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Crítica | Small Axe – 1X01: Mangrove

por Davi Lima
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Mesmo que a base introdutória e conceitual da luta antirracista e por justiça social deste primeiro filme da série Small Axe seja o historiador socialista trotskista chamado C.L.R. James, a obra se finaliza muito mais na plenitude da fotografia do diácono batista Paul Bogle, o que alivia a montagem de cenas da polícia opressora dentro do restaurante Mangrove, onde a foto participa do cenário. Não que isso instaure uma história sobre repouso ou tranquilidade, até porque não combinaria com a figura ativista do jamaicano pregada na parede. Porém, a história real dos The Mangrove Nine, que foram para a corte britânica após um protesto, e do líder Frank Crichlow, dono do restaurante Mangrove em Notting Hill, Londres, dramatizada pelo diretor Steve McQueen (12 Anos de Escravidão, As Viúvas, Shame), flui esteticamente por conceitos de perseverança e indignação num implícito sublime de resolução.

Desde os primeiros minutos com a narração em off da frase de C.L.R. James sobre líderes que nascem como seres humanos diferentes, esperançosos e enraizados na comunidade, a fotografia bem ao estilo McQueen, muito onisciente, acompanha geograficamente por Notting Hill, num flow pleno de planos longos que contextualizam a relação da frase com Frank Crichlow, interpretado por Shaun Parkes. O personagem sempre está instaurado pela carga emocional dos momentos, em que seu começo introduzido pelo voice-off, sua indignação numa cela rodeada por uma iluminação celestial de uma janela e um valor de planos detalhe na face do ator Shaun resguardam tempos de reflexões melancólicas, e ao mesmo tempo, de esperas reconfortantes. Centraliza-se nele uma atuação de raiva, mas relacionada a sua posição de segurança de expurgação explosiva inteligente e razoável. Soa selvagem, porém é exatamente a reação às situações opressivas de seguranças da corte, ou dos policiais racistas de maneira maléfica, que são selvagens de fato, provocando negativamente o espaço do protagonista Frank, que vai se tornando o próprio restaurante Mangrove em transformação libertária do significado que Frank quer que o restaurante seja e o que ele realmente é.

Esse efeito progressividade narrativa de descoberta que segue o discurso estrutural da comunidade negra se formando naturalmente pelo restaurante, assim como a aversão crescente ao sistema jurídico britânico por ser tendencioso ao julgar os policiais racistas, sempre estão inteirados à composição da mise-en-scène, a unidade estilística do filme. Por isso, o espaço de Notting Hill é registrado em fotos como um artifício temporal de montagem, um movimento frontal e leve da câmera acompanha as pessoas do Mangrove saindo do restaurante e tomando as ruas com a fotografia captando o ritmo dançante do carnaval, e na segunda metade do longa o contexto de tribunal freia emocionalmente o ativismo, testando a perseverança na fé da mudança estrutural. Esses três fatores mais conectados com a imagem elevam a  segunda instância do desenvolvimento narrativo de como a comunidade se trata e como se envolve socialmente no espaço, com um grupo de Panteras Negras liderado por Altheia Jones (Letitia Wright), um casal em conflito pelo parceiro Darcus Howe (Malachi Kirby) se importar mais com a intelectualidade dos manifestos do que com a realidade deles e um grupo policial racista liderado por Frank Pulley (Sam Spruell). Já o terceiro impulso efetivo da trama em progresso é o detalhismo cultural, as referências jamaicanas históricas e as nuances dos personagens dentro da luta coletiva que só se manifesta quando Frank, o corpo Mangrove, que une a emoção e o espaço num personagem, se convence da luta necessária diante da incessante injustiça dos policiais.

Nessa perspectiva de ativismo elaborado, de engajamento amplamente cinematográfico nas ruas e no espaço aberto, tudo se torna enclausuramento quando a luta faz-se especificamente jurídica, quando há o enfrentamento real com a estrutura de poder que se legitima pela utópica imparcialidade da legislação britânica. Se antes, nas transições da montagem, havia cálculos sonoros de conflitos entre um corte e outro, e numa linha de cenas sucessivas de tensão com a polícia havia alívios ensurdecedores de silêncios, focados num quadro da parede do Mangrove de alguma personalidade histórica importante para Frank; dentro da corte, ambiente estático e controlado por um juiz que mesmo em articulações de palavras não conseguia disfarçar o racismo, não há mais grito ou explosão espacial e discursiva, tornando a montagem e o ritmo preceitos quase invisíveis no quesito dialético. Assim, o ativismo se coloca em outra circunscrição, em que se torna um teste de paciência quanto ao freio de trabalhar com o gênero de tribunais, porém um desafio empolgante em que os personagens não trabalham mais em prol do automanifesto, mas se tornam réus de acusação.

A partir disso o ponto emotivo se centraliza em Frank, enquanto o discurso declarativo e apelativo é concebido por Altheia e Darcus. Soa impressionante como o diretor Steve McQueen consegue reestruturar o filme no modelo de tribunal sem desperdiçar o enraizamento engajante da primeira parte do longa. Logo, se Frank era tomado como escolhido pela narração, e Darcus repete-a recitando a frase do C.L.R James para Frank, seu auge de engajamento pela luta, de perseverar com o júri para ele ser considerado livre, é o implícito sublime, a concretude dos antepassados numa foto guardada com uma Bíblia que recorta o filme na ambiguidade entre a tensão de uma batalha na corte e a plenitude da conscientização que Mangrove era a nova casa dos imigrantes das Índias Ocidentais.

Infere-se, dessa forma, que Mangrove é uma conquista histórica, mas dramatizada como uma alta legitimação em todas as dimensões horizontais. O efeito cinematográfico desse filme possivelmente se limita a uma pequena parte por estar entrosado com os fatos da década de 70, independentemente de sua fidelidade. No entanto, a obra se amplia por representar um caso de ativismo inteligível e razoável, como Darcus define em sua declaração no tribunal, dentro de um ambiente mais popular que é o cinema televisivo hoje e poder extravasar uma história significativa para conhecimento da história do movimento negro. Como primeiro episódio, a música de Bob Marley com o provérbio sobre Small Axe, “pequeno machado” em relação à grande árvore, a integração física e coletiva de Mangrove, e do protagonista Frank, com relação ao espaço que ele desenvolve no restaurante, não revela nada religioso ou espiritual diretamente, apesar da Bíblia, do diácono na fotografia e da citação do orixá Ogum. Entretanto, a emotividade esperançosa e de plenitude que Frank alcança em sentimento não é apenas reflexo material de uma conquista numa guerra contra o racismo, e sim de uma batalha involucrar de um herói muito simbólico para uma Mangrove muito viva além das paredes de um restaurante.

Small Axe – 1X01: Mangrove (Reino Unido, 15 de novembro de 2020)
Direção: Steve McQueen
Roteiro: Alastair Siddons, Steve McQueen
Elenco: Shaun Parkes, Letitia Wright, Malachi Kirby, Rochenda Sandall, Jack Lowden, Sam Spruell, Nathaniel Martello-White, Richie Campbell
Duração: 127 min.

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