Crítica | Singularidades de uma Rapariga Loura

singularidades de uma rapariga loura

estrelas 4,5

Tinha o caráter louro como o cabelo – se é certo que o louro é uma cor fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com seus brancos dentinhos, dizia a tudo “pois sim”; era muito simples, quase indiferente, cheia de transigências.

Eça de Queirós

A primeira experiência de temática realista na literatura portuguesa se deu pelas mãos de Eça de Queirós em 1874, com o conto Singularidades de Uma Rapariga Loura, a história incomum do amor de Macário de Luísa. Em 2009, meses antes de completar 102 anos, o cineasta português Manoel de Oliveira estreou a sua versão cinematográfica para o conto, um filme simples e curto, porém, dotado de um vigor e poder imagético impressionantes.

Singularidades é um filme que não contém explicações românticas nem longa exposição cotidiana da vida dos protagonistas. A maior parte das coisas aqui são sutilmente sugeridas. Seu término abrupto e as indicações de crítica social já vindas do conto passam desapercebidas por espectadores desatentos; e o amor ingênuo é tratado com justa ironia. Após Macário ver a bela imagem de Luísa na janela defronte ao seu escritório, a paixão que o toma é de tal forma destrutiva e idealizada que o jovem arriscará o emprego estável na loja do tio e viajará para Cabo Verde a fim de ganhar dinheiro para casar-se com a bela e singular rapariga. O que Macário não percebe é o tom absurdamente teatral de seu amor e de seu objeto de desejo.

Um impulsivo sentimento gerado pela imagem de uma pessoa não pode ser algo benéfico para ninguém. Na Lisboa conservadora que vemos no filme, essa paixão pela representação de uma mulher torna-se dolorosamente clara. O amor de Macário não é pela mulher Luísa, mas pela sua lírica imagem com o leque chinês, olhando pela janela. Durante a narração que faz à companheira de viagem no trem até Algarve, Macário ressalta a beleza do leque, mas deixa de lado a beleza da jovem por quem se apaixonara. Além disso, a própria figura de Luísa é uma representação afetada da mulher comedidamente libidinosa, algo que destoa da sociedade representada no filme e reafirma o gosto do diretor pela questão do “parecer ser”, comportamento que observamos de maneira mais evidente em filmes de safras não muito distantes desta, como Espelho Mágico (2005), Sempre Bela (2006) e O Estranho Caso de Angélica (2010).

As constantes mudanças espaço-temporais ganham um toque ágil na montagem de Manoel de Oliveira e Catherine Krassovsky. Imagens de Lisboa em diversos momentos do dia nos indicam a passagem das horas e ajudam o andamento do tempo interno do filme, sem carregar a narração. Assim, Oliveira conserva uma particularidade do conto de Eça de Queirós que é um certo desprezo pela temporalidade ou pela linha cronológica dos acontecimentos. Sem ser confuso ou maçante, a alternância entre a narração de Macário no trem, os cortes em fade e as panorâmicas sobre Lisboa ou janelas da cidade ao som de sinos, fecham um ciclo vivo de acontecimentos num longo espaço de tempo visto por nós de modo rápido e sucinto.

A diretora de fotografia zairense Sabine Lancelin deu um toque oportunamente naturalista aos quadros do filme. A exploração da profundidade e do contracampo servem não apenas como elementos técnicos mas como acréscimos psicológicos, pois ao mostrarem a visão de cada um dos protagonistas, revelam a visão ampla ou turva de cada uma das partes. O acontecimento final e suas consequências reproduzem a moral burguesa lisboeta e ironizam todo o enredo do filme. Assim como surgira, o amor se esvai rapidamente, embora Macário sofra e admita isso para sua confidente de viagem. Livre da obrigação teatral (mostrar-se uma boa moça para conseguir casar-se), Luísa chega em casa e joga-se na poltrona da sala lindamente decorada e iluminada. As pernas abertas, o corpo curvado e o cabelo caído retratam uma postura abissalmente distinta da impecável figura na janela. Surge a verdadeira Luísa.

O trem de Macário e sua confidente aparece numa panorâmica e então os créditos finais surgem lentamente. Apesar do amor frustrado, a vida de ambos os protagonistas segue, com destinos ocultos. Manoel de Oliveira faz um pequeno estudo sobre os costumes e declarações de amor feitas a outrem sem propósito algum ou sob uma primeira impressão, sob um impulso. Longe de uma mensagem moralista, Singularidades de Uma Rapariga Loura incita-nos a pensar sobre qual é o motivo de nossas paixões arrasadoras e as possíveis consequências negativas se insistirmos em alimentá-las.

Singularidades de uma Rapariga Loura (Portugal / Espanha / França, 2009)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira (baseado na obra de Eça de Queirós).
Elenco: Ricardo Trêpa, Catarina Wallenstein, Diogo Dória, Júlia Buisel, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra, Glória de Matos, Filipe Vargas, Rogério Samora, Miguel Guilherme
Duração: 64 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.