Home FilmesCríticas Crítica | Sibéria (2020)

Crítica | Sibéria (2020)

por Luiz Santiago
859 views (a partir de agosto de 2020)

Sibéria é um filme sobre as muitas visões da solidão. Sobre o que o isolamento pode causar a uma pessoa, considerando aí os mais variados tipos de afetação psicológica, emocional ou fantasiosas possíveis. Para mim, é um filme que ganhou um significado ainda maior em tempos de pandemia e distanciamento social, embora não haja nenhum fator próprio dessa questão influenciando Abel Ferrara na direção, uma vez que a obra foi concluída em 2019. O público, todavia, tem essa nova condição social a considerar, quando se depara com as consequências do isolamento, da solidão, da criação de algo na mente de uma pessoa perturbada por não estar em contato com outras pessoas.

É bastante curioso que o próprio roteiro do filme, escrito por Ferrara e Christ Zois, venha ao encontro dessa visão sobre “estar sozinho“. A narração que ouvimos de Willem Dafoe, no início da fita, fala de um momento do passado, quando ele ia pescar com o pai. Um momento compartilhado, uma memória que em algum ponto desse isolamento visitaria Clint, o protagonista que acompanhamos, e o faz perceber os medos e os ganhos daquele momento da infância em oposição à febril e perturbadora atividade de sua mente solitária.

A forma com que Ferrara demonstra essa situação, no entanto, não torna o filme um poço de lamentos ou um mergulho verdadeiramente dramático nas causas do isolamento. Clint está em uma casa nas montanhas e aparentemente o que ele busca ali é paz. As poucas pessoas que passam pela região não lhe perturbam, muito pelo contrário. Mas o que o filme demonstra para nós (e a palavra demostrar aqui merece toda a atenção possível) é que esse afastamento do meio cosmopolita não trouxe paz nenhuma para esse homem. A cada dia ele parece mais e mais confuso e afetado por pedaços de memórias e sonhos que o retiram de sua vastidão coberta de neve para cenários onde ele confronta uma porção de medos e possíveis soluções para os males que acredita ter.

Cada bloco traz uma configuração cênica marcante (neve, rocha, areia, floresta, todas muitíssimo bem fotografadas) e em cada viagem, o protagonista parece projetar um possível salvador para seus problemas, algo que nem sempre dá certo, pois a relação com o pai o atormenta e o faz saltar de um lugar para outro após rejeitar ou dar como perdida a compreensão, o diálogo e a relação com o velho. É como se o personagem vivesse aqui encarnações distintas, colocando-se em cada uma para viver determinadas experiências e talvez expiar falhas, tentando evoluir. Através da imagem e de um ritmo que não trata o público como incapaz de acompanhar uma febril trajetória onírica, o diretor nos faz viver experiências que não obedecem ao tempo linear, terminando justamente no ponto onde só é possível supor o que a vida ainda reservava para o personagem: o frio e solitário presente.

Sibéria (Siberia) — Itália, Alemanha, Grécia, México, 2020
Direção: Abel Ferrara
Roteiro: Abel Ferrara, Christ Zois
Elenco: Willem Dafoe, Dounia Sichov, Simon McBurney, Cristina Chiriac, Daniel Giménez Cacho, Fabio Pagano, Anna Ferrara, Phil Neilson, Laurent Arnatsiaq, Valentina Rozumenko, Trish Osmond, Stella Pecollo
Duração: 92 min.

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