Crítica | Slasher: Solstice – 3ª Temporada

O que faz de Slasher – Solstice, uma autêntica narrativa slasher? O aniversário de uma tragédia traz de volta alguém com desejo de vingança. Crimes em série, interligados por tal acontecimento do passado, ocorrem dentro de um determinado dia. Pode ser o dia 31 de outubro, a noite de Natal ou uma Sexta-Feira 13 do calendário anual. Um ou mais psicopatas utilizam um traje para cometer seus crimes, geralmente com armas brancas, isto é, machados, facas, serras, serrotes, bisturis, alicates, furadeiras, etc. A nova temporada da série Slasher traz tudo isso e muito mais, ao erguer a sua história numa sólida base de questões raciais, sociais e cibernéticas.

Aaron Martin, criador da série, retorna para o posto de produtor, numa temporada novamente produzida e lançada pela NETFLIX, serviço de streaming que tal como soubemos desde a segunda incursão, tornou-se o responsável por comprar os direitos de produção e exibição do canal Chiller, transmissora canadense especializada em histórias de terror. No mesmo formato antológico das duas primeiras incursões, temos um perigoso e mirabolante assassino mascarado a perseguir jovens numa região que desta vez, não é nada distante da civilização, ao contrário, é badalado e habitado por pessoas de baixa renda, um caldeirão multicultural que já ferve por conta de seus preconceitos, agora ainda mais caótico por conta de uma série de assassinatos macabros.

Na temporada anterior, um grupo de pessoas, amargados pela sensação de culpa, retornam ao local onde há um terrível segredo guardado que parece não ser tão secreto quanto o imaginado. Os envolvidos, um a um, tal como rege a cartilha slasher, são mortos por uma impiedosa entidade com muita sede de vingança. Em meio à neve e ao clima obscuro e distante de qualquer sinal de ajuda, o horror se estabelece e mancha a neve de sangue. Mancha não, encharca. Sem ligação com os acontecimentos descritos, haja vista seu caráter antológico, a terceira temporada traz um psicopata com uma fantasia de druida, sedento por violência e vingança. Se o leitor for um espectador atento e já acostumado ao estilo slasher, reconhecerá o assassino bem antes do desfecho.

Desta vez, um jovem festeiro e promíscuo é assassinado. Kit (Robert Cormier), personagem que possui uma ligação direta ou indireta com todos que serão perseguidos um ano depois de sua morte é o típico canalha bonitão desejado por todos. Com belo corpo e sorriso, o irresistível loiro que atrai homens e mulheres exala sexualidade. Como ele mesmo define num flashback, não difere homem, mulher, nada. Se possível utiliza até animais e objetos, um tipo que os psicopatas mascarados amam ceifar a vida de maneira violentamente.

Certo dia, no retorno de uma festa, o rapaz é abordado por uma figura mascara que parece lhe cobrar o preço de algo. Persegue-o e golpeia constantemente com uma faca, até o desfecho do “crime-espetáculo” que se encerra diante de várias testemunhas que não fizeram absolutamente nada para ajudar. Cada uma com seus motivos: medo, paralisia diante do susto, sensação de devida punição para o habitante promíscuo do prédio, dentre outras motivações. Uma das moradoras tem a infelicidade de compartilhar o corpo nas redes sociais e torna-se alvo de críticas, o que culmina num ciclo de ódio e preconceito que termina em tragédia para todos os envolvidos.

Desta maneira, quem curtiu ou compartilhou, julgou ou silenciou, em suma, todos que estão ligados aos acontecimentos da noite do assassinato de Kit encontram-se com a vida por um fio. A polícia, tratada como personagens sem o devido respeito, tamanho despreparo diante de situações inverossímeis, não consegue achar um padrão e acaba sendo parte integrante da possível lista de vítimas. Um clichê que deveria ser repensado, principalmente na proposta que é apresentada, de representação da mulher negra e seus enfrentamentos. Se é para discutir estereótipos e desmontá-los, por que a detetive afro-americana precisa ser tão estúpida a ponto de ficar o tempo todo de costas para possíveis ameaças?

