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Crítica | Small Axe – 1X02: Lovers Rock

por Davi Lima
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Desde a passagem do trem até o convite de uma mãe para sua filha ir à igreja, o diretor Steve McQueen torna seu filme não apenas uma imagem em movimento, mas uma obra audiovisual em movimentação harmônica da festa com o cotidiano determinadamente estático. Embora a mensagem do episódio seja descrita em dedicatória aos que amam festas e farras, o conjunto da montagem que coletiviza o trabalho esqueleto de forjar a festa, o uníssono da pista de dança ao cantar Silly Games de Janet Kay e o romance que anseia por prosperar após a madrugada, indica muito mais uma plenitude que se descobre no momento como ponto de partida, do que perseverar na memória uma noite de descobertas, como é o imaginário mais comum. 

Semelhante ao primeiro filme da série Small Axe, o segundo episódio, que tem como título Lovers Rock, se torna uma unidade desenvolvida em todos os sentidos da experiência com a obra, pois assim como o estilo musical intitulado, o filme é como uma música de 1h criada no encaixe da trilha incidental e não incidental com a fotografia dançante. Porém, como qualquer música precisa ser puxada melodicamente, necessita-se de um público, uma casa e umas caixas de som indicadas na história para engatar uma festa, que é a própria sonoridade nessa metáfora com a música. A indicação para onde a narrativa caminha é plenamente interpretativa, as pessoas que vão chegando, vão conversando, e a trama vai iniciando de maneira mais explícita, mas nunca abrindo mão do envolvimento dançante sensitivo no efeito do som e da montagem de cenas detalhadamente esmaecidas. Tudo isso para não se perder o senso de ritmo que engaja na festa que os personagens estão experimentando, da mesma forma que o espectador pode dançar ouvindo Kung Fu Fighting de Carl Douglas quando é tocada.

Em vista desse êxito mais entretido, a dificuldade de inserir um conflito mais roteirizado de diálogos, ou paradas em geral da dinâmica de baile, são baseadas na mesma função de uma roda-viva, em que os dançantes se olham, alguns mantém contato físico, transitam pela geografia da casa de dança, e quando pensam em sair da festa retornam a festa-música da segurança. A todo momento há um retorno ao movimento da canção, à pista de dança, porém sempre com um acréscimo dramático que vai sendo expurgado. O centro disso é a formação de um romance em meio ao desapego de uma parceria feminina que vai à festa, os ciúmes de uma aniversariante dona da casa de dança e o espírito juvenil de fugir da religiosidade tradicional da família. A protagonista Martha (Amarah-Jae St. Aubyn) é o princípio humano do movimento na história, pois quando o plano fotográfico que grava a porta da sua casa, próxima a passagem do trem, antes, apenas o comboio e o seu som nos trilhos apresentavam a movimentação que compõe o audiovisual. Por isso Martha representa bem a empolgação que traz a dança, fugindo de casa para aproveitar seu gosto musical de Lovers Rock, fazer seu gosto concretizar-se num homem e carregando uma cruz subentendida de sua criação religiosa. 

Assim, apesar da profusão da vertigem macia que o filme todo provoca, soa também como uma purificação de teores religiosos. O coletivo inicial ritmado para conceber a festa, a dança sexual de gracejos corporais sem sexo na balada e os momentos finais da festa, com uma manifestação Rastafári em meio a chamada pelo DJ de Mercury Song, tem esse apelo semelhante a um carnaval, uma folia libertadora. Entretanto, a diferença crucial de uma farra é que Lovers Rock não é sobre esquecimento da realidade, jogos às escondidas e sexo hedonista. Isso fica bem claro em como a festa mesmo em sua espiritualidade é racional em incluir o cotidiano, sendo um refúgio de proteção contra o racismo e violência dos britânicos brancos das ruas, de aceitação do ladrão da rua que vira DJ, e a perda de virgindade como presente de aniversário pode ser indecente diante do machismo. 

Logo, sintetiza-se a questão social, em que a luta recorrente entra na festa, mas não intromete o ritmo, a dança, a música como audiovisual crítico e envolvente. Quando alcança-se o auge de “loucura” da festa, como uma manifestação de justiça, após danças de casais e vozes a capella, o filme não para, em que o dia, o sol e o romance de Martha persiste após a festa, como se ela estivesse voando na bicicleta voltando para casa, sem a fotografia mostrar a rua. Em geral, não se trata de uma noite, de uma purificação juvenil momentânea, pois a cruz que Martha leva sempre está à espreita quando ela vai e volta da festa. Seu namorado a leva pro seu trabalho, o cotidiano e a iluminação da manhã se torna apaixonante assim como a noite, e a casa de Martha não é mais estática, mostrando seu quarto cristão. Dessa maneira, é como se ela resolvesse e ajudasse conflitos dentro da dança da música e como resultado descobre o amor da religiosidade que é engessada por uma tradição que não necessariamente define a purificação. 

O movimento, a estética dos valores que Steve McQueen direciona em sua dedicatória para os que amantes de festas parece resumir a narrativa à jovialidade dos anos 80, período que se passa a história. No entanto, o que torna esse filme tão incrível é que a dança audiovisual não termina na festa, e obstina no dia-a-dia aparentemente silenciado de extraordinário. Parece irônico, realmente uma antítese quando Martha é chamada para ir à igreja pela sua mãe após a festa, mas é exatamente pela incompreensão do momento Lovers Rock como expressão de uma verdadeira igreja moderna, rendendo a injustiça racial, a violência masculina e o imediatismo sexual. O ritmo, a dança e o corpo, o cotidiano repete o foco nisso, mas agora com Martha purificada.

Small Axe – 1X02: Lovers Rock (Inglaterra, 22 de Novembro de 2020)
Direção: Steve McQueen
Roteiro: Courttia Newland, Steve McQueen
Elenco: Amarah-Jae St. Aubyn, Micheal Ward, Shaniqua Okwok, Kedar Williams-Stirling, Ellis George, Francis Lovehall, Daniel Francis-Swaby, Kadeem Ramsay, Romario Simpson
Duração: 70 min.

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