Crítica | SJA: Justiça Seja Feita

A maior parte das coisas que a gente lê da Sociedade da Justiça após a Era de Ouro (ou mais precisamente, nas publicações com esse time feitas a partir do final da Era de Prata) tem um caráter quase depressivo marcando o roteiro. As histórias tendem a trazer ingredientes notálgicos, não raramente solenes, e constantemente abordam situações de personagens envelhecidos que precisam se ajustar às mudanças do mundo, lidar com egoicos e novos heróis, seguir lutando num cenário ao qual parecem não pertencer. E é por este caráter que as histórias da equipe após esse período que citei, tendem a carregar um tom muito sério, mesmo que o roteiro não trabalhe tanto assim para isso.

Justiça Seja Feita é o primeiro arco da famosa série que reviveu a SJA para o público em 1999. O projeto teve vida relativamente longa, durando sete anos nas bancas (com um total de 87 edições e 1 anual) e procurou unir forças das mais diversas formações da Sociedade, além do sangue novo que cercava a equipe, filhos ou ajudantes dos heróis da Era de Ouro. A trama principal aqui, escrita por James Robinson, David S. GoyerSteven Grant e Ron Marz abarca os cinco primeiros números do título mais o especial JSA Secret Files and Origins #1, cuja leitura nos traz uma boa dose de informações e o status desamparado de alguns heróis, estabelecendo muito bem uma separação entre a antiga e a nova geração, aludindo a um possível retorno da Sociedade da Justiça e abrindo janelas dramáticas que seriam amplamente aproveitadas nas edições seguintes.

E a história começa com o funeral de Sandman (Wesley Dodds), uma escolha interessante do roteiro que serve para afunilar os mais diferentes núcleos de personagens, com todo mundo tendo um motivo orgânico para estar no mesmo lugar e, como já é esperado nessas situações, enfrentar em parceria o primeiro impasse que surge no horizonte. Num primeiro momento, imaginei que o enredo se destinaria a uma investigação mais séria a respeito da morte de Dodds, mas mesmo a denúncia de que ela não foi “por acaso” não é forte o bastante para que se siga um caminho de suspense do tipo “quem matou?“. Essa não-abordagem tem seu preço, porque parece algo importante demais para servir apenas como citação que direciona a história para outro caminho, mas dá para entender o que os roteiristas quiseram com isso: tornar o luto (o fim de uma coisa) em recomeço, reativando a Sociedade com antigos e novos membros.

Pequenos dilemas de personagens são parcialmente abordados aqui (o que se refere à jovenzinha Courtney Whitmore, futura Stargirl é um dos mais simpáticos) e a atenção maior fica mesmo a cargo do Senhor Destino, que inicialmente conhecemos sob o poder de Jared Stevens, mas que depois passa para as mãos de Hector Hall. A ação de Mordru para conseguir se apossar do poder de Nabu faz o enredo girar em torno da “mitologia egípcia da DC“, e finaliza o ciclo aberto com a morte de Dodds recriando a Sociedade da Justiça e deixando-nos, ao final, com um Sand (Sandy Hawkins) “reformulado”, após os seus problemas com o corpo a base de sílica e a chegada de um novo vilão na área, o Geomancer (Adam Fells, ligado ao Conselho), além de outros dois personagens que voltariam a aparecer nas revistas do grupo.

Um começo que não pretende demais, apenas joga com a simples reunião e recriação da equipe, trazendo-nos uma boa arte (especialmente nos momentos de batalha) e conseguindo gerar um ótimo cliffhanger para o leitor. Um arco que faz o serviço que toda primeira história de um título deve fazer: animar o leitor para continuar acompanhando a saga. É assim mesmo que se começa uma boa jornada.

SJA: Justiça Seja Feita (JSA: Justice Be Done) — EUA, agosto a dezembro de 1999
Contendo: JSA Vol.1 #1 a 5 + JSA Secret Files and Origins Vol.1 #1
No Brasil: Wizard Brasil #31 a 35 (Panini, 2006) / DC Comics – Coleção de Graphic Novels # 87 (Eaglemoss, 2019)
Roteiro: James Robinson, David S. Goyer, Steven Grant, Ron Marz
Arte: Stephen Sadowski, Derec Aucoin, Scott Benefiel, Eddy Newell, Chris Weston
Arte-final: Michael Bair, Mark Propst, Eddy Newell, Chris Weston
Cores: John Kalisz, Heroic Age, Gloria Vasquez, Tom McCraw
Letras: Ken Lopez, Janice Chiang
Capas: Alan Davis, Mark Farmer, John Kalisz, Heroic Age, Stephen Sadowski
Editoria: L.A. Williams, Peter Tomasi, Maureen McTigue, Tony Bedard
164 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.