Crítica | Silêncio nas Trevas

plano crítico silêncio nas trevas filme noir

O som do grito (especialmente o feminino) é um dos signos mais reconhecíveis das produções de terror; não sendo coincidências, portanto, que atrizes que constroem a sua carreira em torno do gênero fiquem conhecidas como Scream Queens. Por isso, a ideia central de Silêncio Nas Trevas, thriller de terror gótico da RKO, onde uma jovem muda é perseguida por um assassino em série, sendo incapaz de gritar por ajuda devido à sua condição, já causa interesse por essa subversão de uma protagonista do gênero privada de um de seus principais signos.

A trama acompanha Helen Capel (Dorothy McGuire), uma jovem que perdeu a voz devido a um trauma de infância, e que trabalha para a rica família Warren, como cuidadora da matriarca, a viúva Warren (Ethel Barrymore). Quando mulheres que sofrem de algum tipo de deficiência ou “deformidade” passam a ser vítimas de um misterioso Serial Killer, o Doutor Parry (Kent Smith) passa a temer que Helen (por quem está apaixonado) possa se tornar a próxima vítima. Inicialmente, a moça acredita estar segura no casarão dos Warren, mas o assassino pode estar mais próximo do que ela imagina.

Escrito por Mel Dinelli (a partir de um livro de Ethel Lina White) Silêncio nas Trevas se desenvolve como uma típica história de terror gótica ao situar 90% da trama em um velho casarão, habitado por uma família assombrada por segredos do passado e relações mal resolvidas. Lançado em 1946, um ano após o fim da 2ª Guerra mundial, percebe-se no longa-metragem elementos alegóricos referentes ao terror bastante humano que havia assolado o mundo pouco tempo antes. O vilão de Silêncio nas Trevas mata as suas vítimas sob o pretexto de “acabar com a imperfeição do mundo”, mas essa pessoa com pensamentos tão horríveis não é um monstro vindo de uma terra distante, pois como o detetive que investiga o caso diz em certo momento, “Esse assassino pode ser qualquer um. Pode ser nosso vizinho ou nosso amigo, pode ser eu, ou mesmo você”. Essa é uma noção, que embora tenha se tornado comum no gênero em anos seguintes, era muito aterrorizante para um filme da década de 1940, e foi um dos fatores que atraiu o diretor Robert Siodmak para o projeto, um alemão que chegou a Hollywood alguns anos antes fugindo do nazismo, ao ver o mesmo senso doentio de perfeição defendido pelo assassino, surgir em seu próprio povo.

Embora possua pequenos elementos falhos, como a datada truculência com que o Dr. Parry tenta lidar com o trauma de Helen em certo momento e a identidade do vilão seja um pouco óbvia para quem já viu alguns whodunits, o roteiro de Dinelli é competente em criar um ótimo crescendo de tensão no casarão dos Warren, à medida em que o mal-estar existente entre os moradores vai se tornando mais evidente. O texto também é habilidoso em inserir alívios cômicos através da mal humorada cozinheira, a Sra. Oates (Elsa Lanchester), mas sem com isso, quebrar a atmosfera de tensão tão cuidadosamente construída. Ainda é digna de nota a forma como o roteirista trabalha a mudez de sua protagonista e a expectativa criada em torno da possível recuperação de sua voz, especialmente durante o 3º ato da trama.

Embora Silêncio nas Trevas tenha um ótimo roteiro, é a direção de Robert Siodmak que ganha o maior destaque. A direção estabelece a dinâmica entre o som, o silêncio e a violência desde a sequência inicial, onde a câmera passeia pelas ruas de uma pequena cidade no começo do século XX, até adentrar uma sessão de cinema mudo — que é interrompida pelos sons da violência, quando o assassino faz mais uma vítima no andar de cima. Utilizando-se do plano de ponto de vista para estabelecer a presença de seu antagonista, o filme reforça a ameaça em torno do vilão (já que esses pontos de vista são contrapostos a detalhes do olho injetado do maníaco) e apresenta a sua psique distorcida, pois suas vítimas surgem em sua visão como criaturas desumanizadas, como Helen, vista sem boca. O diretor também mostra habilidade ao desenvolver as sequências de maior tensão, surpreendendo o público ao mesmo tempo em que nos mantém um passo à frente dos personagens, bastando observar como a câmera de Siodmak revela de forma quase casual a presença do assassino espreitando as suas vítimas, estabelecendo um suspense hitchcockiano.

A fotografia e a direção de som também são grandes destaques do projeto. O uso das sombras é fantástico, dando um visual único ao filme, além de ter um potencial narrativo, já que elas sempre parecem antecipar algo horrível, mesmo que não nos atentemos disso em um primeiro momento. O desenho de luz dá grande valor tétrico aos cenários, como o bosque que circunda o casarão dos Warren ou a longa escada em espiral que leva ao porão da residência. O desenho sonoro de Silêncio Nas Trevas é brilhante e vital na construção do clima da narrativa, já que a tempestade presente na maior parte do filme traz uma infinidade de sons que reforçam a atmosfera de pesadelo, além de desenhar o crescendo de tensão, nunca soando intrusivo.

Dorothy Mcguire está encantadora como Helen, com seu “desempenho mudo” conseguindo captar as diferentes emoções da personagem sem cair na armadilha de soar caricata, com a atriz encontrando o seu ponto alto no já citado clímax do filme, quando é perseguida pelo assassino. Ethel Barrymore também entrega uma atuação forte como a Sra. Warren, nos convencendo da força da personalidade dessa senhora, mesmo que ela esteja acamada e tendo episódios de demência. Por fim, vale destacar o trabalho de George Brent e Gordon Oliver, como os irmãos Albert e Steven Warren, que surgem como a antítese um do outro.

Silêncio Nas Trevas é um ótimo exemplo do terror gótico clássico, com um roteiro que sabe se utilizar dos elementos clássicos do gênero, mas que também sabe subverter com inteligência vários destes elementos. A direção de Siodmak concede grande classe ao projeto, além de estar à frente de seu tempo ao se utilizar de elementos clássicos do terror que só seriam completamente estabelecidos muitos anos depois. Em resumo, um ótimo melodrama gótico de terror, que entra para aquela seleta listinha de obras do gênero extremamente charmosas, que mereciam ser mais conhecidas do que são.

Silêncio Nas Trevas (The Spiral Staircase)- Estados Unidos. 1946
Direção: Robert Siodmak
Roteiro: Mel Dinelli (Baseado em romance de Ethel Lina White)
Elenco: Dorothy McGuire, George Brent, Ethel Barrymore, Kent Smith, Rhonda Fleming, Gordon Oliver, Sara Allgood, Rhys Williams, Elsa Lanchester
Duração: 83 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.