lendo o seu livro chamado apenas de Shrek, com a família estampada na ilustração, mostra-se o coletivo de pai, mãe e filhos, o processo mágico de ordinários que são constantemente descobertos em beleza. Dessa forma, Shrek tem o urro como sinônimo de alegria e entende que ele foi salvo de viver para sempre sozinho.

Shrek Para Sempre (Shrek Forever After) – EUA, 2010
Direção: Mike Mitchell.
Roteiro: Josh Klausner, Darren Lemke.
Elenco: Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz, Antonio Banderas, Julie Andrews, Jon Hamm, John Cleese, Walt Dohrn, Jane Lynch, Craig Robinson, Lake Bell, Kathy Griffin, Mary Kay Place, Kristen Schaal, Meredith Viera, Ryan Seacrest, Chris Miller, Mike Mitchell, Conrad Vernon.
Duração: 93 minutos

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