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Crítica | Sierra Burgess é uma Loser

por Gabriel Carvalho
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Contém spoilers! 
O que não significa nada, pois todo mundo sabe como uma obra dessa termina.

As comédias românticas da Netflix definitivamente viraram um grande conjunto de fanfics feitas por adolescentes, escrevendo os maiores contos fantásticos, em uma espécie de fetichismo extremamente ingênuo, assimilando relacionamentos “impossíveis” com os grandes malabarismos da vida. A fanfic da vez, contudo, está muito longe de ser, na base, uma fanfic, porque a inspiração é no espetáculo “Cyrano de Bergerac”, de 1897. Como o longa-metragem, redefinindo completamente a peça para o contemporâneo, tornou-se uma espécie de fanfic é justamente o grande ponto a ser criticado. A proposta de Sierra Burgess é uma Loser, antes de chegar a essa categorização, é interessante, assim como a obra teatral, obviamente. Ao notarmos o nosso mundo como um conjunto de convenções, entendemos, mas devemos criticar, as imposições feitas não apenas aos outros, mas a nós mesmos. Sierra Burgess (Shannon Purser), pensando por esse lado, é uma perdedora. A personagem não é socialmente vista como bonita, apesar de, frente ao espelho, no início da obra, enxergamos nos seus olhos uma beleza ímpar. A personagem não é magra, algo que contrasta muito com a sua mãe, que não entende os percalços passados por sua filha. A personagem, aparentemente, por outro lado, é legal – só que ela não é.

“E um pouco de mandarim”, diz Sierra, comentando sobre as línguas que fala. A conselheira da escola, porém, com nenhum atributo de conselheira, julga que as habilidades de Sierra não são o suficiente para a aluna ganhar espaço no âmbito acadêmico. A personagem tem que estar envolvida nas mídias, aparecer para o mundo, como se não existisse outra forma, até mesmo mais difícil, de vencer esses obstáculos. Sierra Burgess é uma obra, de certa forma, pessimista, pois acredita no impossível, quando deveria, no entanto, acreditar na desconstrução do impossível. O enredo do longa-metragem, afinal, trabalha o relacionamento da protagonista com um garoto, que acredita, no entanto, que a pessoa do outro lado do celular, em um tipo de interação extremamente simbólica da sociedade pós-moderna, é Veronica (Kristine Froseth), patricinha bastante popular da escola e por quem ele verdadeiramente tem uma queda, das mais inofensivas desta época de adolescência. O filme mantém a mesma estrutura o longa-metragem inteiro, sem quebrar, previsivelmente, a ideia e criar o conflito na metade dela. A descoberta vem no clímax, seguida de um convencimento completamente bocó por parte do protagonista. O amor impossível é possível. O mais curioso é que as batidas clássicas seriam imensamente mais vantajosas para a história que o amor abrupto.

A grande carta na manga de Lindsey Beer, roteirista do filme – Ian Samuels, o diretor, aparenta ser um cineasta robô nessa produção, trabalhando mecanicamente -, é conseguir desconstruir todo o escopo atribuído alopradamente por fãs da celebridade à atriz Shannon Purser, amada em Stranger Things em decorrência do carinho dos espectadores pela sua personagem Barb, extremamente simpática. O roteiro do indivíduo, portanto, precisa ser realmente muito atroz para conseguir destruir uma construção de personalidade tão forte quanto a que foi, não muito tempo atrás, criada. Lindsey Beer faz o impossível. Sierra Burgess é uma personagem desconstruída, de uma mulher com inseguranças a uma mulher com inseguranças, mas que, em razão disso, ataca os outros. O problema não é o conflito de personalidades, pois humanos possuem defeitos e isso não os moldam integralmente, mas a nota estabelecida em última instância pelo longa-metragem, encerrando com a redescoberta do amor, justamente no momento em que ele deveria ser questionado. A maior questão deixada, dessa maneira, não é nem a moral vaga, mas a redefinição do sentimento do público pela personagem, que passará de uma leve aceitação, suficiente para seguirmos em frente, para um considerável desprezo, não apenas pela atitude, mas por todo o contexto dela.

