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Crítica | Sicario: Terra de Ninguém

por Fernando Campos
1212 views (a partir de agosto de 2020)

Toda guerra é composta por pessoas. Cada tiro disparado afeta uma vida, gerando uma cadeia de consequências irreparáveis. Em 1971, o presidente estadunidense Richard Nixon iniciou a Guerra contra as drogas, declarando, em uma convenção da ONU, ser o “inimigo público número um”. Já na década de 80, o presidente Ronald Reagan tomou medidas mais combativas, investindo cerca de US$ 1,7 bilhão no combate às drogas. De lá para cá, milhares de vidas foram perdidas, famílias destruídas, de ambos os lados, e o poder dos traficantes permaneceu exatamente o mesmo. Essa guerra continua até hoje e não há previsão para acabar, pelo menos, enquanto os governos continuarem tratando a droga como um problema policial e não de saúde pública.

Em Sicario: Terra de Ninguém, o diretor Denis Villeneuve, através do roteiro escrito por Taylor Sheridan, utiliza esse ambiente de guerra às drogas e explora justamente aquilo que a mídia e os próprios governos preferem ignorar, as vidas em meio ao caos, aproveitando sua obra para tecer críticas ao grande responsável por essa guerra: o sistema.

O filme apresenta Kate Macer (Emily Blunt), uma agente idealista do FBI que está inscrita em uma força-tarefa de elite do governo para ajudar na crescente guerra contra as drogas, focalizada na região da fronteira com o México. Essa equipe é liderada por Matt Graver (Josh Brolin), um agente enigmático com um passado questionável. Além disso, para traçar estratégias contra um poderoso cartel mexicano, Matt pede auxílio para outro homem com história dúbia, seu consultor Alejandro (Benício del Toro). Assim, a força-tarefa sai em uma jornada clandestina, forçando Kate a questionar tudo o que ela acredita a fim de sobreviver.

De maneira inteligente, o roteiro coloca-nos em uma situação tão desconcertante quanto a da protagonista, uma vez que, assim como ela, não sabemos os objetivos da força-tarefa liderada por Matt e tampouco os limites de seus métodos. Esse elemento torna-se um prato cheio para o diretor Denis Villeneuve, utilizando o suspense para fazer o espectador questionar-se o tempo todo. Inclusive, os ambientes repletos de poeira dão a sensação de uma tensão latente.

No primeiro ato, em uma brilhante sequência filmada dentro de um carro, Sicario apresenta o brutal impacto da guerra às drogas em Juárez, uma pequena cidade mexicana, com direito a corpos decepados expostos a luz do dia, destacando como a vida real das pessoas é influenciada. Ademais, é brilhante a ideia do roteiro de mostrar, durante poucos minutos, a rotina de um policial mexicano, ressaltando justamente o que foi dito no início, uma guerra é composta por vidas reais e, no fim, ninguém sai ileso.

Quando vemos as condições de Juárez em meio ao tráfico, Villeneuve nos faz refletir como Kate: vale a pena ultrapassar barreiras legais para tentar acabar com tamanho terror? Felizmente, o roteirista Taylor Sheridan escapa do completo ufanismo que a obra poderia ter ao colocar os Estados Unidos no papel de polícia do planeta. Pelo contrário, Sicario escancara como o objetivo dos estadunidenses nunca foi erradicar a droga, afinal de contas, essa já é uma batalha perdida; o real objetivo dos americanos é ter o controle sobre o tráfico de drogas. Se é necessária a existência de um narcotraficante, que ele seja colaborador dos Estados Unidos e mate apenas pessoas do outro lado da fronteira, deixando os americanos em paz.

Aliás, no primoroso clímax da obra, o roteiro traz um traficante mexicano dizendo: “Você acha que as pessoas que o enviaram aqui, são diferentes? De quem acha que aprendemos?”. Portanto, Sicario bate em cheio no real responsável pelo caos gerado com a guerra contra as drogas, o já citado sistema.

