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Crítica | Small Axe – 1X04: Alex Wheatle

por Davi Lima
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O feito da série de filmes Small Axe no canal da BBC One, produzida e dirigida por Steve McQueen, a cada episódio se torna mais evidente. Seja por retratar na década de 70 e 80 a comunidade negra das Índias Ocidentais em Londres, seja por principalmente utilizar da via televisa como popularidade para tratos históricos importantes na luta contra o racismo, com protestos, figuras públicas e histórias verídicas de importância para resistência contra a chamada Babilônia da opressão racial. A junção do canal britânico, com reflexo de reprodução audiovisual de temas didáticos, com a base artística do diretor “oscarizado” Steve McQueen chegam a um consenso mais ativo nesse episódio sobre a biografia do escritor Alex Wheatle. Se com Mangrove há o exercício trotskista com C.L.R James sobre o herói coletivo, em Lovers Rock há o ordinário transformado pela plenitude da música e em Red, White and Blue há a diferenciação na pluralidade do serviço público de Londres; esse quarto episódio biografa artisticamente Alex se inspirando com Os Jacobinos Negros de C.L.R, se molejando com a música e conhecendo qual o seu serviço público na educação.

Quando a primeira imagem que mostra Alex (Sheyi Cole) é representando sua prisão, o plano fotográfico que mostra da sua virilha para cima, com o ator sem blusa, é muito claro com esse início a posição enclausurada do protagonista em todas as suas dimensões, que vão sendo reveladas ao longo da narrativa em mais nuances da montagem elíptica da passagem do tempo. Esse artifício preserva a prisão mental de Alex, em que a falta de linearidade da história é semelhante a sua mente que não conhece o seu passado e por isso nunca parece se libertar para um futuro realmente seu. Sua personalidade sempre é influenciada, não há um Alex definitivo, e isso não se refere a seu amadurecimento e descobertas da cultura negra em Brixton após se mudar do condado de Surrey. Sua completa falta de conhecimento sobre o que é Babilônia, sobre se reconhecer africano, e não inglês negro, é o artifício didático do roteiro de Steve McQueen e Alastair Siddons que se associam ao televisivo, enquanto Mcqueen tem liberdade na direção e na montagem com o montador Chris Dickens de tornar o didatismo pungente nas transições criativas de tempo, tanto para a progressão da história como para compreensão emocional da dimensão educativa de Alex.

Logo, assim que o personagem Simeon (Robbie Gee) na prisão evoca verbalmente a narrativa em incitar Alex a contar sua história para ele, é exatamente essa chamada para o passeio pela vida do protagonista, além do que se conta paralelamente em sua mente com lembranças de sofrimento. Por duas vezes personagens da história dizem a Alex que não há como medir seu sofrimento, porque o que se conta em tela é conhecido pelo seu ao redor, da mesma maneira o seu ao redor sempre parece o isolar. Por isso ele sempre está buscando na música, por exemplo, sua voz de protesto contra seu deslocamento, ou até mesmo no comércio de drogas um respeito, um jeito de acochambrar sua solidão extremamente internalizada pela atuação Sheyi Cole como Alex. A fotografia usurfrui bastante desse trabalho preciso do ator, embora possa ser interpretado como automático, diante da paralisia facial extremamente melancólica que Cole implementa na interpretação. Em cenas com rimas em que o ator está deitado após ser detido, ou por professores, ou policiais, o aproximar e o distanciar da câmera de seu rosto capta uma complexidade que apenas um ator bem postado para ser modelado pela imagem pode causar um efeito tão efetivo de drama e progressão emocional. 

Alex parece fluir com a montagem em elipse, pois ao mesmo tempo que se conta a história dele mais ele parece se retrair nas cenas seguintes, mesmo que mais solto, emocionalmente falando, na comunidade de Brixton. Pois toda vez que a narrativa retoma a prisão é como se o passado contado fosse um aprendizado da luta, mas não do envolvimento dela da maneira certa. Assim, a brecha do filme para colocar imagens documentais do incêndio de 1981 que matou 13 negros em Brixton, Londres, a partir das datas dos acontecimentos do protagonista e com o crime, é o firme fundamento, externo, que determina a injustiça jornalística e governalmente britânica, representando protestos indo a rua. Esse fundamento extra campo, embora totalmente relacionado com Alex, é o ponto histórico didático que vai empurrar a narrativa não linear para o presente da prisão. A luta ferve o protagonista para um protesto, mas sua maldição é o tráfico. Nada enfaticamente tira Alex da prisão, seja por um apelo de harmonizar com o presente que o filme conta dele preso desde da primeira cena, seja para que a primeira cena evidencie que o contar do seu passado só retrata sua prisão bem anterior à cadeia física. 

Por isso o Rastafari do personagem Simeon e o livro Os Jacobinos Negros transformam a prisão de Alex em um grande peixe de Jonas. O ambiente da descoberta. Talvez, nesse sentido, o episódio por ser didático e ser explicitamente dinamizado pela montagem da direção de Steve McQueen pareça um telefilme adaptado para a cinematografia qualitativa de McQueen, abaixando o nível em comparação aos capítulos anteriores da antologia Small Axe. No entanto, está mais para uma fusão do que compensação de intuitos produtivos, em que Alex Wheatle não apenas ganha uma biografia como uma narrativa extremamente audiovisual, mesmo após a estética de apresentação do episódio ser baseada nas folhas e escritas de uma máquina de datilografar. Em nenhum momento McQueen se submete a didática roteirista em homenagem a Alex ser escritor, tornando o voice off e qualquer efeito mais comum de explicação biográfica um resultado do estudo de personagem de uma figura histórica. 

Por fim, essa é a mágica, em que ao mesmo tempo que se conta Alex conhecendo seu passado, se libertando, como base para definir seu futuro como educador em seus livros, o espectador pode aprender, como nas boas aulas histórias sobre um homem chamado Alex Wheatle e um incêndio determinante para a luta contra a injustiça racial na Inglaterra na década de 80. O melhor televisionado educativo da BBC e o melhor cinema rebuscado de Steve McQueen.

Small Axe – 1X04: Alex Wheatle (Inglaterra, 6 de Dezembro de 2020)
Direção: Steve McQueen
Roteiro: Alastair Siddons, Steve McQueen
Elenco: Sheyi Cole, Robbie Gee, Jonathan Jules, Elliot Edusah, Johann Myers, Khali Best, Ashley Mcguire, Leah Walker
Duração: 66 min.

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