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Crítica | Siren: A Lenda das Sereias – A Série Completa

por Leonardo Campos
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As sereias são criaturas misteriosas e fascinantes. Apesar da visão lúdica que temos do mito, graças aos recorrentes processos de representação na cultura pop, isto é, a imagem de beleza e ternura transmitida por essas apaixonantes mulheres com rabo de peixe, as sereias são criaturas originalmente mais macabras e tenebrosas, bem diferente da versão solidificada em nosso imaginário cultural. Os gregos são os principais responsáveis pela expansão ocidental do mito. O poeta Homero, nos clássicos Ilíada e Odisseia, flertou com as sereias e as sirenes, mulheres híbridas de pássaros que causavam naufrágios ao atrair os marinheiros com o seu canto, prelúdio para o encontro destes desbravadores do mar com a morte. Quem também flertou com as ninfas do mar foi Plínio, O Velho, pensador romano, ao escrever em detalhes sobre estes seres mitológicos. Até mesmo Cristóvão Colombo alegou ter visto estas criaturas perto do Haiti, por volta de 1493, enquanto navegava. Relatos de cientistas declaram que ele provavelmente tenha avistado um peixe-boi marinho, espécie que provavelmente veio até a superfície para respirar e com sua curiosa emissão de sons e rabo achatado, talvez tenha mexido com a imaginação do personagem histórico conhecido por “descobrir” e colonizar outros cantos do continente americano.

O cinema também é um dos setores culturais responsáveis por expandir o mito das sereias na cultura. Desde os primeiros ensaios cinematográficos de Mélies, as ninfas do mar foram personagens de destaque em algumas produções. O cinema clássico não fica atrás e o sistema contemporâneo também aborda as criaturas por vieses múltiplos, sendo as comédias românticas e as aventuras os gêneros mais recorrentes. Entre um ponto e outro, as sereias ganham uma participação horrenda, como no razoável A Criatura da Destruição, de 2001, e Sereia Predadora, de 2016, ambos com foco voltado para o apetite voraz destas figuras monstruosas. Entre 2018 e 2020, Dean White e Eric Wald reformularam algumas propostas narrativas e resolveram investir na representação sombria das sereias para o formato televisivo, estratégia que deu origem a série em questão. Produzida pelo Freeform, um dos braços da ABC, Siren durou três temporadas e 36 episódios no padrão médio de 40 minutos. Diferente dos seres mimosos e bonitinhos do estilo Disney de narrar, a série avança pelo viés sombrio, mais próximo do que de fato é o mito que atravessa várias culturas, mas possui solidificação e expansão ocidental após as histórias gregas. Luxuriosas e sedutoras, as sereias conduziam os homens pelo caminho dito errôneo, inadequado, alegoria para o conhecimento, a liberdade e outras interpretações sobre a humanidade.

Há um conjunto expressivo de personagens, sendo o núcleo central formado por Ryn (Eline Powell), Maddie (Fola Evans-Akingbola) e Ben (Alex Roe). Ryn é uma sereia adulta, com passado obscuro na primeira temporada, biografia que ganha maior explanação ao passo que a série avança. Ela desembarca em Bristol Cove com missão de resgatar a sua irmã mais velha, capturada por um pesqueiro chamado “Estrela do Norte”. Ao chegar, no entanto, acaba em contato com o casal formado por Ben e Maddie. A tensão sexual se estabelece com o trio mais adiante e nas temporadas seguintes, um trisal se estabelece, numa excelente discussão sobre relacionamento poliamoroso, uma associação feliz dos realizadores com a temática tão polêmica e contemporânea. Maddie é a bióloga marinha que trabalha no Bristol Cove Marine Research Center, uma jovem constantemente preocupada com as questões ambientais que assolam o lugar, ameaçado pela presença de empresas petrolíferas, além da desgastante ação da pesca que não leva em consideração os danos ao ecossistema. Ela é a namorada de Ben, jovem rebelde que vai de encontro aos anseios da família e renega tudo para desenvolver o trabalho de biólogo ao lado da companheira. Depois de conhecer Ryn e ser seduzido por seu canto hipnótico, o rapaz adentra por um espiral de emoções que culminará em seu sumiço no desfecho da última temporada.