Além disso, quando se trata dos personagens, o roteiro acerta ao desenvolver ótimos arcos para Kate e Alejandro, ao passo que Matt permanece com seu ar misterioso e debochado até o final da obra, quase como uma representação do sistema que defende. Kate inicia o longa como uma agente convicta e pronta para acatar ordens de seus superiores, porém, ela se desgasta a cada informação nova que recebe sobre a operação, como o desrespeito a jurisdições internacionais, até que, no fim, encontra-se totalmente descrente com aquilo que um dia acreditou. Seu arco é duro, pessimista, mas construído com primor, também graças a grande atuação de Emily Blunt, que demonstra a mudança de Kate com perfeição.

Contudo, apesar de Kate ser a protagonista, é interessante a maneira como o roteiro explora Alejandro. O personagem parte de um homem misterioso que, praticamente, assume o protagonismo no terceiro ato, quando finalmente conhecemos seus objetivos pessoais na operação. Aliás, Benício del Toro tem aqui uma das grandes interpretações de sua carreira, apresentando uma composição contida, mas que evidencia toda a dor de Alejandro em cada pequeno gesto ou na voz mansa.

Sobre o trabalho do diretor, a estratégia de Villeneuve para destacar o aumento do pessimismo da protagonista com os métodos da força-tarefa é escurecer a paleta de cores gradativamente. Perceba como, na primeira reunião de Kate com Matt, o ambiente é envidraçado e iluminado; já na reunião seguinte, com a equipe do novo líder, eles reúnem-se em um local escuro e com pequenas faixas de luz saindo pela janela, destacando a natureza clandestina daquilo. Seguindo nessa linha, no clímax, o diretor mergulha o espectador no completo breu, recorrendo a câmeras noturnas e de calor, dando ares realmente obscuros para o filme.

Já para criar a atmosfera latente de dúvida e suspense, Villeneuve intercalada planos gerais com close-ups, ressaltando o isolamento da protagonista, mas também sua tensão estampada no rosto. Falando na fotografia, o fotógrafo Roger Deakins enquadra o céu e as paisagens como poucos, dando cores que ressaltam bem o estado de espírito dos personagens, como o azul, bege ou vermelho. Aliás, os planos em contraluz evocam o lado sombrio da operação. Ademais, o compositor Jóhann Jóhannsson é impecável ao criar tensão e um certo senso de urgência com sua trilha sonora repleta de batidas repetidas. Vale destacar também o figurino, que destaca o aumento do desgaste de Kate com o escurecimento de suas vestimentas.

Na obra de maior escala até então em sua carreira, Denis Villeneuve mostra em Sicario que é talentoso mesmo fora de sua zona de conforto, construindo uma obra madura e contundente em suas críticas, além de apresentar bons arcos para os protagonistas. O nome de Villeneuve veio, definitivamente, para ficar.

Sicario: Terra de Ninguém – EUA, 2015
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Taylor Sheridan
Elenco: Emily Blunt, Benicio del Toro, Josh Brolin, Daniel Kaluuya, Maximiliano Hernández, Victor Garber, Jon Bernthal, Jeffrey Donovan, Jaoul Trujillo, Julio Cedillo, Hank Rogerson, Bernardo P. Saracino
Duração: 121 min

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24 comentários

Maria Eduarda 20 de julho de 2018 - 18:28

O filme é muito bom, só que eu acho que faltou uma dinâmica mais ágil em determinada cenas, o filme se arrastou na mesmíssi em alguns atos, e confesso que isso me cansou um pouco. Minha nota pra elê é 9

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NickSystem 28 de junho de 2018 - 12:50

Perfeita sua crítica Fernando. Este é o tipo de filme que nos leva a reflexão, mesmo dias após tê-lo assistido. Como dito por você, destaca-se as luzes: de início as projeções são claras, e com o avanço da operação, a escuridão assume seu protagonismo na trama. Pura tensão, do início ao fim. Vale muito a pena ver.

Um abraço a todos do Plano Crítico.