Com a sagacidade sendo contrastada por uma completa improbidade, Sierra Burgess é uma Loser, no final das contas, tem aqueles mesmos clichês maniqueístas de outras produções similares, recentes e não recentes. Os personagens, bem menores, são nojentos. A obra tenta, todavia, quebrar as unidimensionalidades, mesmo sem entender nada sobre nada. A única grande decisão do longa é transformar Veronica, antipática garota popular, em amiga de Sierra, numa relação que surge do nada, com o roteiro forçando a barra para Veronica realmente precisar de Sierra, justamente ela, humilhada tantas vezes antes. O contrário, porém, funciona, pois Veronica passa a ajudar Sierra na relação dela com Jamey (Noah Centineo), ponto necessário para o desenrolar narrativo. A amizade, entretanto, é realmente funcional, crível, mas, justamente por ela ser assim, a queda, na reviravolta da trama, torna-se ainda mais vertiginosa. Quando a protagonista flagra Jamey beijando Veronica, o roteiro dá uma aula em como afastar um personagem do público, permitindo Sierra, abruptamente, expor uma “vergonha” da sua amiga para todos os alunos da escola. Sierra, mais do que ninguém, sabe o que é ser exposto. Uma atitude inadmissível para uma pessoa que, dias antes, permitiu a protagonista beijar Jamey – em outra fantasia fetichista.

A obra ainda tem a capacidade de ofender vários movimentos sociais, mesmo querendo bancar-se como o lançamento empoderado do momento, militante ou algo do tipo. Jamey, por exemplo, tem um irmão surdo. Sierra, por exemplo, tem um amigo negro e homossexual. O primeiro caso, ao menos, tem alguma vertente interessada em tornar Jamey uma figura mais simpática, consideravelmente próxima do seu eu de Para Todos os Garotos que Já Amei, mas, ao mesmo tempo, consideravelmente distante, tornando-se um genérico modelo de si mesmo. O segundo caso, todavia, exprime uma figura rasa, tão antipática quanto Veronica, parecendo ser um interminável exagero do ator RJ Cyler. A desonestidade com o espectador é gigantesca. O relacionamento amoroso é desinteressado em quebrar os padrões. Quem recupera Sierra é a sua voz, mais uma característica “inatingível” para muitos. Como fica o futuro da personagem? O mandarim ajudará em algo? Lindsey Beer parece ter-se esquecido disso e decide contar história através de texto, reiterando a completa perdição do seu próprio roteiro. Ninguém se importa. Uma fanfic, majoritariamente, é isso: uma tentativa de uma pessoa amadora escrever sobre algo, mesmo não tendo capacidade de inventar nada a não ser uma fantasia.

Sierra Burgess é uma Loser (Sierra Burgess is a Loser) – EUA, 07 de setembro de 2018
Direção: Ian Samuels
Roteiro: Lindsey Beer
Elenco: Shannon Purser, RJ Cyler, Noah Centineo, Kristine Froseth, Will Peltz, Lea Thompson, Alan Ruck, Loretta Devine, Chrissy Metz, Alice Lee, Giorgia Whigham, Mary Pat Gleason, Joey Morgan
Duração: 105 min.

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8 comentários

Bruno Souza 29 de outubro de 2018 - 03:38

Meu… O filme tinha tudo para ser ótimo… Mas a Sierra estragou tudo, fiquei com tanta vergonha e ranço que fiquei esperando chegar o final do filme e tendo a (quase) certeza de que ele realmente não a merecia… Por mais bonita e sincera que seja a musica. Soa bem mais obvio chegar na pessoa olhar nos olhos e falar sobre que fez… Gente… Ai no final ele vai la e…

não ia na festa esta la com um vestido de “festa”… ai gente…. esse filme não desceu…

Queria que ela ao se desculpar para eles desse mais valor as suas qualidades, que com toda essa bagagem fosse atras do seu bem próprio… com cara e coragem se jogar nesse mundo e ser feliz, sem ter que se esconder atras do celular e sim ser ela mesmo….

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Crys 23 de outubro de 2018 - 22:25

Finalmente uma crítica coerente. Não entendo o hype e resenhas tão boas acerca de um filme tão tenebroso como esse. Assisti e me arrependo.