Ele se torna um herói que fica nas lembranças de todos os personagens principais e também os eixos gravitacionais que giram em torno dos conflitos nevrálgicos da série. A primeira temporada, tal como a última, possui 10 episódios. A primeira metade aborda a busca de Ryn pela irmã capturada e a segunda retrata a sobrevivência da espécie face aos ataques dos humanos na costa de Bristol Cove, uma região que possui no passado, uma relação intrínseca com as sereias. Na segunda temporada, a série investe na ampliação dos conflitos da antecessora. O que ficou provocado agora se torna mais explícito. A formação do trisal entre Ben, Maddie e Ryn abre espaço para os sentimentos ficarem mais aflorados, mas também deixa algumas brechas para situações de ciúmes e disputas. Ao refletir sobre um mundo sem tantas rotulações, a série acerta ao trazer Ryn e sua perspectiva primitiva para o cerne cultural cheio de tabus da dupla de biólogos. A chegada de novos tritões e sereias funciona como uma alegoria para a imigração e os povos refugiados nos quatro cantos do mundo, outra associação certeira dos realizadores com o cenário político contemporâneo, presente também nas discussões sobre poluição dos oceanos. Já na terceira e última temporada, Siren conduz os espectadores pelo campo de batalha que se estabelece entre Ben, Maddie e Ryn, grupo que lidera o confronto com Tia (Tiffany Lonsdale), uma sereia que tem como projeto, coagir as demais colônias próximas para uma guerra contra a humanidade.

Após o nascimento de Hope depois que Ryn se relaciona comum tritão, eles também precisam lutar para proteger a “pequena sereia” das garras do grupo que deveria ser aliado, mas que agora é parte dos adversários. Além desse esquema, a temporada aposta na transição de Ben: após a injeção de células-tronco de uma série morta durante uma transição malsucedida há meses, situação que resulta no desenvolvimento de sua audição aguçada, bem como reflexos e outros sentidos agora mais apurados. Cancelada antes de seu quarto ano, Siren conseguiu fechar adequadamente os seus arcos e não prejudicar o impacto cultural da série em nosso imaginário. Ficou para a história em sua abordagem sombria e violenta das sereias, criaturas que no estabelecimento do esquema narrativo fantasioso, alegorizam os conflitos humanos constantemente presentes em nossa sociedade. Sob a direção de Joe Menendez e Nick Copus na maioria dos episódios, a produção contou com Liz Maccie, Elias Benavidez, Cole Fowler e Zoe Green como dramaturgos dominantes da sala de roteiristas, grupo responsável por textos objetivos e ausência de diálogos desnecessários, tudo em prol do avanço da história que peca em alguns momentos, mas não adentra no marasmo comum das séries que muitas vezes já disseram tudo que tinha para expor e acabam enrolando os arcos dramáticos da produção.

No que tange aos aspectos estéticos, Siren é uma série com pouco sofisticação. Não chega a ser um espetáculo do horror técnico, aliás, está longe disso, mas também não se aproxima das representações hollywoodianas das sereias deslumbrantes que já vimos em tantos filmes. Para disfarçar o orçamento mais modesto, os realizadores investiram em transformações com a fotografia mais escurecida, escolha que torna as cenas mais sombrias e deixam qualquer vestígio de efeitos visuais mais baratos com um toque mais discreto. Outro ponto interessante é o filtro azulado constante da direção de fotografia de Anton Sanko e Gill Birmingham, fotógrafos dominantes nas três temporadas. Se na seara dos efeitos o trabalho é médio, a condução musical de Michael A. Levini faz um bom serviço ao mesclar violinos, viola e gusli, instrumento de cordas oriental, da família da cítara, numa textura percussiva certeira desde a música tema, sonoridade que também se expressa bem ao longo dos episódios. Os figurinos de maria Livingstone acertam na representação urbana dos personagens que circulam pelos espaços concebidos por James Hazell e sua equipe no design de produção. A supervisão de efeitos visuais ficou por conta de Dan Dixon, responsável pelo trabalho de representação das criaturas mitológicas que tal como já mencionado, deixam a sua aura lúdica para exercer uma mescla de fascínio e repulsa no desenvolvimento dos episódios de Siren, série que aborda as sereias melhor que Tidelands, narrativa contemporânea divertida, mas sem o mesmo cuidado que a saga de Ryn.

Siren: A Lenda das Sereias (Siren, Estados Unidos/2018)
Criação: Eric Wald, Dean White
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Eline Powell, Alex Roe, Fola Evans-Akingbola, Ian Verdun, Rena Owen, Curtis Lum, David Cubitt, Sarah-Jane Redmond
Duração: 45 min. (Cada episódio – 39 episódios no total)

 

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