Crítica | Sob Fogo Cerrado

A mídia estadunidense é voyeur da miséria que a própria nação espalha em seus conflitos bélicos ao longo da história das nações nos últimos séculos e guerras. Sob Fogo Cerrado é um filme que retrata isso muito bem. Dirigido por Roger Spottiswode, cineasta guiado pelo roteiro de Clayton Frohman, dramaturgo que por sua vez, inspirou-se no texto de Ron Shelton, a narrativa acompanha Russel Price (Nick Nolte), fotógrafo responsável pela cobertura jornalística de conflitos em diversos países. Ela viaja sempre junto ao casal Claire Stryder (Joanna Cassidy) e Alex Grazier (Gene Hackman). Como celeuma da vez, a equipe vai ter que lidar com uma “insurreição” e a Frente Sandinista de Libertação Nacional, problemas ambientados na região de Nicarágua, em 1983. É quando começam os problemas.

Dentre as questões temáticas deste filme dramaticamente atemporal, podemos destacar: há limites no desenvolvimento do trabalho de um fotojornalista? Como tal profissional é visto dentro de uma sociedade de valores? Qual a linha que delimita o que pode ou não ser realizado por um representante de qualquer veículo de comunicação? Por que os fotojornalistas são considerados frios e acusados de ganhar a vida em cima do sofrimento e da miséria alheia? No caso do fotógrafo especializado em jornalismo, retratar a notícia nem sempre é fácil, principalmente numa sociedade interessada em ver corpos dilacerados, criminosos torturados e outras cenas típicas dos filmes de horror. Violência, na cultura do medo, vende. É como vender sexo na mídia. Rapidinho sai.

Em conflito com as forças do governo repressor de Anastasio Somoza, estes “rebeldes” querem derrubá-lo do poder a qualquer custo. Cidades arrasadas, devastadas pelos destroços das bombas, fome e morte por todo o caminho. Dentre tantas lições, há também a reflexão sobre a irracionalidade da guerra, principalmente quando a Casa Branca está para enviar U$25 milhões para os seus interesses políticos locais, haja vista a manutenção de sua postura imperialista, mas recua quando descobre que as forças rebeldes estão espalhadas como um rizoma. Ao menos é o que parece, segundo a fotografia de Russel Price, convencido, depois de presenciar tanta coisa, a fotografar o líder do grupo, morto, mas como se estivesse vivo, estratégia que faria os estadunidenses recuarem com seus investimentos, desacreditados com a possibilidade de vitória por parte das forças repressoras.

Para deixar as coisas ainda mais dramáticas, Price vive um romance proibido com Claire, interesse amoroso de seu amigo Alex. Como proceder? Entre idas e vindas, Price vai além da sua função de informar e toma partido da situação, cometendo a foto descrita anteriormente. É o ponto de partida para o derramamento de sangue na região. Além de ser um personagem construídos com “toques humanitários”, há também o roubo de suas fotos, utilizadas pelo lado de Somoza para identificar e eliminar alguns civis, o que se configura também como manipulação do trabalho jornalístico de informar. As fotos ganham outro viés, para o bem e para o mal. Ao passo que o filme avança, em seus 128 minutos, o protagonista parte rumo ao lado “bom da força”, como mencionado.

Ele ajuda aos necessitados, descumpre requisitos éticos em prol da humanidade, mas também se torna um privilegiado dentro de uma sociedade de idólatras. Poder e privilégios também estavam em jogo, que ninguém se engane com isso. Ademais, o que fica evidente numa análise breve é a presença do jornalismo como fonte diária de informação e desinformação, trajetória desconfigurada desta prática dentro de seus “valores”, aquele monte de palavras entoadas durante a colação de grau de quem se forma nesta profissão. O jornalismo pode mudar o curso da história? Sim. Mas nem sempre para um caminho que seja confortável, ético e ideal, que atenda de maneira abrangente aos interesses mais gerais, ao invés de prestigiar apenas uma parcela dos envolvidos em determinados processos.

Para flertar com sua narrativa sobre fotojornalistas e conflitos éticos, o cineasta Roger Spottiswode teve em sua equipe a direção de fotografia de John Alcott, eficiente ao contemplar os personagens em planos abertos e também na captação de cenas mais fechadas, intimistas. O design de produção de Toby Carr, adequado ao estilo de filme, dá conta do recado, setores editados por Mark Conte e conduzidos musicalmente pelo veterano Jerry Goldsmith. Tudo isso para expressar esteticamente os elementos melodramáticos do roteiro, reflexão sobre até que ponto um fotojornalista pode olhar sem a devida intervenção, sem tomar partido, em completa isenção, seja lá qual for a situação. Complexo, não é mesmo?

Sob Fogo Cerrado (Under Fire/Estados Unidos, 1983)
Direção: Roger Spottiswoode
Roteiro: Ron Shelton
Elenco: Ed Harris, Gene Hackman, Jean-Louis Trintignant, Joanna Cassidy, Nick Nolte
Duração: 128 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.