Interessante observar que das três temporadas, essa é a incursão com final mais pálido, apesar do seu potencial. Com um riquíssimo subtexto político, isto é, os conflitos entre uma afegã, um representante da supremacia branca, um mexicano e afroamericanos, Slasher – Solstice vai além dos clichês da penalização para quem é sexualmente ativo, usa drogas ou se comporta fora dos ditames tradicionalistas da lógica conservadora estadunidense, dentre outras posturas já clássicas que definem a lista de mortos na tela nos próximos instantes de exibição. Confinados para que Adam MacDonald consiga tecer os fios ainda soltos da história, os episódios finais, em especial, os dois últimos, perdem bastante ritmo, mesmo diante de mortes provavelmente inspiradas nos crimes hediondos da franquia Jogos Mortais.

O caráter excessivo das mortes também é outro grande problema. Machados que trucidem crânios por meio de golpes em primeiro plano e outras nojeiras são geralmente características de filmes slasher sem classe. As mortes da terceira temporada exageram demais e preferem a explicitude ao poder da sugestão, o que torna algumas passagens artificiais e absurdas, tais como a morte de um personagem que teve a sua face triturada por um liquidificador. A sensação que temos é a busca por mortes mirabolantes para suprir a carência dramática, o que de fato não é uma verdade, pois há fios dramatúrgicos importantes para tornar a temporada uma história empolgante e bem amarrada, o problema todo é a maneira de execução dos realizadores.

Além da xenofobia gritante, inicialmente trabalhada por diálogos superficiais, mas que ao passo que a narrativa avança, ganha notoriedade e relevância para a compreensão das motivações de vítimas e criminosos, há também a irritante, divertida e caricata Violet (Paula Brancati), personagem ávida por likes e seguidores nas redes sociais, representação alegórica para os efeitos desmedidos das redes sociais na vida dos seres humanos no tecido da vida contemporânea. Tanto ela quanto a outra personagem catalisadora de mais tragédias após a morte de Kit são alertas para os problemas oriundos da falta de bom senso alcançada na era da cibercultura. Esse segmento é trabalhado de maneira eficaz pelos roteiristas.

Com edição repleta de linhas temporais que se cruzam, com bastante uso de flashbacks, Slasher – Solstice aprofunda bem os perfis de seus personagens, tipos que se tornam algo além do corpo humano criado para ser retalhado pelo assassino da vez. A condução musical de Shaw Pierce é um caso curioso, pois não é intrusiva demais, ao contrário, parece ausente às vezes. As cordas e ferrões de Harry Manfredini (Sexta-Feira 13) e Marco Beltrami (Pânico) não estão por aqui. Ainda sobre o departamento sonoro, vale ressaltar o design de som que sempre deixa os sons de sirenes policiais como painel de fundo de várias cenas, numa alegoria para a sensação de perigo sempre presente neste fatídico e amaldiçoado espaço narrativo.

O subgênero slasher está mais vivo do que nunca. Ano passado, um de seus principais representantes trouxe novo fôlego para a franquia que assume: Michael Myers, com direito ao retorno de luxo de Jamie Lee Curtis como protagonista, sob a produção musical e demais pitacos do mestre John Carpenter. Fonte inesgotável de narrativas que estão constantemente em reciclagem, os filmes e séries na linha slasher ainda vão demorar muito para adentrar no obscurantismo industrial.

Uma pergunta, óbvio, fica no ar. Haverá quarta temporada? Creio que seja possível comercialmente, mas os envolvidos precisam ampliar as suas possibilidades para conseguir fazer algo diferente. Não que seja necessário, afinal, os consumidores ávidos do estilo slasher no geral querem ver mortes sangrentas, sexo e nudez, palavrões e coisas do tipo. Isso, portanto, é mais aceitável e passageiro num filme de 90 minutos. Quero ver dar conta de oito episódios e um feixe maior de personagens.

Slasher – Solstice (Idem, Estados Unidos/Canadá – 23 de maio de 2019)
Criação: Aaron Martin
Direção: Adam MacDonald
Roteiro: Aaron Martin
Elenco: Baraka Rahmani, Paula Bracanti, Lisa Berry, Salvatore Antonio, Dean McDermott, Gabriel Darku, Rosie Simon, Joanne Vannicola, Robert Cormier, Mercedes Morris,
Duração: 45 min. por episódio (08 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.