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Fernando Campos 3 de julho de 2018 - 12:33

Esse filme, realmente, vale muito a pena e fico bem contente que tenhas gostado da crítica. A fotografia do Deakins em Sicario é maravilhosa, merecia um Oscar bem antes de Blade Runner 2049.

Abraço! E obrigado pelo comentário!

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Camilo Mateus 27 de junho de 2018 - 18:09

eu acho o roteiro muito fraquinho

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Camilo Mateus 4 de julho de 2018 - 08:10

é muito fgaco esse roteiro rogerinho

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Camilo Mateus 4 de julho de 2018 - 08:11

kkkk eu fiquei com preguiça de comentar os motivos, Fernando.
também acho o filme muito bom.
excelente crítica, mais uma vez!

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Fernando Campos 5 de julho de 2018 - 11:27

Eu gosto do roteiro do filme, como aponto na crítica. Mas a divergência faz parte e tenho certeza que você tem seus motivos pra não gostar. O importante é levar as coisas com leveza. Por isso, mandei o meme hahaha.

Aliás, valeu pelo elogio sobre a crítica!

Abraço!

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Anônimo 12 de outubro de 2017 - 22:57
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cristian 3 de outubro de 2017 - 11:28

Filme excelente em todos os sentidos, critica muito bem pontuada também.

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Delbert Souza 31 de julho de 2017 - 01:56

Depois de alguns anos depois de lançado Vim a assistir esse filme e achei um filme fantástico desde a adrenalina nas horas da ação ao suspense do desenrolar da trama,sem mencionar o suspense antes das horas de ação mas confesso que fiqeui meio decpacionado com o final.

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Aécio Neto 13 de maio de 2017 - 02:19

Nem sei como cheguei até aqui, mas acho que foi uma crítica a outro filme do Villeneuve.

Bom, parei só pra agradecer pelo trabalho de vocês. As críticas do site são incríveis. Essa, como alguém já colocou, foi cirúrgica.

Valeu!

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JC 24 de abril de 2016 - 05:24

Acho que é umas vezes que vou discordar com a nota!
Lendo o começo da crítica, até onde fala do roteiro, fiquei me perguntando, “Como é que então tem 4 estrelas?”

Acho que se encaixaria mais como 3 não? Apenas regular, por mais que todo o resto do aspecto técnico seja excelente.

Responder
JC 24 de abril de 2016 - 05:24

Acho que é umas vezes que vou discordar com a nota!
Lendo o começo da crítica, até onde fala do roteiro, fiquei me perguntando, “Como é que então tem 4 estrelas?”

Acho que se encaixaria mais como 3 não? Apenas regular, por mais que todo o resto do aspecto técnico seja excelente.

Responder
Matheus Fragata 24 de abril de 2016 - 14:50

JC, há casos, raríssimos, onde a forma do filme é tão magnífica que compensa o conteúdo que é apenas bom.
Abs!

Responder
Matheus Fragata 24 de abril de 2016 - 14:50

JC, há casos, raríssimos, onde a forma do filme é tão magnífica que compensa o conteúdo que é apenas bom.
Abs!

Responder
Guilherme Oderdenge 9 de fevereiro de 2016 - 05:24

Fala Matheus!

Acabei de assistir o filme e o sentimento que eu tive, de primeira, foi que eu era burro.

Antes de selecionar o filme para assistir, li à respeito dele e várias das opiniões estavam enaltecendo vários pontos do filme que me levaram à curiosidade.

Como disse, terminei há pouco e no último segundo me peguei pensando no que deixei escapar que a história não me cativou como eu esperava.

Li a sua crítica então e me dei conta de que talvez eu tenha feito uma análise melhor do que eu esperava, porque foram exatamente os mesmos pontos que me fizeram gostar de Sicario e exatamente os mesmos pontos me fizeram desgostar. São eles, respectivamente, a incrível sonoplastia e fotografia, e na outra mão, a história vazia, que tenta ser complexa mas não consegue.