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Juliane Machado 2 de outubro de 2018 - 21:21

Eu amo comédias românticas, acho fofas, e depois de um dia terrível na faculdade, onde eu simplesmente quero esquecer do meu curso e da ufal, eu me pego procurAndo na netflix um desses pra me distrair, chorar, e pensar “Que fofo, por que isso não acontece comigo? mds, isso precisa acontecer comigo…” . Pois é, nesse filme não senti isso. Desde o inicio percebi que tinha feito a escolha errada, mas como uma boa cinéfila, eu não deixo o filme pela metade. Enfim, o meu consolo foi ver o Noah Centineo por uma hora e meia, SEM MAIS. Basicamente, o filme é 0 graus. BEM 0 GRAUS.

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adrianocesar21 1 de outubro de 2018 - 16:17

Ironicamente não achei esse filme tãããão diferente assim da maioria das comédias românticas adolescentes dos anos 80. concordo que o grande ponto do filme é a amizade entre Sierra e Veronica. claro que forçaram em alguns pontos, mas a relação de amizade entre elas acabou sendo mais interessante que o relacionamento amoroso do filme.

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Teco Sodre 17 de setembro de 2018 - 11:26

Não achei tãããããoooo ruim assim: tem muitos equívocos, algumas situações “quê?” mas mesmo assim não é um filme de todo ruim…Se fosse uma sessão da tarde nos anos 80 seria um clássico, MAS o mundo evoluiu e a impressão que temos é que as personagens desse filme não.

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Cygne Noir 14 de setembro de 2018 - 01:40

Assistir a este filme me proporcionou vergonha alheia.

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Laís S. 12 de setembro de 2018 - 22:55

Sou fã de comédias românticas. Mesmo. Meus momentos de tédio se resumem em assisti-las ou recomeçar Naruto pela milionésima vez. Me libertei de qualquer compromisso com a seriedade/reflexão e coloquei Sierra. Caramba, mas é um filme tão ruim. Sinceramente, não consigo elencar algo que me marcou positivamente.

Os personagens são péssimos. Você não se sente convidado a gostar de ninguém, nem da protagonista. Ela tem atitudes péssimas e controversas, como você citou (não consegui torcer por ela e me pergunto se é correto ela terminar feliz pra sempre depois de ter mentido, exposto e humilhado a amiga – poxa, então a “punição” só vale pra antagonista?). A “amiga” é um ser humano horrível, pra quem criaram um plot familiar que justificasse a escrotidão dela (não funcionou. Aliás, nem as crianças se salvam ali). O amigo é tudo o que você citou. A mãe é uma psicóloga que simplesmente não conhece, nem se importa com a filha. O pai…….. tenho trauma de quem fala por citação desde a graduação. A conselheira é um diabo. O menino é um banana. A professora é um péssimo exemplo e poderia facilmente ser processada (vai contra tudo o que acredito e tento passar pra os meus alunos sobre respeito ao próximo e justiça com as próprias mãos – ela claramente expõe e humilha os alunos).

O casal principal não tem química (isso não tem a ver com Sierra estar fora do padrão) e o “amor” entre eles foi completamente inorgânico quando passou pra realidade, assim como a amizade com Verônica e o perdão do amigo tão ressentido. Não tem uma música que tenha marcado (acho que uma comédia romântica que se preze precisa ter), nem cena, nem atitude, nem nada. Engraçado que se você para e analisa, ele teria muito mais pra abordar (gordofobia, bullying, ciberbullyng, mídia como parâmetro de seleção pra faculdade, abandono paterno – mesmo com os pais presentes, etc.) mesmo que de maneira superficial, em função da própria natureza do filme.

Para mim, foi algo que usou unicamente a fama do casal pra ganhar dinheiro. No fim, ser perdedora é elogio pra Sierra (mas não se preocupe. Ali, todos são). Numa sociedade com relacionamentos tão instantâneos e filmes feitos para serem esquecíveis, Sierra Burguess me marcou. Deu seu nome pra lista dos que não prestam nem pra passatempo.

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Andressa Gomes 12 de setembro de 2018 - 22:43

Eita, desde que comecei ler aqui é a primeira vez que vejo uma estrela.
Eu confesso que vi o trailer do filme e achei bonitinho, e meio bobinho. Mesmo ja tendo assistido e lido histórias com essa pegada, esta me incomodando como as coisas estão desenrolando. Tem a sensação que estão usando uma forma de bolos e fazendo quase o mesmo recheio. Daqui uns anos só vai mudar os personagens.
Você contou sobre os personagens deficientes, li a pouco que algumas pessoas estão querendo reclamar por conta de algumas piadas ou coisas do tipo.

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