Crítica | Sob o Olhar do Mar

PLANO CRÍTICO AKIRA KUROSAWA SOB O OLHAR DO MAR FILME CRÍTICA

Dirigido e (co) escrito por Kei KumaiSob o Olhar do Mar (2002) é um filme com um grande escopo de significados. O roteiro original da obra é, na verdade, do mestre Akira Kurosawa, que o escreveu baseado em uma obra de Shûgorô Yamamoto, prolífico e popular escritor nipônico no qual Kurosawa já havia buscado inspiração para conceber Sanjuro (1962), O Barba Ruiva (1965), Dodeskaden (1970) e Depois da Chuva (1999), filme que o diretor deixou pré-produzido e que estava prestes a começar as filmagens antes de sua morte, em setembro de 1998. O projeto foi assumido por Takashi Koizumi, a convite do filho de Kurosawa. Nos acervos do Mestre, porém, havia ainda um outro roteiro já com o primeiro tratamento pronto, e este viria a ser formalizado por Kei Kumai, sendo, de maneira muito simbólica, o seu próprio canto do cisne.

Há uma particularidade nesse enredo que qualquer espectador desavisado, que não saiba que é algo escrito por Kurosawa, provavelmente deve assumir como uma produção de Mizoguchi, dados os pilares essenciais encontrados na filmografia deste gigante do cinema japonês e que também encontramos aqui: o protagonismo feminino, a temática do amor trabalhada em diferentes níveis e a concepção trágica — mas lírica ou poética — da vida. Kurosawa nunca foi conhecido por ser um diretor de obras que destacassem esses pilares juntos e é por isso que uma obra como Sob o Olhar do Mar espanta positivamente. Há muita semelhança entre esse texto e aquele que o diretor escrevera imediatamente antes (Depois da Chuva), especialmente no tratamento familiar dado a um grupo de personagens mostrados num determinado espaço. Aqui, porém, a chuva e a cheia não acontecem no início e sim no final do filme. E as implicações — e qualidade da obra — são bastante superiores às do longa de 1999.

A trama se passa no século XIX (e pela reconstituição do desenho de produção, é com certeza antes de 1868) e está focada na vida de um grupo de prostitutas, cujas casas ficam em uma região de restinga, próxima ao mar. Há um bela panorâmica aérea no início da obra, onde a câmera se aproxima cada vez mais dos prostíbulos até mostrar a movimentação dos clientes e entrar em uma das casas, onde vemos O-shin (Nagiko Tôno) e suas amigas esperando clientes enquanto leem e ouvem poesia. São os momentos antes de fechar o lugar e tudo está deserto. O espectador já presenciou, a este momento, escolhas delicadas e belíssimas do fotógrafo Kazuo Okuhara (que surpreendentemente só tem cinco títulos no currículo e Sob o Olhar do Mar é o seu trabalho mais conhecido), de um crepúsculo delicadamente alaranjado para um azul noturno marcado delicadamente pelas luzes das casas e pátio central. Então chega um jovem samurai correndo, fugindo de algo, e o roteiro lança o seu primeiro bote diante da temática sobre as vivências do amor.

O elenco feminino aqui está afiadíssimo, seguindo muito bem a tradição de representação mais afetada e teatral que temos em obras ambientadas nesse período da História japonesa. A convivência entre essas mulheres, seus sonhos, suas brigas e a sororidade que vemos marcar o filme de ponta a ponta são cuidadosamente apresentadas, sempre com os homens circulando essas personagens de maneiras distintas, do puro interesse sexual à fuga de seus problemas pessoais. E por estarmos falando de mulheres prostitutas, há também um elemento de classe em alta, algo presente na filmografia de Kurosawa no início e no final de sua carreira. O tratamento dado a essa questão social aparece aqui diretamente e a prostituição, em nenhum momento, é trabalhada como algo cheio de problemáticas morais. Longe disso.

Há um fator humano muito forte em jogo, às vezes pisando no melodramático, é verdade (com cenas que, a despeito de serem bem dirigidas, são inúteis, como o flashback para o passado do segundo samurai por quem O-shin se apaixona), mas mantando-se majoritariamente num realismo lírico, tornando tudo mais caloroso e mais belo, efeito também conseguido pela excelente direção de fotografia — as cenas com filmagens do entardecer e a tomadas pelas mais diversas paisagens, mostrando o andamento das estações, são impressionantes — além de uma bem escolhida trilha sonora, sabendo, inclusive, quando sair de cena e deixar que o silêncio dê o seu recado. Toda essa preparação com temáticas sobre a vida chega ao clímax, de uma maneira realmente inesperada, com uma tempestade que trará um pouquinho de fantasia e muito de poesia para a película.

Há uma delicadeza difícil de abordar em palavras nas cenas finais desse filme, embora tenham me incomodado alguns detalhes dramatúrgicos e de exposição do cenário, como o Ryôsuke (Masatoshi Nagase) remando de maneira nada convincente ou a abertura dos braços de uma certa personagem no final, reafirmando uma entrega que já havia sido claramente exposta (e de maneira muito mais forte e bonita). Contudo, essas lombadas não tiram aquilo que a fita tem de melhor para dar, uma preciosa experiência que nos leva pelos mais diferentes caminhos e comportamentos das pessoas, chegando ao ponto de colocar à prova os laços firmados ao longo do tempo e aquilo que temos de melhor para oferecer aos que viverão depois de nós.

Sob o Olhar do Mar (Umi wa miteita) — Japão, 2002
Direção: Kei Kumai
Roteiro: Kei Kumai (baseado no roteiro original de Akira Kurosawa, inspirado nas obras de Shûgorô Yamamoto).
Elenco: Misa Shimizu, Nagiko Tôno, Masatoshi Nagase, Hidetaka Yoshioka, Miho Tsumiki, Michiko Kawai, Yumiko Nogawa, Tenshi Kamogawa, Yukiya Kitamura, Takayuki Katô, Kumiko Tsuchiya, Rikiya Ôtaka, Renji Ishibashi, Eiji Okuda, Teru Satô
Duração: 116 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.