A sua análise, na verdade, tirou o peso que tive na consciência sobre eu ser burro e me fez pensar que, pela primeira vez, tive destreza na minha crítica para com relação ao longa.

Portanto, Sicario, para mim, foi uma faca de dois gumes: entretenimento e autoreconhecimento—enfatizado e também desencadeado pelas palavras que o seu post registrou—e um pouquinho de decepção por falhar na história.

Portanto, obrigado e parabéns! Ganhaste um seguidor. 🙂

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Matheus Fragata 9 de fevereiro de 2016 - 16:06

Guilherme, eu que agradeço pelo comentário. Nunca se sinta burro por achar que não entendeu um filme. Existem obras que realmente são feitas para serem incompreensíveis como Vício Inerente que não entendi praticamente nada. Sicario realmente tenta ser mais do que é. O roteiro almeja esse status “intelectual” como se fosse uma denúncia inédita ou extremamente relevante – se tivesse lançado em 2010, talvez seria.

O problema é realmente essa repetitividade e pouca exploração nos personagens que ficam limitados. O problema nunca é eles ficarem centrados no mesmo conflito pois inumeros filmes conseguem apresentar personagens absolutamente fenomenais mesmo explorando somente um ou dois conflitos: Taxi Driver, Enterrado Vivo, Doze Homens e uma Sentença, etc.

Cara, já que você sentiu que a crítica refletiu muita coisa que pensou e por perceber que seu exercício crítico está amadurecendo, comece a resenhar para si próprio ou em um blog. Marque suas impressões. Foi assim que comecei em 2010 – algo que nunca vou me arrepender.

Abs!

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Arthur S. 30 de janeiro de 2016 - 00:00

Análise cirúrgica, parabéns.

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Daniela A Rabelo 31 de outubro de 2015 - 16:57

Me desculpe discordar: achei o filme incrível em todos os detalhes. Saí do cinema com a boca aberta e feliz por ver um filme excelente. Indico o filme e esse incrível diretor, que acompanho há tempos. Reforço a fotografia e planos incríveis, reflexo do avião nas montanhas, cair do sol com soldados munidos de nightvision. Recomendo!

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Matheus Fragata 2 de novembro de 2015 - 14:13

Que bom 🙂

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Matheus V. 25 de outubro de 2015 - 21:23

O legal de ler uma crítica menos entusiasta de um filme do que minha própria opinião é tirar as pulgas de trás das orelhas. Não que me influencie de alguma forma, mas é sempre interessante sair de um filme que você adorou, ainda que alguma coisa tenha cheirado mal, e procurar uma segunda opinião. Pois é, essa pulga ou mal cheiro pode muito bem ser justificado pelo roteiro.
Simples e grosso, é um roteiro simples. Até demais, na verdade. Não se arrisca muito e dosa a real crueldade do cenário. A falta de desfechos a altura e excesso de exposição tiram ainda mais do seu brilho. Mas, me permitindo defende-lo, acho que funciona,principalmente pela representatividade dos personagens para um tema que possui diversos pontos de vista.
No mais, a direção é tão absurda que o melhor que posso fazer em poucas linhas é concordar com tudo que disse acima. A cinematografia nem se fale.

P.S. Estando daqui, dá para ver que não deu para Goosebumps. A nostalgia perdeu hoje (sem arrependimentos, ainda acho Sicario um filmaço), mas promete voltar com tudo em dezembro.

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Matheus Fragata 27 de outubro de 2015 - 13:05

Matheus, te agradeço o comentário aqui. Que bom que gostou de Sicario, certamente é um filme para ser admirado e aplaudido. Só o roteiro que realmente empacou meu entusiasmo com esse filme. Mas fico feliz que você tenha se empolgado mesmo com ele hahaha. O problema também é que mesmo com diversos pontos de vista, os diálogos são repetitivos. Há uma reapresentação de conceitos que enche o saco, pois nunca são desenvolvidos de modo apropriado.

Fez bem em escolher Sicario. Goosebumps pode muito bem ficar para o home video e funcionar.

Abs

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